Sobre o processo eleitoral no Zimbábue: tensões, conflitos e (des)esperança

Laura Moutinho é professora livre-docente pela linha de pesquisa Populações Africanas e Afro-Brasileiras do Depto. de Antropologia da USP

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=189031
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Laura Moutinho – Foto: Entrevista / Canal Futura via Youtube
Medo. A primeira sensação que me liga ao Zimbábue não vem de mim, mas da África do Sul. Explico: em minha pesquisa de campo que teve início com um assassinato de um líder White da ultradireita racista e religiosa sul-africana[1] foi recorrente uma frase específica e carregada de pavores e ameaças entrecortar as conversas e as análises: receios explícitos (dos whites) de que o país “se tornasse um Zimbábue”.

Qual o sentido desta frase?

Recentemente, explorei in loco, com dois outros colegas, alguns dos significados desses medos e muitos rumores que os acompanham e alimentam. Caminhar pelas ruas de Harare significou, às vésperas das primeiras eleições sem Robert Mugabe, reencontrar os medos sul-africanos, mas também a admiração e as críticas de muitos sobre um país que, na interpretação de alguns, fez a reforma agrária e criou um sistema escolar de grande qualidade. Ruas, vale dizer, onde não encontrei o medo, nem a violência, nem tampouco postes com luzes acesas durante a noite. Os Whites eram raríssimos, mas os chineses, como é comum em países africanos, nem tanto. A iluminação pública é precária, assim como os empregos num país no qual se usa dólar e “bond notes”, que se pode adquirir de modo oficial nos ATMs e, igualmente, nos mercados paralelos. Locais onde se identificam as pessoas com bolos de notas nas mãos, balançando de um lado para outro como se fossem leques na oferta de um câmbio mais em conta, numa estranha coreografia, que mostra não a arte, mas a pobreza. Ruas onde se pode falar inglês com todos – diferentes formas de falar, diferentes sotaques – mas todos falam algum inglês alternado em geral com shona. O manejo da língua inglesa tem, justamente, garantido empregos aos que migram para a África do Sul.

A presença de brasileiros que se veem e são vistos como brancos e mestiços no Brasil causou estranhamento, muita curiosidade e cenas divertidas, mas nenhum tipo de violência ou qualquer forma de agressão ou ameaça. Foi na realidade a primeira vez que entabulei conversa com alguém que, no trajeto de ônibus de Johannesburgo para Harare, mencionou não o futebol, mas o fato de que a carroceria das principais empresas de ônibus sul-africanas (as que têm banheiros) é brasileira: o BRICS, tão frequentemente desacreditado, mostrou o ar de sua graça.

Foto: Cedida pela pesquisadora

Um pouco da história recente do Zimbábue ilumina o cenário descrito anteriormente e algumas das tensões observadas.

Cecil Rhodes, o conhecido, controverso e atualmente mais odiado que admirado homem de negócios e colonizador inglês, demarcou no século XIX (década de 1890) a região que ficou conhecida como Rodésia do Norte e Rodésia do Sul (Southern Rhodesia), que depois da independência da Inglaterra foi nomeada como, respectivamente, Zâmbia, 1964 (capital, Lusaka) e Zimbábue, 1980 (capital, Harare). Turistas que se aventuram pela região seguem para Victoria Falls (as cataratas que ficam na fronteira dos dois países), alguns sítios arqueológicos e para os parques de safári, onde se pode ver animais selvagens. Raramente os turistas seguem na direção de Harare e foram muitos os que expressaram surpresa com nossa presença no percurso, especialmente na rota terrestre que, entre Johannesburgo e Harare pode levar 17 ou mais horas, a depender de como se der a passagem na fronteira – o tempo atualmente para cruzar os países em ambos os sentidos é incerto: pode-se levar de quatro horas a muito mais. São inúmeros, propositalmente confusos, os rituais de controle e de humilhação. São muitos os que circulam com compras diversas da África do Sul para um país predominantemente rural.

Medo. A primeira sensação que me liga ao Zimbábue não vem de mim, mas da África do Sul.

Sem saída para o mar, o Zimbábue faz fronteira ao norte com Zâmbia, ao norte e a leste com Moçambique, ao sul com a África do Sul e ao sul e oeste com Botsuana. A capital do país é a cidade de Harare: inglês, shona (mais falada na capital) e ndebele são as línguas predominantes. Julho é um mês frio e seco de inverno. A maior parte do que abastece o Zimbábue vem dos países do entorno. Trata-se de uma economia falida com agricultura basicamente de subsistência.

Em 1965, o governo de Iam Smith declarou unilateralmente a Independência, nunca reconhecida pela Grã-Bretanha, governando o país como primeiro-ministro até 1979.  Com um regime racista similar ao apartheid sul-africano[2], Smith somente deixou o poder após um conflito sangrento. As primeiras sanções econômicas das Nações Unidas foram dirigidas à então Rodésia, impedindo acordos comerciais e financeiros. Tendo se iniciado em 1971, foi longo e devastador o período de guerra civil que somente chegou ao fim com as eleições que levaram ao poder Robert Mugabe e o partido ZANU-PF – sigla em inglês para União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica.

Para muitos, ao antigo líder racista White, somente será reservado uma nota de pé de página na história mundial. Mas talvez devêssemos dar alguma atenção e compará-lo não somente com Mugabe – figura que, como veremos, é marcada por controvérsias -, mas igualmente refletir sobre uma das faces do imperialismo britânico na África.  A África Austral tem um lugar de destaque na geopolítica global que se seguiu à Guerra Fria.

Iam Smith, filho de um imigrante escocês, nascido na Rodésia, se definia como “African of British stock“. Parte de um pequeno grupo de não mais que 3% da população, eles criaram, de modo similar aos bôeres sul-africanos ideólogos do apartheid, o “reino de Deus na terra”. Ao morrer com 89 anos na Cidade do Cabo, na África do Sul, Smith não apresentava um traço sequer de reflexividade ou autocrítica com relação ao seu governo de base racista. Em uma retórica que, de modo surpreendente se pode encontrar no jogo eleitoral brasileiro atual, dizia ele que a guerra civil de seu país fora consequência de pessoas que passaram por lavagem cerebral na Rússia e na China. Os quase 40 anos que Robert Mugabe se manteve no poder não têm, na sua interpretação, qualquer relação com a ditadura racial que estabelecera anteriormente nem tampouco com o racismo do governo imperial britânico. Ao contrário, tudo isso seria consequência daqueles que não quiseram esperar que a história seguisse seu “rumo natural”, como argumenta em sua autobiografia.

Foto: Cedida pela pesquisadora

Uma política de reconciliação como a que foi posteriormente conduzida por Nelson Mandela, na África do Sul, foi iniciada no Zimbábue. Mugabe, entretanto, trabalhou de todas as formas para se manter no poder. Uma década após a independência, conflitos agrários começaram no país com ocupações de terras e assassinatos de fazendeiros Whites. A própria fazenda de gado de Smith foi ocupada e posteriormente listada entre as que passaram pela reforma agrária. Após as eleições e a manutenção de Mugabe no poder os conflitos diminuíram, mas o então presidente – para a maior parte da opinião pública mundial, um ditador – lançou o Fast Track Land Resettlement Scheme, em 2000, prometendo dividir 3.270 fazendas, ou seja, 75% do total e que em sua grande maioria eram de propriedade da minoria White.

Há muita controvérsia em relação à reforma agrária. São duas as principais posições: 1) as que atribuem a derrocada econômica do país a uma outra face do racismo com a expulsão dos Whites, o assassinato de muitos deles e distribuição de parte de suas terras – esta é a posição da maior parte da imprensa mundial, por exemplo; 2) há os que argumentam que o problema foi o boicote internacional que se seguiu aos conflitos e que, em parte, a população se beneficiou com uma alimentação melhor que, por exemplo, a industrializada África do Sul, onde os negros, em especial, engrossam as elevadíssimas estatísticas relativas à obesidade.

O Zimbábue assombra as divisões raciais na África do Sul justamente neste ponto: a questão agrária é um aspecto nevrálgico, mas o problema é mais amplo. Nenhuma conciliação poderá ser mantida nem tampouco o ressentimento com relação ao regime anterior ressignificado – seja ele o apartheid, seja o colonialismo britânico – se a desigualdade social continuar a operar com as linhas raciais e o racismo, colando continuamente raça a pobreza.

Um senhor me disse gentilmente, enquanto tentava se esquivar da minha presença nada cômoda, que opiniões políticas devem ser guardadas no coração. Se há uma coisa que não se guarda no coração num contexto democrático são as opiniões políticas.

Às vésperas das primeiras eleições sem Robert Mugabe, havia alguma esperança, muito descrédito com relação à possibilidade de mudança e certo medo no ar. Significativamente, a capa do Sunday Times, importante jornal sul-africano disponível em Harare, misturava uma foto que cobria praticamente toda a primeira página com e sobre o centenário do grande estadista da reconciliação Nelson Mandela com a manchete em letras garrafais “Cyril called to save Zim poll”.

Foram 23 os candidatos ao governo do Zimbábue – apelidado de Zim na região austral. Mas as eleições estavam polarizadas entre o candidato da situação,  Emmerson Mnangagwa, do ZANU-PF – que, como mostraram as ruas e outdoors de Harare, tinha claramente a máquina do governo ao seu favor – e Nelson Chamisa, do MDC Alliance. ZANU-PF é o partido que está no poder há cerca de 40 anos. Em fins do ano passado, com apoio de militares, destituiu Mugabe, colocando nas mãos de Mnangagwa o governo interino que iria convocar as novas eleições. O MDC-Alliance (Movimento para Mudança Democrática) foi formado por sete partidos políticos, entre os quais o da ex-primeira dama, Grace, a quem Mugabe pretendia repassar o trono. O Cyril da manchete refere-se a Cyril Ramaphosa, o atual presidente da África do Sul. Este movimento de Chamisa foi apenas mais um de um intenso périplo de denúncias do MDC-Alliance na tentativa de garantir eleições sem fraudes.

Antropólogos realizam suas análises a partir dos contatos que mantêm com aqueles com quem pesquisam: escuta-se muito, pergunta-se, dialoga-se com as/os interlocutores e observa-se mais ainda. O que diziam as pessoas? Nas ruas que percorremos em Harare havia, de fato, desconfiança no ar. Alguns balbuciavam em tom de desesperança que àquele que iria ganhar – Chamisa – não seria permitido assumir. No momento em que finalizo este texto, os resultados das eleições já são conhecidos. Também o são as revoltas e conflitos contra o vencedor, o candidato da situação, Emmerson Mnangagwa. A proximidade de ZANU-PF e do vencedor com os militares, sua truculência nos anos de governo de Mugabe, bem como atentados em anos anteriores e às vésperas das eleições atuais, incomodavam, de fato, a maioria dos que expressavam alguma opinião.

Um senhor me disse gentilmente, enquanto tentava se esquivar da minha presença nada cômoda, que opiniões políticas devem ser guardadas no coração. Se há uma coisa que não se guarda no coração num contexto democrático são as opiniões políticas. A não ser que o medo se instale. Naquele contexto, entretanto, essa se mostrou uma questão de sobrevivência.

Foto: Cedida pela pesquisadora

 

[1] O projeto intitulado “Sob o comando de um deus racista: políticas sexuais na África do Sul”, foi contemplado com bolsa produtividade do CNPq e selecionado no Edital MCTI/CNPQ/Universal 14/2014 – Processo No 456425/2014-4.

[2] A instalação do apartheid, ao fazer o controle das interações raciais através da gestão da sexualidade e da reprodução (tornando crime o sexo e o casamento inter-raciais), operou no sentido de danificar e destruir todo um sistema de relações. Ver a respeito o livro MOUTINHO, Laura. Razão, ‘Cor’ e Desejo: uma Análise Comparativa sobre Relacionamentos Afetivo-Sexuais ‘Inter-raciais’ no Brasil e na África do Sul. São Paulo: Editora Unesp, 2004.

 

* Coordenadora do Projeto PROAFRICA/CNPq – “A vizinhança nas entrelinhas: alianças e conflitos, trocas (des)iguais e cooperação entre Moçambique e África do Sul”

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