Esporte e olimpismo não são a mesma coisa

Katia Rubio é professora da Escola de Educação Física e Esporte da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Observei ao longo da semana passada vários movimentos no sentido de chamar a atenção do público para os dois anos que faltam para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Parece que avaliar, analisar e concluir sobre 2016 saiu da pauta, já que passou a Copa e o olhar foca sempre o futuro na esperança de amenizar ou apagar marcas desagradáveis à memória e ao projeto de esporte que se tem para o País. A MP que retirava verbas do esporte foi anulada, levando a crer que com isso as garantias básicas para a sobrevivência esportiva do País estão asseguradas.

Premissa falsa leva, inevitavelmente, a afirmações equivocadas. Diferentes pontos de vista convergem para um mesmo fato: os atletas olímpicos brasileiros estão envelhecendo, apontando a falta de renovação para as futuras edições olímpicas. Isso sugere que há algo de podre no reino do esporte brasileiro e a discussão pode caminhar, pelo menos, em duas direções: qual é o problema do esporte e o que acontece com os atletas brasileiros.

Essa distinção se faz necessária para que os incautos não corram o risco de juntar boxe com bocha porque o número de letras é quase o mesmo, muito embora os dois tenham, em seus primórdios, os mesmos elementos de cultura antes de serem regrados e sistematizados como práticas esportivas.

Algumas práticas corporais de movimento remontam a séculos e foram desenvolvidas em diferentes momentos da história, atendendo às demandas de distintos grupos sociais. Na Antiguidade essas práticas que formavam homens para a guerra, também os levavam a celebrações atléticas como os Jogos Públicos, e entre eles os Jogos Olímpicos. Assim, cumpriam não apenas com seu dever de cidadãos, mas também honravam suas cidades quando conquistavam resultados positivos nas competições atléticas. Notem que não uso o termo esporte, porque esse é um fenômeno das sociedades modernas, urbanas e industriais, praticado até o presente, em diferentes partes do mundo. O sucesso dessa multiplicação se deve grandemente a fenômenos como os Jogos Olímpicos, considerados a face pública do Movimento Olímpico, cujo fundamento teórico é o Olimpismo.

É importante fazer essas distinções não apenas para elucidar o que acontece com o esporte no Brasil, como também porque temos interesse sobre o desempenho dos atletas olímpicos.

O esporte como fenômeno social organizou-se de forma destacada na Inglaterra do século XIX. Sua organização reflete a estrutura de uma sociedade estratificada, disposta a marcar essas diferenças tanto em nível micro como macro. Isso pode ser observado nas práticas esportivas nobres e aristocráticas, que desencadearão um tipo de associacionismo que resultará na criação de clubes, que demandarão a formação de federações e confederações, base da organização do sistema olímpico que perdura até os dias atuais.

Os atletas olímpicos brasileiros estão envelhecendo, apontando a falta de renovação para as futuras edições olímpicas. Isso sugere que há algo de podre no reino do esporte brasileiro e a discussão pode caminhar, pelo menos, em duas direções: qual é o problema do esporte e o que acontece com os atletas brasileiros.

Dessa organização estava excluída a maioria da população pertencente às camadas populares e trabalhadoras inglesas, que desenvolveria seu próprio sistema de prática esportiva, uma vez que não lhes era dado o direito ao pertencimento no grupo denominado amador e detentor do poder de organização dos meios de prática e competições. Isso quer dizer que, no princípio do século XX, por meio do esporte, diferentes grupos sociais se expressavam, manifestando suas diferenças, desejos e habilidades, ainda que isso se desse em instituições paralelas.

Mas o fascínio por um evento particular fazia com que esses grupos se rendessem às regras impostas de forma unilateral, sob uma prática discursiva que apregoava que esses valores eram universais. E assim, por meio dos Jogos Olímpicos, federações e confederações foram se rendendo às determinações que propunham regras, cuja finalidade era fazer dos Jogos Olímpicos o grande evento esportivo mundial.

Ao ser regrada, institucionalizada e internacionalizada, práticas da cultura corporal de movimento de origem local foram universalizadas, dentro de uma organização que tinha como prerrogativa construir um sistema competitivo único. O esporte praticado nesse sistema é evidentemente prerrogativa de poucos, dos mais habilidosos, como o são os experts em todas as áreas onde se exige a especialização extrema. Entretanto, causa curiosidade o desejo de pertencimento a um movimento que pode levar a uma perda de identidade devido às limitações impostas pelo establishment.

A esse processo de fagocitose de práticas como o skate, o surfe ou a escalada pelo Movimento Olímpico, eu chamaria de olimpização, ou seja, o enquadramento de modalidades criadas e consagradas como manifestações de grupos específicos, que carregam uma cultura a regras próprias fora de sistemas historicamente determinados como modalidades olímpicas. A força simbólica implicada nos mecanismos de poder manifesto na possibilidade de pertencimento ao seleto grupo dos atletas, ou ainda dos dirigentes, resulta na submissão a um sistema que coloca em risco a existência de esportes concebidos como de aventura ou na natureza, como o surfe ou o skate, desfigurando-as como uma manifestação cultural impregnada de sentidos relacionados, por exemplo, ao meio em que elas são desenvolvidas.

Entendo que há muitas outras questões envolvidas na transformação de uma modalidade esportiva em olímpica.  Jigoro Kano, o pai do judô e homem da educação que era, foi contrário à sua inclusão no programa olímpico, mesmo pertencendo ao COI. Morreu em 1936 e não viu a sua modalidade se tornar olímpica nos Jogos de Tóquio de 1964. Diferentes estudos mostram as transformações ocorridas no judô desde então.

O karatê também precisou de muitos anos até ser incluído nos Jogos de Tóquio de 2020, seguindo assim o mesmo caminho da luta irmã. Porém, mais do que se fixar no processo de inclusão é entender a força que mobiliza atletas e dirigentes ao redor do globo para pertencer a um grupo que opera com o conceito de universalização, desde que as regras sejam feitas por um pequeno grupo conclamado universal. É inegável a força da construção narrativa olímpica que opera não apenas na organização do esporte, mas principalmente, em sua fetichização.

 

 

 

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