Radiodramas contam histórias esquecidas do futebol

Programas exibidos na Rádio USP utilizam o formato do “Show de Rádio”, criado em 1969 por Estevam Sangirardi

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Miguel do Carmo, o primeiro jogador negro do futebol brasileiro – Foto: Wikimedia Commons

Miguel do Carmo. Esse nome pode não ser familiar, mas carrega uma enorme importância para o futebol brasileiro: ele se refere ao primeiro jogador de futebol negro do Brasil, além de fundador da Associação Atlética Ponte Preta, de Campinas (SP). Essa é uma das histórias que estão sendo recuperadas em Seleção Paulista dos Craques de Outrora, série radiofônica apresentada no programa Universidade 93,7, da Rádio USP (93,7 MHz), transmitido aos domingos, às 11 horas.

Com 12 episódios, a série começou a ser transmitida no dia 9 de agosto e vai até 25 de outubro. Ela é disponibilizada também no site do programa Universidade 93,7. Cada um dos episódios aborda um clube diferente de São Paulo. Eles contam histórias de diversos futebolistas, por meio do também resgatado formato do radiodrama. 

O programa é resultado da pesquisa de pós-doutorado do autor e produtor da série, Rafael Duarte Oliveira Venancio. Nessa pesquisa, feita sob supervisão do professor Eduardo Vicente, do Departamento de Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Venancio estudou o Show de Rádio, um programa com teor humorístico criado em 1969 e apresentado pelo radialista e escritor paulista Estevam Sangirardi (1923-1994) nas rádios Joven Pan e Bandeirantes, de São Paulo. O programa, inicialmente apresentado no intervalo de jogos do campeonato paulista, e mais tarde após as partidas, trazia personagens fictícios que falavam sobre os clubes e comentavam as partidas. 

Confira acima os episódios da série Seleção Paulista dos Craques de Outrora que serão exibidos de agosto a outubro na Rádio USP – Foto: site do programa Universidade 93.7

Das reflexões sobre essa pesquisa, intitulada Futebol não é só no Gramado: a narrativa no radiodrama esportivo de Estevam Sangirardi, nasceu a Seleção Paulista dos Craques de Outrora, uma produção conjunta do Grupo de Estudos e Produção em Mídia Sonora (MidiaSon) e do grupo Jornalismo Popular e Alternativo (Altejor), ambos da ECA. Segundo o autor do projeto, o objetivo foi “pegar esse formato, criar personagens e contar histórias de clubes paulistas”.

Venancio explica: “Sobre a Portuguesa, quem fala é um padeiro português, mais dramático. Já para o XV de Piracicaba, trazemos a figura do caipira Nhô Quim, mascote do clube. E quem fala sobre o Clube Atlético Juventus é o garoto Enzo, inspirado também no mascote do clube, apelidado de ‘menino travesso'”. O autor afirma que a intenção com esses personagens foi criar “mascotes sonoros”, que representassem cada um dos clubes, utilizando o mesmo mecanismo que o seu objeto de pesquisa, o programa Show de Rádio, usava para comentar as partidas. Devido à pandemia do novo coronavírus, a produção do programa ficou exclusivamente aos cuidados de Venancio, que interpretou as vozes de todos os 12 personagens.

Capa da série radiofônica Seleção Paulista dos Craques de Outrora, exibida no programa Universidade 93,7, da Rádio USP. O design é inspirado na camisa usada pela Seleção Paulista no campeonato brasileiro de futebol até 1970, época em que o torneio era disputado por seleções dos Estados –  Foto: Site do Universidade 93,7

Venancio explica que a escolha das figuras que têm suas histórias contadas na série passou por um critério básico: foram escolhidos jogadores de clubes paulistas do período entre 1895 e 1960 e que marcaram a história dos clubes em sua fundação ou no período em que estes atingiram sua maior fama. Um deles é Arthur Friedenreich, que além de futebolista é considerado herói de guerra por lutar por São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932. Outro é Pinga, do Juventus, o último a usar a camisa 10 da Seleção Brasileira antes de Pelé. Alguns são figuras famosas, como o inglês Charles Miller, responsável por trazer o futebol para o Brasil, e Urbano Caldeira, zagueiro que dá nome ao estádio do Santos Futebol Clube. E há também figuras importantes, mas que acabaram esquecidas, como Hans Nobiling, alemão que fundou dois times paulistas, o Internacional de São Paulo e o Germânia, e criou o primeiro campeonato de futebol do Brasil.

O pesquisador Rafael Duarte Oliveira Venancio – Foto: arquivo pessoal

Para Venancio, a Seleção Paulista dos Craques de Outrora não apenas resgata a história do futebol brasileiro, mas também realça o costume de narrar a realidade pela ficção. “A gente não precisa discutir futebol pela biometria, posse de bola e passes, mas com outro conteúdo, contando histórias com bom humor.”

Esse bom humor parece estar cativando os ouvintes. Segundo Venancio, o retorno vem sendo positivo. “Vários ouvintes estão entrando em contato para contarem que riem muito com os programas, o que é interessante, porque o humor não era o foco, mas isso mostra que ele foi bem feito.”

Venancio vê, atualmente, um distanciamento entre o jornalismo esportivo e a dimensão histórica e literária do esporte. “Jornalismo esportivo acabou virando mais entretenimento. Mas acredito que o Brasil é um país onde existe uma maior facilidade de ligar comunicação e arte, e uma forma de trazer isso de volta ao jornalismo é pelo futebol.” O autor do programa relembra o escritor Nelson Rodrigues e suas crônicas esportivas, e conta que ler sua obra foi um ponto de partida para “unir o Rafael que gostava de esporte e o Rafael que gostava de contar histórias, coisas que até então pareciam distintas, mas que se encontraram no jornalismo esportivo”. 

Os três primeiros episódios da série Seleção Paulista dos Craques de Outrora estão disponíveis no site do programa Universidade 93,7: O Meia Que Foi o Primeiro Negro do Futebol, O Lateral Que Foi o Maior de Todos os Tempos e O Beque Que Não Estava no Gibi. Universidade 93,7 vai ao ar pela Rádio USP (93,7 MHz) sempre aos domingos, às 11 horas.

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