Exercício físico mantém benefício da cirurgia bariátrica para a saúde

Treinamento reduziu riscos de doenças associadas à obesidade, como diabete, hipertensão e aterosclerose

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Pesquisa mostra que o exercício é uma medida não farmacológica fundamental para prevenir a perda dos benefícios que se têm com a cirurgia – Foto: Network on Visual Hunt – CC

 

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O exercício físico é fundamental para manter os benefícios à saúde conseguidos pela cirurgia bariátrica, comprova pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). No estudo, mulheres obesas que passaram pela cirurgia e realizaram treinamento físico supervisionado ampliaram a sensibilidade à insulina, reduziram a inflamação e melhoraram a saúde dos vasos sanguíneos. Desse modo, o exercício reduziu os riscos de doenças associadas à obesidade, como diabete, hipertensão e aterosclerose, ampliando os ganhos obtidos com a redução do peso corporal.

Devido ao avanço da obesidade mórbida em todo o mundo, a cirurgia bariátrica é considerada um tratamento de primeira escolha para o problema, e também para doenças associadas, como hipertensão e diabete. “Normalmente, ela é indicada para pessoas com obesidade mórbida ou obesidade associada a comorbidades, normalmente refratárias a outros tipos de terapia, com medicamentos ou não”, diz o professor Bruno Gualano, da FMUSP, um dos líderes da pesquisa.

“Há vários tipos de cirurgia bariátrica, que envolvem redução do estômago (gastrectomia), o que restringe a alimentação, ou desvios intestinais, que reduzem a absorção de nutrientes e alteram hormônios intestinais com ações metabólicas e de controle de apetite e saciedade”, relata o professor. “No estudo, foi empregada a técnica de Y de Roux, que é cirurgia mais comumente realizada e é considerada, ao mesmo tempo, restritiva e que absorve mal os nutrientes.”

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Além da grande redução do peso corporal, Gualano aponta que a cirurgia bariátrica traz benefícios metabólicos ao organismo. “Por exemplo, os pacientes com diabete podem apresentar remissão da doença. De modo geral, há uma redução de sintomas de doenças associadas à obesidade, como colesterol alto e hipertensão arterial, o que também previne mortalidade”, observa. “Todos esses efeitos, porém, tendem a diminuir com o tempo. Por isso, o estudo testou o efeito de um programa de treinamento físico supervisionado na manutenção ou otimização dos benefícios da cirurgia, bem como na prevenção de seus efeitos adversos.”

A pesquisa foi realizada com 30 mulheres que passaram por cirurgia bariátrica, acompanhadas durante nove meses pelo Laboratório de Avaliação e Condicionamento em Reumatologia (Lacre) do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP. “Três meses após a cirurgia, todos os voluntários tiveram sua condição clínica avaliada e, em seguida, foram separados aleatoriamente em dois grupos”, conta o professor. “Um deles recebeu o tratamento convencional, o que incluiu orientações sobre dieta e atividade física. O outro, além das orientações gerais, realizou treinamento físico supervisionado, três vezes por semana, incluindo atividade física aeróbia em esteira e exercícios de força para os grandes grupamentos musculares. A adesão ao treinamento foi excelente, acima de 80%.”

Ganhos

Depois de seis meses de intervenção, os dois grupos passaram por uma nova avaliação. “O treinamento físico manteve a melhora na sensibilidade à insulina e reduziu a inflamação. O exercício também melhorou a função endotelial, ou seja, a saúde dos vasos, fundamental para prevenir a aterosclerose”, destaca o professor. “O treinamento não só manteve esse ganho advindo pela cirurgia como conseguiu aumentá-lo. Os cientistas já sabiam que havia perda desse benefício ao longo do tempo em alguns casos, e este estudo atesta que ela está associada à falta de adoção de hábitos de vida saudáveis, como a prática de exercícios.”

A rapidez com que os pacientes que não fizeram o treinamento perderam os efeitos positivos da cirurgia bariátrica é um dado surpreendente do trabalho, destaca Gualano. “Na primeira avaliação, três meses depois da cirurgia, todas as pacientes tiveram enormes melhoras em fatores de risco cardiometabólicos, como função endotelial, inflamação e resistência à insulina”, relata. “Entretanto, seis meses depois, o grupo que não realizou exercícios apresentou drástica redução desses benefícios, ainda que continuasse a perder peso.”

Alguns deles chegaram a apresentar valores de exames similares aos do período anterior à cirurgia, enfatiza o pesquisador. “Isso não foi detectado em estudos realizados nos Estados Unidos e na Europa, onde diferenças socioeconômicas e culturais provavelmente contribuem para uma maior adesão a mudanças no estilo de vida após a cirurgia, favorecendo, assim, a retenção dos ganhos obtidos com essa intervenção.” As conclusões do estudo são descritas no artigo Reversal of Improved Endothelial Function After Bariatric Surgery is Mitigated by Exercise Training: A Randomized Controlled Trial, recém-aceito para publicação no Journal of the American College of Cardiology.

Foto: Lorrie Graham/Wikimedia Commons

Segundo o professor, a pesquisa mostra que o exercício é uma medida não farmacológica fundamental para prevenir a perda dos benefícios que se têm com a cirurgia. “O senso comum costuma ver a cirurgia bariátrica como a salvação para os problemas relacionados com a obesidade”, afirma. “Porém, o estudo comprova que se não houver mudança no estilo de vida, os efeitos positivos podem se perder muito rapidamente, mesmo que haja redução drástica de peso. O exercício tem um efeito discreto sobre o peso corporal, mas apresentou efeitos sistêmicos favoráveis que podem prevenir doenças cardiovasculares associadas à obesidade.”

Gualano destaca que este é o primeiro estudo de um grande projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), coliderado pelo professor Hamilton Roschel, da Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFEUSP), com o objetivo central de verificar os efeitos terapêuticos do exercício em pessoas obesas que passaram pela cirurgia bariátrica. A pesquisa também tem a participação do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP. Parte do trabalho é realizada em colaboração com o Pennington Biomedical Research Center, nos Estados Unidos.

Mais informações: e-mail gualano@usp.br, com o professor Bruno Gualano

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