Ex-embaixador da Guatemala culpa globalização pela questão migratória na América Latina

Luis Alberto Padilla comenta situação da Guatemala e política de “terceiro país seguro” defendida pelos EUA

 17/10/2019 - Publicado há 2 anos
Luis Alberto Padilla, Fundador e Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Investigações para a Paz (IRIPAZ) e ex embaixador da Guatemala – Foto: Divulgação / IRIPAZ

Por 25 anos, Luis Alberto Padilla foi embaixador da Guatemala em vários países e também nas Nações Unidas. Ele é doutor pela Universidade de Paris e professor na Universidade Estadual de Guatemala. Atualmente exerce a função de presidente do Conselho Diretivo do Instituto de Relaciones Internacionales e Investigación para La Paz. O especialista em Relações Internacionais comenta sobre a questão migratória na América Latina – mais especificamente na Guatemala – em entrevista cedida à professora Margarita Victoria Gómez, doutora em Educação pela USP e Pesquisadora no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri-USP) e no Grupo de Pesquisa Migração e Identidade, também da USP. Entre outros assuntos, a conversa aborda a opinião do ex-embaixador sobre a política do “terceiro país seguro”, que envolve países como México e Estados Unidos. Confira na íntegra a seguir:

Por que migram as pessoas ou por que são forçadas a sair de seu país de origem, Guatemala?

A principal razão tem a ver com a globalização, pois é o fenômeno econômico predominante no mundo contemporâneo. A globalização implica que a produção de empresas transnacionais é para o mercado mundial, como podemos ver no caso da indústria automotiva, da aviação, do comércio na internet e da indústria de entretenimento de Hollywood. A produção econômica nacional de açúcar, soja, carne é destinada à exportação. Então, os trabalhadores vão para os mercados de trabalho mais bem pagos, geralmente fora das fronteiras nacionais.

O mercado mundial governa em termos econômicos e, em termos sociais, “manda” no que diz respeito à indústria do turismo ou à livre circulação de executivos e técnicos de empresas transnacionais. As equipes de turismo ou negócios mudam sem restrições porque fazem parte de um setor global que possui hotéis, aeroportos, praias e locais de entretenimento. As restrições são para trabalhadores.

Quem são os que ficam na Guatemala e em que condições?

As pessoas que ficam, como você diz, nos levam a perguntar: Por que elas partem? Qualquer um diria que eles vão embora porque não têm emprego e porque são muito pobres. Essa é a primeira afirmação, que não é verdadeira.

Acabou de acontecer o caso de um pai salvadorenho que se afogou com sua filha quando queria atravessar o chamado Rio Grande, que é a fronteira entre o Texas e o México. O Rio Grande não é realmente tão grande, porque pode ser atravessado em determinados pontos. Este jovem pai foi com sua filha de 2 ou 3 anos e sua esposa. Ele diz à esposa: fique, eu vou passar. Ele deixou a garota e disse para ela ficar com sua mãe. Quando ele se afasta, a garota fica assustada e corre atrás dele e o rio a arrasta. O pai vem em seu auxílio e a corrente arrasta os dois que se afogaram, como aparece na foto (a propósito, eles fizeram uma caricatura em que Trump aparece jogando golfe e tropeça com o pai abraçando sua filha e diz: “Do you mind if I play golf”?). É dramático, é terrível.

Então, um jornalista entrevista a mãe viúva e pergunta: Por que vocês iam aos Estados Unidos? Vocês são muito pobres? Vocês não tinham emprego em seu país de origem ? Ela responde: não, eu era caixa em um restaurante de fast food e meu marido falecido distribuía comida com uma motocicleta. Nós dois tivemos empregos. O jornalista insiste: Por que vão para os Estados Unidos? E a resposta é: porque nos Estados Unidos pagam pelo menos US$ 12 por hora de trabalho.

Os trabalhadores migrantes estão enviando remessas para a Guatemala, 10 bilhões de dólares anualmente (11,2% do PIB nacional), que é a quantidade (multiplicada por dez vezes) do item de maior exportação do país, que é maquilagem têxtil (cerca de US$ 1,2 bilhão anualmente), porque os agroexportadores tradicionais de óleo de palma, açúcar ou café não chegam ao milhar.

Os que ficam são familiares que recebem essas remessas e vivem disso. E, paradoxalmente, por causa do tratado de “livre comércio” do Cafta, eles compram produtos industriais em shopping centers e o dinheiro retorna aos EUA (nosso déficit comercial com o país do norte é de US$ 3,5 bilhões). Ou seja, todas as condições são dadas para se obter uma win-win situation, o problema é que parte desses trabalhadores não possui residência legal e permissão de trabalho.

O senhor tem dados do desemprego na Guatemala?

Bem, o dado exato não é importante (os políticos nunca tocam no assunto). A economia da Guatemala, um país de 15 milhões de habitantes, é dividida no setor formal com muito poucos trabalhadores (1 milhão e tantos registrados no sistema de seguridade social – IGSS) e no setor informal, que absorve 40% ou 50 % da população economicamente ativa que está desempregada e subempregada.

O que significa o Acordo do “terceiro país seguro” entre a Guatemala e os EUA?

O endurecimento da política antimigração que, na minha opinião, é profundamente racista, xenófoba e demagógica, provocou uma resposta, digamos, inteligente, dos hondurenhos. Eles organizaram as caravanas de 2018, moveram-se em segurança com 5 mil ou 6 mil pessoas, pois individualmente seriam expostas a ataques e a desaparecer pela ação de quadrilhas de traficantes ou policiais mexicanos que podem devolver os transmigrantes da América Central, embora as autoridades mexicanas estejam tentando controlar aqueles que cometem essa extrapolação.

Ao chegar à fronteira com os EUA, os migrantes alegam ser vítimas de membros de gangues e criminosos e solicitam asilo por causa da insegurança causada pelo crime transnacional organizado, ligado ao problema do narcotráfico.

Diante desse problema, a resposta de Trump tem sido “bem, tudo bem, peça asilo, mas peça em um ‘terceiro país seguro’, peça no México, onde é por onde vocês passaram”. O presidente do México não aceitou. Então, os Estados Unidos obrigam a Guatemala a assinar um acordo como ” terceiro país seguro” para que seja lá onde os hondurenhos, salvadorenhos (cubanos, africanos, sírios, afegãos ou qualquer país do mundo que atravessa a Guatemala), se mostrar que tiveram que deixar seu país porque a sua vida estava em perigo, aguardem enquanto o processo burocrático seja resolvido. Mas, na Guatemala, houve eleições recentemente, será em 2020 que o Acordo poderá ser aprovado no Congresso.

Pensando na educação, a universidade tem ações para acolher refugiados ou requerentes de asilo?

A universidade começa a abordar essas questões a partir da pesquisa científica e do ponto de vista acadêmico, mas, pelo menos, até onde eu sei, não há programas de assistência a repatriados ou deportados. Nem o governo os possui. Toda a assistência é recebida da Igreja e de organizações não-governamentais. Para os guatemaltecos, injustamente deportados, deve haver alguma ajuda do governo, mas, se não houver, é porque eles retornarão aos EUA.

Qual seria a relação entre cidadania transnacional, migração e mobilidade humana em que você trabalha em algum de seus artigos acadêmicos?

A melhor maneira de resolver o problema da imigração é: se você não quer dar o citizenship, a nacionalidade, porque é isso o que realmente preocupa as autoridades americanas, então elas podem conceder residências legais (Green Cards) e vistos com entradas múltiplas nos passaportes, perdendo assim o medo de que a composição étnica e cultural dos Estados Unidos seja modificada (temor de Samuel Huntington em Choque de Civilizações) e a população Wasp (branca, anglo-saxônica e protestante) permaneça em minoria.


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