Estudo traz dados para melhorar treino de corrida em jogadores de futebol jovens

Entre outros achados, pesquisa revela que desempenho muda em função da idade e posição do jogador e isso pode impactar o treinamento

Pesquisador busca entender, por exemplo, qual a influência que um jogo em casa ou fora de casa pode ter sobre o desempenho de corrida do jogador – Foto: Damunga17 via Wi9kimedia Commons / CC BY-SA 4.0

É comum a quem assiste a um jogo de futebol pela televisão, ver na tela a informação de quanto um determinado jogador correu dentro de campo ao longo da partida. Essa informação, que a princípio revela o nível de preparação do atleta, passa a ser objeto de estudo acadêmico com outro direcionamento: o atleta em formação.A importância do desempenho de corrida em campo, principalmente durante competição, é relativamente nova na busca de aperfeiçoamento do atleta em categorias de base. Esses dados de desempenho de corrida em um jogo de futebol são geralmente úteis para ajudar no entendimento do jogo e, principalmente, na tomada de decisão sobre o conteúdo de treinos e prescrições pela comissão técnica do time.

Para entender como a literatura acadêmica vem tratando dessa questão e lançar luz sobre novas propostas de estudo que permitam fornecer subsídios aos técnicos de futebol e aos preparadores físicos, o estudante Luiz Henrique Palucci Vieira, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, mergulhou no assunto ao produzir sua dissertação de mestrado.

Vieira quer entender aspectos específicos como, por exemplo, qual a influência que um jogo em casa ou fora de casa pode ter sobre o desempenho de corrida, se o placar da partida ou a qualidade do adversário influencia no desempenho. Ele quer também identificar a partir de qual idade o desempenho de corrida passa a exibir diferenças com significado prático entre posições de jogo. “Isso tem uma implicação importante para o direcionamento do treinamento específico para cada posição, e se isso é realmente necessário”. Ele quer saber se o desempenho de corrida vai requerer treinamento específico para o jogador em função de sua posição. São respostas que ele ainda não encontrou.

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O pesquisador iniciou os estudos, procurando entender como a literatura acadêmica trata do assunto. Fez buscas em quatro bases de dados: PubMed, ISI Web of Science, SPORTDiscus e SciELO e usou os descritores “futebol”, “jovem”, “júnior”, “desempenho físico”, “desempenho de corrida”, “desempenho de corrida em jogo”, “padrões de deslocamentos”, “time-motion analysis”, “distâncias percorridas”, “perfil de atividades”, “taxa de trabalho”, “análise de jogo” e “desempenho de jogo”.

Ele considerou apenas artigos originais escritos em inglês, que estudaram populações de jovens jogadores, das categorias com idade igual ou inferior a sub-20, publicados ou impressos até 31 de dezembro de 2017 e contendo pelo menos uma medida de resultado de desempenho de corrida em jogo, tal como distância total percorrida, velocidade pico de jogo ou indicadores de atividades executadas em determinadas faixas de velocidade.

Encontrou 5.801 registros que viraram 50 artigos, após remover as duplicatas e aplicar critérios de exclusão e inclusão. Os resultados desses artigos foram extraídos e sintetizados para análise. A maioria, 62%, cobriu o continente europeu. Os principais objetivos dos estudos, 20% deles, foram examinar diferenças entre posições de jogo; 26% se dedicaram às diferenças entre grupos de idade e 36% foram elaborados para entender possíveis oscilações entre períodos/meio-tempo de jogo. Achados consistentes apontam para a influência da posição de jogo e da idade na resposta de desempenho de corrida em jogo, quando utilizadas faixas de velocidade fixas, mas não houve consenso claro sobre reduções nas atividades durante o decorrer de partidas.

O foco no desempenho de corrida em campo é relativamente novo na busca de aperfeiçoamento do atleta – Foto: Jassss via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Um dado importante desse levantamento, segundo Vieira, é que enquanto 32% de todos os estudos analisaram as correlações entre desempenho de corrida em jogo e aptidão física, marcadores bioquímicos/fisiológicos e composição corporal, cerca de 70% destes mesmos estudos não levaram em conta a posição de cada jogador no time, o que gera um viés muito grande nos resultados. Além disso, similarmente ao que ocorre em profissionais adultos, calendários congestionados também afetam a performance de jogo em jovens.

Nessa revisão sistemática, o pesquisador detectou que estudos sobre resultados de desempenho em função da posição de cada jogador até são consistentes. “Mas até o momento falta o estabelecimento de diferenças que na prática são importantes. Qual é o tamanho do efeito para as variáveis de desempenho de corrida que faz diferença na prática?”

Segundo o professor Paulo Roberto Pereira Santiago, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP e orientador da pesquisa, a revisão sistemática (esse estudo) geralmente tem um grande poder de síntese do atual estado da arte de um determinado aspecto da ciência. “Nesse caso, é feito um compilado de trabalhos sobre o desempenho de corrida de jovens e adolescentes jogadores futebol. A literatura já tem uma boa gama de trabalhos sobre esses parâmetros, como distância percorrida, velocidade média e outras variáveis de jogadores de futebol profissional ou amadores adultos. Esse trabalho foca nos jovens e adolescentes. Nesse caso, contribui bastante para treinadores, através de parâmetros norteadores de treinamentos.”

A pesquisa vai continuar nesse sentido, com foco em preencher as lacunas de conhecimento sobre temas que podem impactar diretamente a prática do futebol, mas foram muito pouco explorados até então, como, por exemplo, estratégias de suplementação alimentar e métodos de recuperação pós-jogo, para que a partir daí se estabeleça um cronograma de treinamento que possa fazer esse jogador apresentar melhor rendimento em campo.

Um artigo que resumo o estudo, Match Running Performance in Young Soccer Players: A Systematic Review, fruto do mestrado do pesquisador, foi publicado em fevereiro deste ano na revista especializada Sports Medicine, uma das mais prestigiadas publicações acadêmicas  da área no mundo. A pesquisa contou com apoio da Fapesp e da Capes.

Mais informações: e-mail paulosantiago@usp.br, com Paulo Santiago; ou luizpalucci@gmail.com, com Luiz Palucci

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