Artistas africanos conquistam espaço em "São Palco", a cidade afropolitana

Filme retrata nova diáspora criativa e seus ecos sobre a travessia pelo Atlântico para o Brasil

 Publicado: 22/04/2024     Atualizado: 24/04/2024 as 14:27

Texto: Tabita Said
Arte: Diego Facundini*

No dia 25 de abril, a partir das 17 horas, no Centro MariAntônia da USP, acontece a exibição de São Palco – Cidade Afropolitana, seguido de um debate com os diretores - Foto: Divulgação

O Brasil parou atônito frente ao noticiário que revelou que pelo menos nove corpos foram encontrados por pescadores em uma pequena embarcação à deriva na cidade de Bragança, no litoral do Pará, no último dia 13. O barco teria partido com 25 cidadãos do Mali e da Mauritânia com destino às Ilhas Canárias, na Espanha. O trágico desfecho traz à tona um passado ainda vivido por muitos africanos: a travessia pelo Oceano Atlântico e sua luta por sobrevivência mar afora.

A nova diáspora africana, porém, não se resume à busca por abrigo. Em São Paulo, artistas vindos do Togo, Moçambique, República Democrática do Congo e Angola, entre outras nações da África, conquistam diferentes espaços de performance em diálogo com a população brasileira e suas aberturas, contradições e tensões.

“O espírito dos meus ancestrais está dentro do mar. O mar, para mim, não é o mar que você está vendo. Para mim, é um cemitério”, declara Shambuyi Wetu, artista plástico, cineasta e performer, enquanto escreve o nome de nações africanas em cruzes brancas que leva ao mar. A cena é uma das apresentações do multiartista no filme São Palco – Cidade Afropolitana, que estreia no dia 25 (quinta-feira), no Centro MariAntônia da USP, em São Paulo.

Shambuyi Wetu - Foto: Arquivo Pessoal

“Nesse filme, eu vi pessoas negras, africanas e artistas se virando nessa cidade. Suas dificuldades e inovações” afirma Shambuyi ao Jornal da USP. Vivendo há dez anos em São Paulo e formado pela Academie de Beaux ART de Kinshasa, ele conta que seu sonho é um dia levar uma escola gratuita de formação em artes para seu País, a República Democrática do Congo.

Shambuyi é protagonista da nova produção do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA), na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A obra de Rose Hikiji e Jasper Chalcraft é o quarto filme resultante da pesquisa “O Musicar Local”, desenvolvido com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa deu origem ao projeto Ser / se tornar africano no Brasil: músicas e heranças africanas.

“Desde 2016 começamos a filmar performances, ensaios, encontros com alguns dos artistas que encontramos em shows, festivais na rua e mostras de arte. Estabelecemos relações muito fortes com muitos desses artistas e continuamos acompanhando essa criatividade diaspórica, de homens e mulheres provenientes de países africanos que, aqui em São Paulo, começam a conquistar e construir espaços de atuação e performance”, explica a pesquisadora e produtora do documentário.

Alguns destes palcos foram literalmente construídos por esses artistas em situação migratória ou de refúgio, como é o caso de Yanick Delass, congolês com passagem por São Tomé e Príncipe. O músico é proprietário do Centro Cultural Afrika, um espaço no bairro da Bela Vista, no centro da capital, onde artistas africanos podem apresentar as particularidades das culturas de seus países aos brasileiros.

Rose Satiko Hikiji - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Subo nesse palco

“É o momento que eu mais gosto. Não é criar, não é improvisar; é estar naquele lugar. O que vale para mim é o palco. Se eu estiver ali, é o meu lugar”, conta Delass em um dos registros do filme. Autor, cantor e violonista, sua afirmação parece encontrar reflexo nos versos de Gilberto Gil:

“Subo nesse palco
minha alma cheira a talco
Como bumbum de bebê
Trago a minha banda
só quem sabe onde é Luanda
Saberá lhe dar valor”

O proprietário do Centro Cultural Afrika também figurou na produção anterior do LISA, no filme Afrosampas. Na produção, as câmeras serviram como observadoras de um momento intimista com músicos dos dois lados do Atlântico colocados em contato com suas diferentes sonoridades. O média-metragem ficou em terceiro lugar no Prêmio Pierre Verger de 2022, na categoria Filme Etnográfico.

Além de Afrosampas, Rose e Jasper produziram ainda Tabuluja, codirigido por Shambuyi Wetu, e Woya Hayi Mawe – Para onde vais?, que acompanhou a moçambicana Lenna Bahule e suas estratégias e dificuldades de ser musicista, mulher e negra no Brasil e em Moçambique.

“Afrosampas talvez tenha sido o filme mais provocativo, mas criamos o contexto de intercâmbio para os artistas brasileiros e africanos. Com São Palco, o desafio foi reunir anos de material, filmados durante um longo período que também foi marcado por grandes mudanças no clima político do Brasil, sem falar na pandemia”, destaca Jasper.

O estilo desenvolvido pelos pesquisadores é definido por Jasper como “cinema observacional”, mas que abraça os artistas em cena tornando-os parceiros e cocriadores das histórias. “Não é uma carta de amor a esta cidade maravilhosa e complicada, mas uma tentativa de transmitir a um público internacional as complexidades que os artistas com quem trabalhamos conseguiram virar a seu favor. Tentamos encontrar algo que representasse como eles estão se adaptando criativamente ao seu novo lar”.

Jasper Chalcraft - Foto: MUSICAR LOCAL/Youtube

“São Palco – Cidade Afropolitana tem essa premissa de que São Paulo é uma cidade que vai sendo ocupada por esses cidadãos africanos que, ao saírem de África, trazem o seu pensamento, sua arte e sua forma de transitar entre-mundos”, aponta Rose.

Artista, somente

Um problema persistente para os artistas acompanhados no filme é a ideia de serem enxergados apenas como “artistas migrantes”. Para Jasper, essa categorização não se trata, meramente, de uma demanda por um título. A luta por visibilidade passa pela oportunidade de adentrar os circuitos dos mundos da arte em que trabalham, enquanto os rotulados como “refugiados” acabam sendo marginalizados.

“A arte entra em qualquer lugar, não pede visto, não tem fronteiras. Ela fala todos os idiomas”

Outra questão que perpassa suas experiências no Brasil é a vivência, muitas vezes pela primeira vez, do racismo. “Embora tenham tido de se adaptar à racialização constante e persistente – algo que muitos deles descreveram como uma experiência nova -, essa adaptação não foi feita à custa da integridade artística. Em vez disso, eles parecem ter encontrado formas de serem mais pluralistas, mais abertos”, salienta Jasper.

Serviço:

Filme: São Palco – Cidade Afropolitana

Estreia: 25/04, quinta-feira, 17 horas

Local: Rua Maria Antonia, 294 – Vila Buarque, São Paulo. Próximo àe stação Higienópolis do metrô

Evento gratuito

*Estagiário sob supervisão de Moisés Dorado


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