Livro de Osman Lins que renovou romance regionalista faz 60 anos

“O Fiel e a Pedra” será tema de debates em colóquio que a USP realiza nos dias 16, 17 e 18 de agosto

 12/08/2021 - Publicado há 4 meses
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Cartaz do evento – Imagem: Divulgação

Numa narrativa que se passa no Nordeste do Brasil em 1930, conhecida por renovar o romance regionalista, há o embate violento entre um homem ético e um poderoso proprietário, que ilustra a clássica disputa entre bem e mal. Além do retrato social, o escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978) também conta em seu romance O Fiel e a Pedra uma história sobre amor e família e explora a composição psicológica de suas personagens.

Capa de uma das edições de O Fiel e a Pedra, publicada em 1976 – Foto: Divulgação

Lançado em 1961, o Fiel e a Pedra completa 60 anos de publicação. A data será celebrada no 7º Colóquio Osman Lins, que a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP promove nos dias 16, 17 e 18 de agosto, das 10 às 17 horas. Com apoio do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, o evento será transmitido através do canal da FFLCH no Youtube.

No colóquio, o romance será tratado em diferentes perspectivas de leituras, diz a professora Sandra Margarida Nitrini, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH, coordenadora do evento. Essas perspectivas englobam “sua linguagem literária, seu lugar na literatura brasileira, sua inovação no romance nordestino dos anos 1930, seu papel no projeto literário de Osman Lins, sua relação com a Eneida de Virgílio e com autores estrangeiros, sua dimensão psicológica e metafísica e os temas patriarcalismo, violência, corrupção, resistência e viagem”, enumera Sandra.

Com duração de três dias, o evento contará com palestras no período da manhã, seguidas de mesas com dois participantes cada. Já à tarde serão duas mesas com dois participantes, mais um espaço, ao final, para discutir as apresentações do dia. Dentre os palestrantes está Leyla Perrone-Moisés, Professora Emérita da FFLCH, que foi amiga de Osman Lins e é admiradora de sua obra. Também se apresentam o professor Luís Bueno, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), especialista em literatura brasileira, e o professor titular aposentado da FFLCH Álvaro Cardoso Gomes, “que dialogou com Osman Lins quando iniciava sua carreira como escritor”, nas palavras da coordenadora.

“As mesas são compostas na sua maioria por especialistas na obra de Osman Lins, com contribuições importantes para sua fortuna crítica, e por especialistas em literatura brasileira”, afirma Sandra. Ela destaca a presença de estudiosas pioneiras sobre a obra do escritor pernambucano: a professora Ana Luiza Andrade, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), autora de Osman Lins, Crítica e Criação (1987), a professora Regina Igel, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, autora de Osman Lins: Uma Biografia Literária (1988), e a professora Graciela Cariello, da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, autora de Jorge Luis Borges y Osman Lins: Poética de la Lectura (2007).

Sandra chama a atenção ainda para o lançamento, durante o colóquio, da versão atualizada de um site sobre a vida e obra do escritor, que existe desde 2004, quando foi inaugurado no 1º Colóquio Osman Lins. O site “vai abrigar um banco de dados sobre sua obra e sua fortuna crítica”, afirma a professora.

Além de ser ocasião para comemorar os 60 anos de O Fiel e a Pedra, esta edição do colóquio também tem a intenção de “atrair amantes da literatura que ainda não conhecem as obras de Osman Lins, pois elas têm muito a nos dizer nos dias de hoje”, reflete a professora. “O interesse por suas obras nas universidades brasileiras tem crescido nos últimos 20 anos, mas ele ainda merece ser mais lido e estudado, e atingir mais leitores comuns.”

"O Fiel e a Pedra" trata do universal no contexto nordestino dos anos 1930

Capa atual de O Fiel e a Pedra – Imagem: Divulgação/Companhia das Letras

Segundo a professora Sandra Nitrini, O Fiel e a Pedra é uma obra importante porque “inovou o romance regionalista ao desenvolver, no contexto nordestino dos anos 1930, um tema ético universal, por não ter cor local e por sua dimensão existencial e metafísica”.

O romance acompanha Bernardo Cedro Vieira em sua mudança para o Engenho do Surrão, depois de perder um emprego na prefeitura — por não concordar com atos corruptos — e da morte de seu filho. Ao lado da esposa Teresa e do amigo Antonio Chá, busca reconstruir a vida nesse engenho de fogo morto (engenho de cana-de-açúcar desativado), numa zona rural do Nordeste. Miguel Benício, dono do local, confia em Bernardo para cuidar da administração e também permite que realize outras atividades de venda e plantio para aumentar sua renda.

Entretanto, Miguel é morto e toma seu lugar o irmão Nestor Benício, a quem o primeiro transferiu seus bens. Bernardo passa a desconfiar de Nestor e um clima de tensão é instaurado. Sandra explica que o conflito, motivado por posse de terras e de bens, é marcado por fortes cenas de violência física e moral, com as continuadas tentativas de cooptação de Bernardo por parte de Nestor. “Com seu profundo sentido de justiça e seus sólidos princípios éticos, Bernardo, representante do bem, vence Nestor, representante do mal.”

Para a professora, o conflito no Surrão, que constitui o núcleo da história social do romance, se impõe por “expor com mais intensidade o perfil ético de Bernardo e sua resistência aos poderosos”. Assim, a obra retrata o contexto de violência, corrupção e de patriarcalismo da época. “Mas O Fiel e a Pedra extrapola esse conflito. É muito rico na exploração de relações familiares, na composição psicológica das personagens, sobretudo de Bernardo, e nas indagações existenciais e metafísicas”, analisa Sandra.

Escritor foi comprometido com seu tempo sem abrir mão da qualidade literária

“Osman Lins participou da vida literária e cultural do Brasil entre os anos de 1950 até 1978”, explica a professora Sandra Nitrini. Com uma obra vasta e variada, que inclui contos, romances, novelas, peças de teatro e poesia,  o autor “sempre deixou claro que a menina de seus olhos era a ficção narrativa”, diz a professora. 

O escritor pernambucano Osman Lins – Foto: Wikipédia

Segundo ela, Osman Lins é considerado “um dos melhores narradores que sucederam aos grandes criadores do romance dos anos 30” por suas primeiras obras: O Visitante (1955), Os Gestos (1957) e O Fiel e a Pedra (1961). Também se trata de um escritor que ocupa lugar singular na história da literatura brasileira a partir da publicação de Nove, Novena (1966), Avalovara (1973) e A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), “obras inseridas no seu novo modo de narrar em consonância com a visão de mundo”. Para Sandra, são obras densas, que exigem participação ativa do leitor, “sem brechas para uma escapadela na direção do entretenimento”, ressalta.

Independente do registro, suas obras literárias contribuem para a compreensão da realidade do País. “Elas suscitam indagações e reflexões do leitor e lhe trazem prazer estético, não só pela arquitetura de suas narrativas, mas pela plasticidade de sua linguagem literária, que consegue unir rigor e paixão e despertar emoção.”

“Osman Lins foi uma voz viva também com seus escritos de combate, em especial no que concerne ao papel dos manuais de literatura no ensino da escola primária e secundária daquela época, ao ensino da literatura nas faculdades de Letras e ao desrespeito e exploração de muitas editoras em relação aos escritores”, destaca a professora. “Quanto à ditadura, recusou-se a fazer uma literatura panfletária, mas a testemunhou poeticamente em seus requintados romances Avalovara e A Rainha dos Cárceres da Grécia. Foi um escritor comprometido com seu tempo, sem abrir mão da qualidade literária de sua ficção”, completa.

O 7º Colóquio Osman Lins – O Fiel e a Pedra: 60 Anos, promovido pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, acontece nos dias 16, 17 e 18 de agosto, das 10 às 17 horas, no canal da FFLCH no YouTube.


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