Especialistas debatem as relações de Drummond com a mineração

Promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, evento acontece no dia 18 de março, às 19 horas

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Extração de hematita no Pico do Cauê, em Itabira, Minas Gerais, cidade natal de Drummond e onde surgiu a Companhia Vale do Rio Doce – Foto: Reprodução/Arquivo Público Mineiro

Depois das tragédias de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais – que tiveram como origem as atividades de mineração -, pode-se lembrar de Carlos Drummond de Andrade. O poeta divide o local de nascimento com a companhia Vale do Rio Doce – ambos de Itabira, também em Minas Gerais – e sempre foi um crítico voraz da atividade mineradora na região.

Itabira se destacava pelo seu potencial de extração de ferro, e foi ao passar casualmente pela cidade, em 2014, que o professor José Miguel Wisnik, docente de Literatura da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, se deparou com a dimensão e magnitude da devastação mineradora na região. O encontro “epifânico” gerou um livro que transcende a crítica literária, Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração, publicado em 2018 pela Editora Companhia das Letras. Nele, o autor delineia as conexões entre Drummond e a mineração, promovendo questionamentos que passam também pelas esferas da história, da economia, da geografia e da antropologia.

Poema “Lira Itabirana”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano – Foto: Reprodução/Facebook

Esse livro de Wisnik será o ponto de partida para um debate interdisciplinar promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. No dia 18 de março, segunda-feira, às 19 horas, professores de diferentes áreas do conhecimento se reunirão no IEB para discutir algumas questões levantadas no livro, de acordo com a ótica de sua especialidade. O debate contará com os professores da USP Alexandre de Freitas Barbosa (História Econômica), Fernando Paixão (Literatura), Jaime Tadeu Oliva (Geografia) e Stelio Marras (Antropologia).

“É um livro de crítica literária, mas que é desencadeado por uma problemática que está ligada a outras áreas. Ele se propõe a abrir essas passagens. As perguntas que ele contém vão bater nisso. Eu me sinto muito motivado por poder estabelecer esse diálogo no evento”, afirma Wisnik.

O professor Fernando Paixão, docente do IEB e idealizador do evento, conta que a ideia de fazer o debate surgiu logo após o lançamento do livro, justamente em razão do caráter interdisciplinar da obra e do próprio IEB. O livro rompe com as análises tradicionais estritamente literárias ao ligar a obra drummondiana a uma questão recorrente na vida pessoal do autor. “A família de Drummond morava em Itabira, em uma fazenda próxima ao Pico do Cauê, uma montanha de ferro. Foi a partir da exploração do Pico do Cauê que começou a Vale e toda a história de exploração mineral desenfreada que se sucedeu no Brasil”, comenta Paixão.

No debate, Paixão será responsável por representar a área da literatura, ao lado de Wisnik. Um dos aspectos do livro que ele pretende levantar durante o evento é o que chama de “crítica literária holística”. “Há uma corrente da crítica literária que privilegia a biografia, outra, a relação com a sociedade ou a análise textual, e elas são um pouco excludentes. Não é o que acontece nesse trabalho do professor Wisnik, que faz uma reflexão integrada”, explica Paixão.

A cidade mineira de Itabira, com o Pico do Cauê ao fundo – Foto: Miguel Brescia/Divulgação

O responsável por destacar, no debate, os pontos da obra que se relacionam com a área da geografia será o professor Jaime Oliva, docente do IEB. Ele conta que Wisnik destaca no livro a relação entre Drummond e sua realidade geográfica, desenvolvendo uma característica que nunca saiu da obra de Drummond, mesmo depois que o escritor deixou de viver em Itabira.

“O quanto as realidades espaciais estão impregnadas na nossa formação é muito discutido na geografia atualmente. Não só na formação de um poeta, que manifesta isso por intermédio da arte, mas nas manifestações, nas relações sociais e no comportamento de todo cidadão comum. As suas realidades geográficas estão impregnadas no seu ser”, complementa Oliva.

O professor afirma que, no debate, pretende discutir o que significa a mineração em Minas Gerais, associando essa reflexão aos desastres recentes e à postura crítica que Drummond sempre tomou diante dessa atividade econômica. “Essa postura crítica de Drummond tinha pouquíssimo respaldo social em Minas Gerais. Todo mundo sempre foi muito conivente com a mineração. Drummond teve que comer o pão que o diabo amassou para se assumir dessa maneira”, conclui Oliva.

O debate Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração acontece no dia 18 de março, segunda-feira, das 19 às 21 horas, no Auditório 1 do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis neste link.

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