Exposição apresenta visões poéticas sobre o Brasil atual

“Watú não está morto!”, com obras de vários artistas que refletem sobre ambientalismo e questões sociais, será inaugurada no dia 28 de junho, terça-feira, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP

 Publicado: 23/06/2022
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Cartaz da exposição Watú não está morto! – Foto: Reprodução

 

Em 5 de novembro de 2015, a barragem de rejeitos de mineração Fundão, da empresa Samarco, rompeu, derramando 50 milhões de toneladas de lama e resíduos tóxicos no Rio Doce – que na língua krenak é conhecido como Watú -, com consequências catastróficas: matou 19 pessoas, contaminou plantações, devastou a vida aquática e poluiu a água ao longo dos seus mais de 800 quilômetros, que vão de Minas Gerais até o Espírito Santo. Com o título Watú não está morto!, uma exposição quer mostrar que, apesar das tragédias, há esperanças para o Brasil, desde que se olhe para suas raízes e para seu povo. A mostra será inaugurada na próxima terça, dia 28 de junho, das 19h às 21h30, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. 

Resultado da parceria entre a USP e o Sesi-SP, a exposição integra as comemorações dos 60 anos do IEB-USP, que, segundo Luiz Armando Bagolin, professor do IEB e coordenador geral da mostra, começaram no ano passado. A primeira delas ocorreu com a mostra Era Uma Vez o Moderno [1910-1944], que ficou em cartaz de dezembro de 2021 a maio de 2022, no Centro Cultural Fiesp, e buscava repensar os 100 anos da Semana de Arte Moderna a partir de mais de 300 obras e documentos do acervo do IEB, considerado um dos maiores do mundo sobre o Modernismo brasileiro, lembra o professor. Já a segunda, Watú não está morto!, reúne obras contemporâneas, especialmente criadas para a mostra, como destaca Bagolin, e tem uma proposta mais inclusiva e democrática que possa representar a diversidade étnica e cultural brasileira, além de refletir criticamente sobre os tempos atuais.

O título da mostra é uma alusão ao Rio Doce, que teve suas águas vertidas em lama – Foto: Wikimedia Commons

 

Criado em 1962 pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda como um centro de pesquisa dedicado a pensar o Brasil sob diversos aspectos, sociais, culturais, étnicos e históricos, o IEB não é apenas um depositário de acervos, embora eles sejam um meio para se investigar o País, como ressalta Bagolin. Segundo ele, Watú está associada diretamente à atualidade e pretende discutir o racismo estrutural, a desigualdade social e econômica, o desmatamento, entre outras questões que são urgentes e muito importantes no presente e também para o futuro do Brasil. E mesmo sem a função principal de salvaguarda, característica de um museu, o IEB abre pela primeira vez seu espaço expositivo da Sala Marta Rossetti e a praça central de convívio para receber obras de artistas contemporâneos, com a finalidade de, nas palavras do professor, “erguer sua voz” e dar uma pequena contribuição para tirar o País desse período conturbado. “Não queremos passar só uma mensagem crítica, mas também uma mensagem de resiliência”, afirma Bagolin.

Luiz Armando Bagolin – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Segundo ele, Watú não pretende separar o terreno estético do político. Ao contrário, a exposição aborda, de modo contundente e poético, as visões do Brasil de hoje. Com curadoria da artista Maíra Ortins e do historiador Fabrício Reiner, a mostra reúne obras, entre dípticos, instalações e intervenções, de 11 artistas brasileiros, como Agrippina R. Manhattan, Cinthia Marcelle, Lyz Parayzo, Luana Vitra, Luisa Puterman, Sabyne Cavalcanti, Uyra Sodoma e Sônia Gomes. “A escolha dos artistas foi norteada por um projeto curatorial que trouxesse reflexões sobre a história do nosso país e seus atravessamentos. Portanto, a seleção foi orientada para se pensar o Brasil por dentro, retomando sua história sob a perspectiva do indígena, do negro, da mulher, do nordestino, da periferia, dos movimentos LGBTQIA+”, afirma Maíra. Ainda segundo ela, foi considerado desde o início ampliar a participação de artistas, privilegiando não só nomes do Rio de Janeiro e São Paulo, mas de outros Estados, como Ceará, Pernambuco, Minas Gerais, Maranhão e Amazonas, além de Brasília.

Watú não está morto!

“Custou uma porção de sal a Jozeph de Sousa e João Paes do Amaral a compra de uma criança indígena da nação Camaiuari”, diz um registro feito no Arraial de Nossa Senhora do Amparo de Santa Ana, em 1727. Nesse registro também consta a compra de um negro, da nação Manao, por dois machados, adquirido no mesmo ano e pelo mesmo proprietário. Ambos os trechos do áudio foram retirados do acervo do IEB e fazem parte da instalação sonora Cartas, decretos, contratos, bandos e outros documentos, da artista Luisa Puterman. Ao longo de duas horas de gravação, é possível perceber o processo de loteamento das terras pertencentes aos povos originários e dos conflitos de demarcação no que restou de suas terras ameaçadas pelo garimpo, agronegócio e extração da madeira. É como afirma o líder ambientalista indígena Ailton Krenak: “A vida é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão imaterial […]. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem definição”.

Maíra Ortins – Foto: Reprodução

Destaque também para a intervenção Bichos Du Céu Dossel, de Uyra Sodoma, artista indígena de Manaus, que traz um conjunto de imagens fotográficas do céu amazônico, visto desde o solo da floresta, nas quais são traçados desenhos de animais e seres que pertencem à cosmogonia munduruku. Como diz a curadora, a obra traz para o espaço do IEB o universo mítico e o sagrado ancestral da floresta. Já em Atualizações traumáticas de Rugendas, da artista maranhense Gê Viana – que nasceu e viveu em um bairro rodeado pelas etnias Awa Guajá, Ka’apor e Tembé e o Caru -, o debate gira em torno do processo de apagamento das diferentes tradições indígenas em favor da cultura ocidental europeia. 

Ainda na mostra, Ruínas da Prainha e Origens da Terra, da cearense Sabyne Cavalcanti, que reflete sobre a preservação da memória através de pedaços de azulejos que foram jogados no lixo de uma reforma na Igreja Nossa Senhora da Conceição da Prainha, localizada na cidade de Fortaleza – que, mesmo tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), havia sido destruída; e a instalação Erva daninha, da artista carioca Agrippina R. Manhattan, composta de sacos de terra empilhados com plantas, em que se lê os relatos de violência em suas mais variadas manifestações nas cidades brasileiras. Além dessas destaca-se a obra da artista não binária Lyz Parayzo que faz uma releitura da série Bichos, de Lygia Clark, para abordar questões sobre o corpo trans e as violências diárias sofridas por esse grupo. 

“As questões levantadas por cada artista são urgentes, atuais e pertencem a todos os brasileiros”, garante Maíra. Para ela, o crime ambiental que dá título à mostra é uma alusão ao Rio Doce, que teve suas águas antes cristalinas vertidas em lama. “Esta mesma lama pode ser interpretada como uma metáfora para muitas das tragédias que têm ocorrido no Brasil. Mas o Watú não está morto e por tudo o que isto significa, lutemos.” 

Watú não está morto! abre para o público dia 28 de junho, terça-feira, das 19h às 21h30, e fica em cartaz até 4 de setembro, com visitação de segunda a sexta, das 9 às 19 horas (entrada somente até às 18 horas), e sábados, das 9 às 14 horas, no IEB/USP (Av. Prof. Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária). Entrada gratuita. Mais informações neste link.


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