Dubladores fixam identidade de personagens no imaginário popular

Eduardo Vicente destaca a importância da dublagem brasileira, o legado que profissionais como Orlando Drummond e Mário Monjardim deixaram para o setor e o contexto histórico em que essa área do audiovisual surgiu

 01/09/2021 - Publicado há 2 meses
Por
O Brasil sempre foi um país consumidor do cinema internacional e a necessidade da dublagem surgiu justamente diante da demanda pela adaptação à língua portuguesa – Arte por Rebeca Alencar com imagens de Wikimedia Commons, Reprodução e Divulgação

 

Há pouco mais de um mês, o audiovisual brasileiro perdeu dois grandes nomes da dublagem: Orlando Drummond e Mário Monjardim. Os dubladores são conhecidos, principalmente, pelos personagens Scooby e Salsicha, do desenho animado Scooby-Doo, respectivamente. Drummond morreu aos 101 anos de idade, no dia 27 de julho, no Rio de Janeiro. Três dias após sua partida, a dublagem brasileira também perdeu Monjardim, aos 86 anos. 

Com a perda desses grandes profissionais da dublagem no Brasil, vem à tona o debate sobre a importância histórica desse mecanismo audiovisual para a população brasileira e o legado deixado por eles através da arte da voz.

Legados de Orlando Drummond e Mário Monjardim

Em 1942, Orlando Drummond inicia sua trajetória como dublador e, ao longo dos anos, ganha notoriedade no ramo da dublagem. No cinema, atuou em filmes como O Rei do Movimento (1954), Bonga, o Vagabundo (1971) e, o mais recente, De Perto Ela Não É Normal (2020). Como dublador, Drummond protagonizou as telas brasileiras com personagens como Scooby, Popeye, o Vingador (do desenho Caverna do Dragão), entre muitos outros. Ele também deu vida ao personagem Seu Peru, na Escolinha do Professor Raimundo. 

Já Mário Monjardim iniciou a carreira na Rádio Vitória em 1954. Ao longo da sua jornada profissional, atuou na Rádio Nacional, em Brasília, na TV Globo, em programas como Carga Pesada e Os Trapalhões, e foi diretor de projetos na Herbert Richers. Enquanto dublador, Monjardim interpretou o companheiro de Scooby no desenho animado, Salsicha, Pernalonga e Patolino, em Looney Tunes, e muitos outros desenhos e filmes. 

Eduardo Vicente, professor de Rádio no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da USP, diz ao Jornal da USP no Ar 1° Edição que a morte de ambos os dubladores representa uma grande perda, mas que é muito importante lembrar do legado que ambos deixam para o audiovisual. “Isso demonstra a importância do trabalho dos dubladores e dubladoras que não vemos ou sabemos os nomes, mas que, por suas vozes, passam a fazer parte da nossa vida”, destaca.

De acordo com o professor, a memória afetiva é um dos principais legados que Drummond e Monjardim deixam para a população brasileira. “É através da arte deles que eles passam a fazer parte da nossa história, especialmente durante a infância, com personagens de desenhos animados”, complementa. Outro grande legado que os profissionais deixam, segundo Vicente cita, é a interpretação e emoção durante essas atuações. No vídeo, o reencontro de Orlando Drummond e Mário Monjardim em uma interpretação do Scooby e do Salsicha, respectivamente, em 2016. 

A dublagem no Brasil 

Branca de Neve e os Sete Anões (1937) foi o primeiro filme a ser dublado por atores da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no estúdio Cinelabs, em 1938. A versão brasileira do conto de fadas foi o pontapé inicial da dublagem brasileira, pois, anos depois, o mesmo estúdio foi responsável pela adaptação dos filmes Dumbo e Pinóquio, para citar alguns exemplos. 

 

Foto: Reprodução/Disney

 

De acordo com Vicente, o Brasil sempre foi um país consumidor do cinema internacional e a necessidade da dublagem surgiu justamente diante da demanda pela adaptação à língua portuguesa, a partir dos anos 30. “Mesmo inicialmente não sendo obrigatória, como outros países fizeram, a necessidade fez com que a dublagem se desenvolvesse desde cedo e com bastante intensidade aqui no Brasil”, explica. 

Com o Brasil sob comando de Jânio Quadros, o Decreto do Conselho de Ministros nº 544, em 31 de janeiro de 1962, instituiu a obrigatoriedade da dublagem em seu Art. 8°. “A exibição de filmes estrangeiros nas emissoras de televisão requer a obrigatoriedade de dublagem em português”, determina o trecho. “Para a questão da acessibilidade, a dublagem e a audiodescrição são fatores fundamentais para pessoas que têm dificuldade em acompanhar a leitura de legendas”, explica Vicente. 

Ele também explica que é preciso ter um registro profissional de ator expedido pela Delegacia Regional do Trabalho para trabalhar com dublagem no Brasil. “Essa exigência de formação tem garantido a qualidade da dublagem brasileira”, destaca. Vicente diz que há um universo complexo no mercado da dublagem por conta dos padrões de adaptação que cada país adota e que precisam estar alinhados a padrões globais.

Além do ator, o processo de dublagem deve ser composto de uma equipe que trabalhe, por exemplo, na adequação da dublagem aos movimentos labiais da produção original, na contextualização de fatos históricos e culturais e na própria tradução. “Por isso, a gente chama a dublagem de versão e não apenas de tradução. Se houver uma perda de informações importantes que torne o filme incompreensível, certamente houve um péssimo trabalho de tradução e adaptação”, destaca. 

Vicente reforça a importância do profissional da dublagem na adaptação de produções audiovisuais e comenta o crescimento do setor no mercado. “É um grande mercado da voz que surge com bastante força no Brasil hoje, com muitos espaços de atuação, como em podcasts, jogos, animações, séries, entre outros”, finaliza. 


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar é uma parceria da Rádio USP com a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e o Instituto de Estudos Avançados. No ar, pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 10h45, 14h, 15h e às 16h45. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.