O manual de aforismos providenciais de Fernando Paixão

Livro de professor da USP traz 25 lições com orientações sobre o que é a boa escrita

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O professor Fernando Paixão e seu livro Manual do Estilo Desconfiado – Arte sobre foto de Cecília Bastos/USP Imagens

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Os aforismos, aquelas pílulas de linguagem, normalmente de teor filosófico, são deliciosos de ler. Reduzir o mundo, a vida a uma frase – e curta – é sempre um achado. Assim, nestes tempos de mídias sociais, em que a comunicação se dá de forma caótica, para dizer o mínimo, é uma alegria a chegada do Manual do Estilo Desconfiado (Ateliê Editorial), de Fernando Paixão, professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Ele nos lembra que é preciso meditação no e para o ato de escrever. Assim, propõe um sistema mental sobre a linguagem, um caminho seguro e desconfiado no trato com as palavras. Ele nos lembra que no ato de escrever não há lugar para o brilho rápido, não há lugar para a palavra ociosa. Aí a desconfiança.

Em 25 lições, Fernando Paixão explica que é preciso peneirar as palavras se quisermos ser eficazes. Para isso, ele, que é poeta e crítico, nos leva a trilhar um caminho eficaz para escrever e para pensar a linguagem. Paixão é um professor e, como tal, não regateia ensinamentos. Ele a reparte com todos. Nesse sentido, seu livrinho não deixa de ser ainda um manual de etiqueta. Mais ou menos como a dizer: penso nisso há mais de 20 anos e acho que cheguei a algumas conclusões que posso repartir com você.

Dessa forma, se você é esperto o suficiente para entender, e praticar, o que ele propõe nas lições, acho que ele se dará por satisfeito. Conseguiu passar um pouco de suas reflexões sobre o que é na verdade o bom escrever – sempre: sem perder palavras, safando-se das “palavras gordas” ou “magras”, se for o caso, como ensina.

O livro do professor Fernando Paixão – Foto: Divulgação/Ateliê Editorial

Assim, há um problema a ser enfrentado, na verdade, dois problemas para o crítico deste Manual do Estilo Desconfiado, livro recém-lançado de Fernando Paixão. O primeiro, e imediato, diz respeito ao fato de que, independentemente do resultado a que você chegou, ele já está previsto em uma das 25 lições trazidas pelo livro. E o segundo, e não menos importante, é que está lá na quarta capa o seguinte comentário de Luis Fernando Veríssimo: “Paixão fez um precioso manual tanto para aspirantes quanto para praticantes da arte da escrita”. Convenhamos, é intimidador. Mas vamos lá, o livrinho é mesmo precioso.

Isso posto, tomarei – agora, quando vou elencar alguns exemplos do que se encontrará no livrinho – todo cuidado ao lidar com os aforismos de Paixão. Porque se trata de um livro de sentenças sobre como se deve encarar a linguagem (cada lição traz seis sentenças cada). Mesmo porque não me lembro de outro livro de aforismos que tenha fundamentalmente a escrita como tema.

Passo, então, a apresentar algumas lições do livrinho de Paixão. Aqui está um daqueles bons: “Desconfie da primeira versão”, “O primeiro texto abre a trilha na floresta; a segunda versão tira as pedras do caminho”. Nada a acrescentar, a não ser o fato de que, a menos que se esteja num daqueles dias ungidos e você sai metralhando as palavras nesta ou naquela direção, este é o caminho a tomar. Toda criação de bom texto importa muito esforço e pouquíssima improvisação.

Outro exemplo: “Desconfie da frase-efeito”, “ É importante distinguir entre efeito e confeito”. Muito cuidado aqui, porque todo desperdício nesse sentido pode ser entendido inclusive como bajulação. Todo cuidado com as palavras é bem pouco. E isso se aplica a todo tipo de palavra – seja escrita ou falada.

Outro: “Desconfie da poesia”, “99% do que se autoproclama poesia é vento”. Acho bem bom alguém pontuar essa questão de tempos em tempos. Tempos de comunicação caótica, em que tudo parece ser permitido. A poesia é preciosa demais para ser relegada ao armazém de secos e molhados.

Finalizando, Manual do Estilo Desconfiado é, na verdade um grande livro sobre a escrita, preciso e necessário. E tanto melhor se as últimas 15 páginas sejam brancas e pautadas, como um convite ao leitor para escrever, ele mesmo, suas observações sobre o que encontrou nos textos das precedentes. O livro acaba se tornando, também, um caderno de anotações. Perfeito para um manual desconfiado.

Professor lança Acontecimento da Poesia

O livro Acontecimento da Poesia, do professor Fernando Paixão, será lançado nesta quinta-feira, dia 21, às 19 horas, na Livraria Casa Plana (Rua Fradique Coutinho, 1.139, Pinheiros, em São Paulo). Na ocasião, haverá uma conversa entre Fernando Paixão e o poeta e tradutor Álvaro Faleiros sobre a arte poética. “O importante é reconhecer na poesia uma intervenção simbólica vigorosa, de alto poder encantatório ou corrosivo sobre as coisas”, afirma Paixão. A obra é uma publicação da Editora Iluminuras. O lançamento tem entrada gratuita.

O novo livro de Fernando Paixão, que será lançado nesta quinta-feira, dia 21 – Foto: Divulgação/Editora Iluminuras

Na primeira parte do livro, Paixão publica textos que escreveu ao longo das últimas três décadas. Entre esses textos estão um depoimento sobre José Paulo Paes, um testemunho sobre livro de Alfredo Bosi, reflexões sobre as relações poéticas entre Brasil e Portugal e comentários sobre escritores como Vinicius de Moraes, Rubens Rodrigues Torres Filho, Georges Bataille e Mário de Sá-Carneiro. Na segunda parte, o próprio autor apresenta seu universo lírico, por meio de um depoimento e uma entrevista.

Professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, Fernando Paixão nasceu em Portugal e vive em São Paulo desde a infância. Ex-editor, poeta e ensaísta, publicou Narciso em Sacrifício (Ateliê, 2003), sobre a obra poética de Mário de Sá-Carneiro, e Arte da Pequena Reflexão (Iluminuras, 2014), sobre o gênero do poema em prosa, entre outras obras. É autor também de livros de poesia, como Porcelana Invisível (Cosac&Naif, 2015).

Álvaro Faleiros, que conversará com Paixão no lançamento de Acontecimento da Poesia, é professor de Literatura Francesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, poeta e tradutor. Entre as várias obras que já publicou estão Traduzir o Poema e A Retradução de Poetas Franceses no Brasil: de Lamartine a Prévert (com Thiago Mattos). Como tradutor publicou, entre outros, Caligramas, de Guillaume Apollinaire, e Um Lance de Dados, de Mallarmé.

 

 

 

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