Depois de Sete de Setembro

Por Cicero Romão de Araujo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 08/09/2022 - Publicado há 3 meses

Passado o Sete de Setembro, o Brasil parece respirar aliviado – nem tanto porque o pior deixou de acontecer, mas talvez por ter constatado que ninguém cogitou seriamente transformá-lo em realidade. Não há como saber com certeza o que terá se passado na cabeça do protagonista do espetáculo que se viu, mas não é difícil imaginar sua satisfação por ter realizado pelo menos um de seus intentos: justamente tornar-se o personagem central do dia cívico mais importante do País.

Os próprios comentaristas das redes de notícias – que acompanharam full time sua agenda, não obstante a cobertura crítica – registraram o fato: Jair Bolsonaro “tomou conta” do Sete de Setembro. E vale ressaltar: não exatamente a pessoa que ocupa a Presidência da República, mas o chefe de uma constelação de grupos de extrema direita que se consolida como um “líder das multidões”. Que ele venha a ser derrotado no pleito em que busca a reeleição – algo que as pesquisas de opinião indicam consistentemente – será inegavelmente uma boa notícia para a democracia brasileira. Pelo menos a curto prazo. O mesmo não se pode dizer do horizonte que se desenha mais adiante.

Há pelo menos sete anos, nada do que ocorre na política brasileira deveria ser considerado normal. Logo, a boa notícia acima mencionada há que ser entendida como tão provisória quanto o admite a conjuntura extremamente volátil em que vivemos. Tudo pode acontecer, mesmo no curto prazo, inclusive a reversão das atuais tendências das pesquisas; ou algum tipo de iniciativa extraordinária chefiada ou induzida pelo personagem em questão, caso seja derrotado nas urnas.

A fluidez do momento dá margem a muitas especulações, mas já é possível vislumbrar algo um pouco mais sólido, que merece toda nossa atenção. Desde que foi eleito, provavelmente para sua própria surpresa, Bolsonaro tem se esmerado na arte de pisar em dois terrenos aparentemente incompatíveis: com um pé, manobra por dentro das instituições; com o outro, joga por fora delas, deslegitimando-as. Precisa de votos no Congresso? Alia-se à maioria que dele se apropriou. Precisa preservar um elo, mesmo que tênue, com a magistratura judicial? Não hesita um segundo em assinar uma carta rastejante, sabendo de antemão que não terá qualquer consequência. Enquanto isso, gasta a maior parte de seu tempo operando nas margens, nos limites nem sempre precisos da democracia e sua negação, para aprofundar (e ampliar) sua identificação com as massas insatisfeitas com nosso cambaleante regime institucional.

O que dizer dessa época tenebrosa que marca seu mandato presidencial? Inútil buscar a resposta nas exíguas linhas programáticas de sua candidatura, assim como nas realizações de seu governo, igualmente exíguas, ou na propaganda de sua reeleição. Mas isso deveria nos surpreender? Logo no início de seu mandato, num muito noticiado jantar em solo norte-americano, ele mesmo se encarregou de dizer o que de fato pretendia: tratava-se, primeiro, de realizar uma vasta obra de destruição, para só depois colocar algo novo em seu lugar.

Sobre essa primeira parte do roteiro, ainda estamos por fazer a conta de sua magnitude, mas não resta dúvida que Bolsonaro trabalhou nela com método e obstinação. Se não fez tudo que pretendia, na certa fez muito. E, para nosso amargor, ainda logrou coroá-la com uma destruição simbólica: justamente a desfechada neste Sete de Setembro, ao imprimir sua imagem pessoal no dia em que o País comemorava seu bicentenário.

Um imenso nevoeiro cobre a segunda parte dessa aventura insólita. É óbvio que, se reeleito, o personagem receberá um aval inconfundível para levá-la a cabo. Porém, mesmo a hipótese contrária não significará o ponto final do que poderíamos chamar de “a sua época”. Tosco como é e faz questão de ser, mas nem por isso menos intuitivo, os quatro anos lhe terão servido, se nada além, para penetrar fundo numa ferida nacional, cuja natureza e possíveis terapias continuam a desafiar nossa compreensão.


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