França x Croácia: um jogo para salvar o futebol

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Um evento como a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos não pode ser resumido a um único jogo, eu sei disso, mas o que assistimos na final do mundial da Rússia serviu para lavar a alma daqueles, que como eu, ainda entendem o esporte como uma manifestação estética mais do que simplesmente um negócio. Imagino crianças e jovens que assistiram ao último mundial e que ainda viverão para ver outros tantos campeonatos e falar com saudosismo de como era e como é o futebol. Lembrar-se-ão de uma Copa que aconteceu na Rússia, aquele país que certa feita sediou os Jogos Olímpicos e marcou gerações produzindo a imagem de um urso fofo chorando no encerramento, e cujo descendente futebolístico, um lobo, também mostrou sua face sensível despedindo-se do mundo com uma lágrima a lhe escorrer pelo rosto. Os comunistas de Brejnev, bem como os liberais da era Putin, sabem bem que esporte e emoção formam um par tão perfeito como Romeu e Julieta, seja de Shakespeare ou de queijo e goiabada.

Para nós que vivemos do, com e para o esporte, porém, ainda resta o rescaldo dessa que foi talvez a Copa mais sui generis da história. Produzida após 4 anos de outro megaevento, os Jogos Olímpicos de Inverno, de Socchi, do qual pouco ou quase nada restou para que os impactos de sua realização pudessem ser avaliados, a Copa de 2018 também deixará poucos dados sobre seus bastidores, como é de se esperar de tudo o que acontece em regimes controlados como o russo. Ficaremos então com aquilo que pode ser compartilhado socialmente.

Do ponto de vista estritamente esportivo assistimos a um deslocamento do que se pode chamar de favoritos ou de grandes times. Primeiro porque o entendimento que se tem de time é um grupo de 11 jogadores titulares, e outros tantos reservas, que trabalham com um objetivo único. Entretanto, o discurso sobre os ídolos leva o público vil e ignaro a achar que apenas um ser iluminado, aclamado como o melhor, é capaz de cumprir a tarefa mágica de sozinho passar pelos times adversários, formados com 11 jogadores, atacando e defendendo até concretizar o gol. Cruelmente essa Copa mostrou que esse ser imaginário é muito mais comum nos videogames do que em campo de grama. Que os atuais times favoritos aprendam rapidamente essa lição.
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Felizmente, a final da Copa da Rússia deu ao planeta a oportunidade de confirmar a imprevisibilidade que caracteriza o esporte, tanto pelos times que chegaram àquele momento como pelo que se viu no jogo derradeiro: um espetáculo digno de pessoas que buscam o limite. Prevaleceu o agon, razão de ser de toda atividade esportiva competitiva

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Outro dado curioso foi revelado: a necessária adequação de um discurso cultural e de identidade nacional aos interesses mais ou menos preconceituosos ou xenofóbicos de dirigentes e torcida. O drama do atleta mulçumano em respeitar ou não os rituais de sua religião que serão celebrados em um momento de jogo. O paradoxo de tratar com impropério xenofóbico o estrangeiro que defende o time adversário, mas que pode ser meu irmão “desde criancinha”, desde que defenda a camisa do seu país, expondo a conveniência do pertencimento. Brasileiros defendem o Brasil, mas também Portugal, Espanha ou qualquer outro país no qual o mercado lhe ofereça a possibilidade de emprego em um mundo no qual o trabalho está no limite da precarização. Jogadores de países africanos são abraçados e beijados pelos mesmos caucasianos que não hesitam em ofendê-los quando nos campeonatos regionais, ou mesmo nacionais, colocam em risco a tão desejada vitória a qualquer custo. Sem dúvidas, essa foi uma Copa rara, no qual esses paradoxos foram tão expostos quanto os lances duvidosos em campo. Na qual a tecnologia brilhou tanto ou mais do que os poucos jogadores que nos fizeram sentir a emoção de ver materializar a divindade de gênios com a bola nos pés.

Felizmente, a final da Copa da Rússia deu ao planeta a oportunidade de confirmar a imprevisibilidade que caracteriza o esporte, tanto pelos times que chegaram àquele momento como pelo que se viu no jogo derradeiro: um espetáculo digno de pessoas que buscam o limite. Prevaleceu o agon, razão de ser de toda atividade esportiva competitiva. Sem firulas, sem rodeios, sem simulações. Foram noventa e tantos minutos dedicados a buscar uma vitória que poderia ter favorecido a qualquer um dos dois times que chegou à final, simplesmente porque aqueles vinte e dois jogadores se mostraram dignos o suficiente para tentarem seu objetivo até o apito final, daí todos poderem ser chamados campeões.

Diante de uma batalha justa, como a vista naquele momento, aos derrotados não restaram as lágrimas, que tantas vezes lava o rosto daqueles que sabem não terem cumprido com o objetivo determinado, mas o orgulho do dever cumprido. Essa sensação passa não apenas pelas imagens de rostos cansados e plenos, como pela atitude de dirigentes nacionais que prestigiaram os atletas, do próprio país e do outro, sem lhes furtar as medalhas, distribuindo beijos e abraços indistintamente, quebrando protocolos, enfrentando a chuva torrencial sem capas, nem guarda-chuvas. Claro é que essa imagem será usada conforme a necessidade de cada um desses dirigentes, como já o fora em outras ocasiões. Política e esporte fazem parte do mesmo jogo. Naquele momento cheguei a acreditar que esse futebol carregava um pouco dos chamados valores olímpicos, do qual se afastara lá na década de 1930.

É inegável que a Copa da Rússia será lembrada pela derrocada dos favoritos, ainda nas fases classificatórias. Será lembrada também por um time brasileiro que não deixará saudade. Mas será inesquecível por ter proporcionado um espetáculo mágico onde dois times fizeram o mundo entender que o futebol é espetacular quando jogado por atletas que buscam fazer o seu melhor. Ritualizado pela agonística entrará para a galeria das partidas inesquecíveis.

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