Carreira docente: entre o frio do dia e o calor da avaliação

Professores da USP participam de encontro para discutir a avaliação docente na Universidade

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Abertura do terceiro Encontro de Professores da USP. Marcelo Knobel (reitor da Unicamp), Vahan Agopyan (reitor da USP), José Sergio Fonseca de Carvalho e Marcílio Alves participaram do evento – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Pode ter sido o frio. Afinal, a temperatura de cerca de 10 graus que fazia na Cidade Universitária, em São Paulo, na última quarta-feira, dia 14, não parecia nem um pouco convidativa para um evento programado para começar às 9 horas. Com isso, os 650 inscritos para o encontro Carreira Docente e Avaliação acabaram se tornando cerca de 200 a ocuparem o auditório do Centro de Difusão Internacional — a maioria preferiu assistir ao evento pelo IPTV, em um ambiente menos gelado. No entanto, essa talvez tenha sido a única nota destoante do encontro, pelo menos na visão do professor da Escola Politécnica (Poli) da USP Marcílio Alves, presidente da Câmara de Atividades Docentes (CAD) e um dos organizadores do evento. “Dos três que já organizamos, este talvez tenha sido o melhor, mais rico e plural”, afirmou ele ao final, referindo-se aos anteriores, que falaram sobre Avaliação (2016) e Universidade do Futuro (2018).

Após a apresentação formal feita pelo reitor Vahan Agopyan, a palavra foi dada ao reitor da Unicamp, Marcelo Knobel. Por cerca de 30 minutos, o físico se ocupou em tocar em temas substantivos quanto à carreira docente, fazendo paralelos com a instituição que dirige. Segundo ele, “ampliar o critério do mérito científico” e “valorizar os papéis complementares do que se espera de uma instituição de ensino superior pública” são essenciais em um processo mais amplo de avaliação. “A ideia mais importante da avaliação não é provar o que a pessoa fez, mas melhorar o que ela fez”, garantiu ele.

O reitor da USP Vahan Agopyan – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Entre vários aspectos práticos e administrativos tocados pelo reitor da Unicamp, três, um tanto fora da curva, tiraram a plateia de sua quietude atenta. O primeiro, quando ele falou de uma “síndrome da galinha”. “A galinha não voa bem, nem corre e nada direito”, brincou, a sério. Traduzindo a metáfora emplumada: o professor não pode querer abraçar com a mesma gula a tríade que compõe uma universidade: ensino, pesquisa e extensão. “Não vai dar certo e acaba não fazendo as coisas da melhor maneira. Temos que ter foco e escolher uma área. Podemos até mudar para outra depois, mas uma de cada vez.”

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Outro ponto que provocou risinhos contidos e cabeças balançando em aquiescência foi quando ele comparou: “A direção quer que você dedique 175% de seu tempo à pesquisa. E você quer que ninguém te diga o que deve fazer”. A última alusão de Knobel que chamou a atenção da plateia foi quando ele afirmou, tendo às suas costas uma enorme tela dividida de power point, que o que estava fazendo era “um contraexemplo” do que o professor contemporâneo deve realizar. “Temos que mudar a maneira de ensinar. Esquecer telas de power points, falas muito longas e alunos apenas assistindo. Mas dá mais trabalho preparar uma aula diferente, ser inovador”, afirmou. “Por que vou fazer diferente do que faço há 20 anos e dá certo? A inércia é óbvia e temos que mudar a nossa cultura, mas isso só acontece com incentivo”. Desta vez não houve risinhos, mas as cabeças concordando continuaram em várias poltronas, acompanhadas de aplausos.

Protágoras e Kant

Talvez quem tenha chamado mais a atenção no encontro — fato referendado por Marcílio Alves, que afirmou que ele era “uma voz importante nesse momento de fúria que vivemos” — tenha sido o professor da Faculdade de Educação (FE) da USP José Sérgio Fonseca de Carvalho. Não pelo que ele tivesse de experiência em avaliação docente e que tais, mas justamente por não ser um especialista na área. Professor de Filosofia da Educação, Carvalho começou sua palestra com dois avisos: justamente que não era um especialista no tema do encontro (o que chamou a atenção pelo convite) e que não iria citar a filósofa Hannah Arendt. Tudo bem, realmente ele não citou a autora de A condição humana. Mas foi buscar no grego Protágoras e no alemão Immanuel Kant fontes para sua fala. Nada mal para um encontro que enveredava por um necessário pragmatismo acadêmico-administrativo.

 

Marcelo Knobel, reitor da Unicamp – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

“O debate sobre carreira docente deve ser público e político”, começou. “É político porque diz respeito ao nosso dever junto aos outros. Nós somos seres políticos e não apenas gregários. Formigas são gregárias, mas nunca ouvimos falar de um golpe de estado em um formigueiro”, atestou ele. Depois de um certo silêncio inspirado por insetos golpistas, os acenos de concordância voltaram com mais firmeza. E continuou, sacando pensadores gregos do caderno espiral que tinha sobre a mesa: “Protágoras, diferentemente de Platão, sustenta que a virtude política era comum a todos os homens e deveria ser compartilhada”. Quem disse que filosofia deveria estar fora da academia?

E o professor de Filosofia da Educação continuou em seu caminho próprio. “A universidade deve ser a extensão de um tempo livre que podemos ter, livre do imediatismo, livre da rápida obsolescência que o mundo contemporâneo impõe. É preciso que a universidade seja um lugar onde se estude e se reflita, por exemplo, sobre o que é a tirania à luz de Shakespeare”, afirmou. “Toda vez que a sociedade questiona a democracia, ela está questionando a ciência e esse tempo livre.”

E mesmo sem ser um especialista no tema, Carvalho tocou em um ponto fulcral: “avaliar é diferente de mensurar”. “Qualidade na educação é um clichê, um fetiche. E, quando se questiona o que é qualidade na educação, cada um vai ter uma opinião diferente. E não apelamos para indicadores objetivos e confiáveis quando escolhemos com quem vamos compartilhar nossa vida ou sobre o que dizer do bolo que minha tia fez. Nesses casos, não usamos indicadores quantitativos. Se esses indicadores fossem suficientes, não precisaríamos formar bancas de avaliação”, afirmou.

E nessa trilha ele seguiu até afirmar que o ofício docente é “artesanal, pessoal, não há dois professores que deem a mesma aula, a partir de um mesmo texto” e finalizou: “Nossa formação é lenta e, num mundo onde tudo é muito apressado, isso é ótimo. E não podemos nos esquecer da gravíssima responsabilidade política que a USP tem”, sacramentou. “Adorei”, “muito bom”, “que importante espaço para o diálogo” foram frases, acompanhadas de mais aplausos e interjeições, ouvidas ao final da fala. Tempo para o café.

Marcílio Alves – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Depois de um coffee break um tanto longo, com vários grupinhos docentes alinhavando tudo aquilo que tinham acabado de ouvir e também tentando entender para onde iria, afinal, a avaliação, o evento voltou ao seu estado natural.

Marcílio Alves fez sua apresentação, explicou o que a CAD pretendia e deu números substantivos: em maio, foram apresentados para avaliação 5.467 projetos acadêmicos, em um universo de 4.274 docentes. “O processo de avaliação será desburocratizado e vamos trabalhar para que os aspectos qualitativos sejam altamente considerados, e os quantitativos, relativizados”, garantiu o presidente da CAD. 

Antes de encerrar sua fala e abrir para perguntas dos presentes — que a esta altura, quase 12h30, já estavam minguando –, ele ainda teve tempo de explicar a ideia de criação da categoria de “professor pleno”, em substituição ao professor titular atual, falar do fluxo contínuo da avaliação que começa em 2020 e informar que a carta-manifesto, programada para ser lida ao final do evento, fica para outra ocasião. Os organizadores do encontro vão abrir um espaço no e-disciplinas para receber sugestões sobre o que deve conter este manifesto em forma de missiva, que será lido no Conselho Universitário. Mas sem prazos definidos.

 

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