Cuidadores de pessoas com transtornos mentais cuidam de si mesmos?

Segundo autores de pesquisa, cuidadores de crianças e adolescentes têm queda na qualidade da vida social e profissional

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A presença de uma criança com transtornos exige dedicação extrema de quem cuida – Foto: PublicDomainPictures via Pixabay – CC

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Um artigo publicado na revista Saúde e Sociedade discute a questão do cuidar – do outro e de si. Quais são os limites? Como cuidar do outro sem esquecer de si mesmo? Cuidadores profissionais muitas vezes se deparam com essa problemática, na qual se observa que as próprias famílias passaram a ser as principais provedoras de cuidados a pacientes portadores de transtornos mentais, em razão da “desinstitucionalização psiquiátrica”. As dificuldades enfrentadas no desempenho do papel de cuidador resultaram em uma transformação na participação da família na atenção ao doente mental, e também em relação à própria vida desse cuidador.

A pesquisa que originou o artigo teve como metodologia a coleta de dados em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) na cidade de Patos, no estado da Paraíba, tendo como objetivo principal observar mudanças nos âmbitos social, familiar e sexual de cuidadores de crianças e adolescentes com transtornos mentais atendidos em um CAPSi paraibano. Os autores explicam que a saúde mental infantil da criança interfere no rendimento escolar e na estrutura familiar e, apesar da indicação do tratamento ser efetivado dentro das “dinâmicas familiares”, com previsão “dos suportes de especialistas e estrutura de apoio, esses serviços não atendem à demanda das necessidades dos pacientes com transtorno mental”.

Com a prevalência das doenças mentais em crianças e adolescentes, os autores lançam a pergunta: “quais mudanças ocorrem na vida social, familiar e sexual de cuidadores de crianças e adolescentes com transtornos mentais?”. Os cuidadores, de maneira geral, prejudicam-se no trabalho remunerado depois de contraírem doenças, pois todos eles relataram ter deixado de trabalhar para se dedicar à criança, não usufruem mais de lazer, acabam mudando de religião, muitas vezes para buscar explicação para a doença, e também diminuem consideravelmente a atividade sexual. A cuidadora da criança é normalmente a mãe, pois o cuidar ainda é uma função atribuída, na maioria das vezes, ao sexo feminino, embora tenham ocorrido modificações ao longo da história.

Estudiosos consideram que muitos cuidadores familiares assistem seus sonhos caírem por terra, visto que a presença de uma criança com transtornos exige dedicação extrema de quem cuida. O artigo finaliza afirmando que os portadores de transtornos mentais são dignos de maior atenção das políticas públicas e da sociedade, e “os resultados deste estudo poderão influir na adequação dos serviços de saúde mental, uma vez que a saúde de criança ou adolescente depende da saúde do cuidador.

Manuela Carla de Souza Lima Daltroa é do Departamento de Fisioterapia, Faculdades Integradas de Patos, Patos, PB, Brasil.

José Cássio de Moraes é do Departamento de Medicina Social, Santa Casa de São Paulo, Faculdade de Ciências Médicas, São Paulo, SP, Brasil.

Regina Giffoni Marsiglia é da Santa Casa de São Paulo, Faculdade de Ciências Médicas,  São Paulo, SP, Brasil.

DALTRO, Manuela Carla de Souza Lima; MORAES, José Cássio de; MARSIGLIA, Regina Giffoni. Cuidadores de crianças e adolescentes com transtornos mentais: mudanças na vida social, familiar e sexual. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 27, n. 2, p. 544-555, jun. 2018. ISSN: 1984-0470. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/s0104-12902018156194. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/sausoc/article/view/148230>. Acesso em: 18 jul. 2018.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP
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