Poesia da periferia: USP abre espaço e oferece oficina de texto de slam

O grupo de extensão da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, Periferia Livr@, divulga e ensina produções literárias feitas na periferia; evento conta com material de apoio para contextualizar o aprendizado

 04/10/2022 - Publicado há 2 meses
Daniel Carvalho, pesquisador de literatura na FFLCH da USP, na final do Slam da Guilhermina em 2016 – Foto: Reprodução/Youtube

 

Nesta quinta-feira, 6 de outubro, a partir das 18 horas, a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP promove o Slam de Poesia: o que é e como produzir textos para essa prática literária, com o grupo de extensão Periferia Livr@, da FEA. Para participar, o interessado deverá preencher este formulário e aguardar o link de acesso que será enviado em seguida por e-mail. O encontro terá a participação do slammer, editor, educador, poeta e fotógrafo Daniel Carvalho, que também é pesquisador de Literatura na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O grupo disponibilizou um material de apoio para a atividade com o texto Slams – letramentos literários de reexistência ao/no mundo contemporâneo, de Cynthia Neves (acesse aqui), além de uma playlist no Youtube sobre o gênero literário.

Daniel Carvalho – Foto: Reprodução/Instagram

Os assuntos do slam são variados, mas sempre carregam um forte teor de protesto. Ao Jornal da USP, o pesquisador Daniel Carvalho afirmou que “o slam é uma competição em que acabamos protestando e falando de nossas inquietações, do governo, dos nossos sentimentos e fazendo crítica social. As pessoas têm necessidade de falar daquilo que vivem”, complementa.

A prática avançou o campo poético e se tornou um movimento social da periferia, com debates que tratam de questões da atualidade, como educação, cultura, preconceito, violência, racismo etc. Os únicos recursos utilizados são o corpo e a voz, mas são suficientes para invadir o campo reflexivo daqueles que participam da competição. Para Carvalho, o público participante dos slams, em geral, é periférico e não elitizado. “Um público que tem a sua arte, cultura e literatura desvalorizadas e encontra no slam o seu espaço, seu campo de atuação”, aponta o pesquisador. 

No evento, ele irá falar sobre a relação do slam com o rap, analisando como os slammers utilizam as técnicas de escrita desse estilo musical para construir textos e usar nas competições de slam. Para ele, a importância do evento está em estudar o slam como literatura moderna, carregando o mesmo valor teórico de literaturas feitas em séculos passados. 

 

O surgimento do slam

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A expressão inglesa slam, que se assemelha ao som de uma batida, é uma prática de competição de poesia falada, que surgiu em Chicago, nos Estados Unidos, em 1984, com Marc Kelly Smith. Para ele, era importante popularizar a poesia para que o público que estava fora de ambientes acadêmicos pudesse ter acesso. Assim, deu início ao Uptown Poetry Slam – algo próximo a “Slam de Poesia da Cidade Alta”, em português –, evento criado em 1986, em Chicago, reunindo performances poéticas e, mais tarde, competições de poesia. 

No Brasil, sua história começou em 2008, com Roberta Estrela D’alva, atriz, poeta, slammer e atual apresentadora do programa Manos e Minas, na TV Cultura. Ela iniciou a prática com o ZAP! Slam – em que ZAP significa Zona Autônoma da Palavra, o primeiro slam de poesia brasileiro, no Núcleo Bartolomeu, no bairro de Pompeia – zona oeste de São Paulo. Três anos depois, o ZAP conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de Poesia Slam, na França. Neste vídeo, é possível ver cenas de Roberta representando o Brasil nesse evento, pela prévia do projeto Valendo a Vida, em 2017. A produção originou o documentário Slam – Voz de Levante, codirigido por Tatiana Lohmman, que mostra a história da poesia do slam no Brasil, lançado em 2018 nos cinemas brasileiros, em comemoração aos dez anos de início da prática falada de poesia. 

No ano seguinte, em 2012, o ator, poeta e produtor musical Emerson Alcalde, que já frequentava as competições poéticas, conheceu o trabalho de Roberta e decidiu fundar um slam em seu próprio bairro: o Slam da Guilhermina, no bairro de Guilhermina-Esperança, na zona leste de São Paulo. Com competições realizadas em todas as últimas sextas-feiras do mês, na Praça Guilhermina-Esperança, esse slam ganhou notoriedade. O pesquisador Daniel Carvalho conheceu o slam frequentando o Slam da Guilhermina.

Em 2014, Alcalde representou o Brasil na Copa do Mundo de Poesia Slam, ficando com o título de vice-campeão. No mesmo ano, Alcalde criou o Slam Interescolar, competição de poesia entre escolas públicas de São Paulo, que é uma extensão do Slam da Guilhermina. Em 2021, esse projeto ganhou o Prêmio Jabuti em Inovação. 

 

O grupo Periferia Livr@

O Periferia Livr@ é parte de um projeto de extensão da FEA. O grupo criou uma editora virtual, com produções literárias das periferias de São Paulo, para estudantes de escolas públicas e privadas. A editora conta com digitalização de obras, impulsiona editoras atuantes e organiza oficinas que integram produtores e consumidores das produções literárias.

Essa iniciativa começou em 2020, com a professora do Departamento de Administração da FEA Ana Carolina de Aguiar Rodrigues, com o objetivo de disseminar a literatura periférica e promover ações de inclusão social na USP. A Câmara Periférica do Livro, formada por 18 editoras da periferia de São Paulo, é uma das parceiras do projeto.

Além disso, o projeto busca ajudar imigrantes latinos no aprendizado da língua portuguesa. Essa medida também é efetiva na internacionalização do conhecimento produzido nas periferias brasileiras por meio da tradução em espanhol das obras.

O projeto está na fase inicial e busca estudantes universitários que queiram se voluntariar. Apesar das inscrições para voluntários estarem encerradas, os interessados podem buscar informações para participar pelo e-mail periferialivr@usp.br

 

Serviço

Slam de Poesia: o que é e como produzir textos para essa prática literária

6 de outubro, a partir das 18 horas

Inscrição: on-line e gratuita pelo link.

Mais informações: periferialivr@usp.br

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