Seminário na USP destaca a importância da Espanha na formação do Brasil

Realizado no dia 2 de setembro, evento reuniu diplomatas e professores para tratar da influência espanhola na formação do território e da população brasileira

Por - Editorias: Cultura
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Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A abertura do seminário, no dia 2 de setembro – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Com a intenção de destacar e estreitar as relações históricas, culturais, comerciais e acadêmicas entre Brasil e Espanha, a USP realizou no dia 2 de setembro, na Sala do Conselho Universitário, na Cidade Universitária, o seminário O papel da Espanha na Formação do Brasil como Nação: Território e População. O evento se estendeu por todo o dia, tratando, na parte da manhã, da influência da Espanha na configuração do território brasileiro ao longo da história e, à tarde, sobre as marcas deixadas pela presença espanhola em nossa população.

Na abertura do seminário, o reitor da USP, Marco Antonio Zago, o secretário geral da USP, Ignácio Maria Poveda Velasco, e o embaixador da Espanha no Brasil, Manuel de la Cámara Hermoso, fizeram breves considerações sobre os objetivos do evento. “Na minha expectativa, este é o primeiro de uma série de eventos em que podemos estudar numerosos temas da relação entre nossos países”, declarou Zago. Corroborando as palavras do reitor, Velasco anunciou que futuramente “haverá um fórum tratando de aspectos empresariais, políticos e culturais da relação entre Brasil e Espanha”. De la Cámara ressaltou a importância de conhecer as muitas confluências na história das duas nações ao longo dos séculos, e comemorou a ocasião: “Acredito que hoje seja um dia histórico”.

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Especialistas discutiram a influência da Espanha na formação do território e da população brasileira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O embaixador brasileiro Luiz Felipe de Seixas Corrêa fez a primeira conferência do seminário, falando sobre o período histórico da União das Coroas Ibéricas, entre 1580 e 1640, quando Portugal e Espanha foram governados por um mesmo rei. A união se deu devido a um imbróglio na sucessão do trono português, com o desaparecimento do rei Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578), que acabou culminando na tomada da coroa pelo então rei espanhol Filipe II, neto do falecido rei português D. Manuel I. Assim, Portugal passou 60 anos sob o domínio espanhol, o que obviamente teve reflexos no então Brasil colonial. “Há momentos na história das nações que determinam mudanças fundamentais, e o período filipino (outra denominação para a União Ibérica) foi um desses momentos para o Brasil”, afirmou o embaixador.

“Quando começou a União Ibérica, a América Hispânica já tinha estrutura jurídica, econômica e institucional, enquanto no Brasil ainda se praticava a extração de madeira e a cultura de cana. O contraste era monumental”, explicou Corrêa. Segundo ele, seria muito difícil para Portugal resistir à “compulsão unificadora” do rei espanhol, em termo cunhado por Sérgio Buarque de Holanda, e o Brasil se abriu à soberania filipina, supondo que isso alavancaria o desenvolvimento local.

No entanto, de acordo com Corrêa, como ainda não haviam sido descobertos metais preciosos no Brasil, o território foi negligenciado, servindo principalmente como uma grande barreira que defenderia as lucrativas colônias espanholas de invasões. Esse “descaso”, nas palavras do embaixador, favoreceu movimentos como as entradas e as bandeiras. “Como Portugal e Espanha agora eram um só, era possível desbravar o território mais adentro sem a preocupação de estar invadindo terras estrangeiras”, explica ele.

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Debate durante o seminário – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Na segunda conferência do seminário, também sobre o período da União Ibérica, o historiador Antonio Terrasa Lozano, da Universidad Complutense de Madrid, ressaltou a maleabilidade entre Portugal e Espanha naquela época como fator decisivo para a formação do Brasil. “A proximidade e a permeabilidade entre as Américas portuguesa e espanhola durante a União Ibérica foram relevantes do ponto de vista do território, mas também do imaginário e da identidade do Brasil. Essa relação não existe entre outros países rivais da época, como França e Holanda”, disse Lozano.

Ele também ressalta a maneira como as colônias eram governadas no vasto reino da dinastia filipina. “O rei não era um tirano. Na América Espanhola, para legitimar a dominação do território, convertiam-se índios ao catolicismo e, assim, eles podiam se tornar vassalos do rei, recebendo inclusive títulos de nobreza. Isso também ocorreu no Brasil, embora não com a mesma frequência que nas outras colônias”, afirma.

Após as conferências, formou-se uma mesa-redonda para apresentar ainda outras considerações à questão. O secretário geral da USP Ignácio Poveda acrescentou que “o Brasil não seria o país continental que é sem o período da União das Coroas, no qual, além da tranquilidade para avançar rumo ao oeste, diversos tratados reconfiguraram o território”. O mediador da mesa, o professor Vamireh Chacón Albuquerque, destacou a influência da Espanha no direito brasileiro. “As ordenações espanholas vigoraram no Brasil até 1917, quando entrou em vigor nosso Código Civil. São quase 300 anos de influência da Espanha no campo jurídico”, afirma Chacón. O embaixador Corrêa finalizou falando da relevância do período da União Ibérica não só para a extensão, mas para a unidade do território brasileiro. “Não fosse o atraso do Brasil em relação às outras colônias da América Latina da época, o País também teria se dividido em vários, como aconteceu com nossos vizinhos onde metais preciosos foram descobertos rapidamente. Por isso, é importante ter em mente o que se realizou e o que se desrealizou no Brasil.”

Período de transformações

Na parte da tarde, as conferências trataram da influência espanhola no que se refere à população. A história da imigração espanhola no Brasil tem a pesquisa de Marília Canovas como referência. Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Etnicidade, Racismo e Discriminação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a professora participou do seminário discutindo aspectos da corrente emigratória espanhola. Esclareceu que, entre o fim das guerras napoleônicas e a depressão mundial de 1940, foi registrado um grande movimento populacional transoceânico denominado de emigração em massa. “Nesse intervalo de tempo, imensas ondas humanas cruzaram o Atlântico em direção à América, algo em torno de 60 milhões de europeus e 10 milhões de asiáticos”, observou. “A corrente emigratória espanhola se fez representar com um fluxo aproximado de três milhões e trezentas mil pessoas. Cerca de meio milhão daqueles emigrados espanhóis teve o Brasil como país de destino, representando a terceira maior corrente do caleidoscópio étnico ingressado no período.”

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Seminário ocorreu na Sala do Conselho Universitário da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Marília ressaltou que cerca de 70% desse contingente tinha como destino o Estado de São Paulo. “Os espanhóis se fixavam inicialmente como colonos nas fazendas de café do Oeste paulista. Para ali se encaminhavam constituídos em família, requisito para a concessão do subsídio à passagem, principal alicerce da política oficial de arregimentação de braços em larga escala, estabelecida para irrigar com mão de obra farta a lavoura cafeeira em constante expansão.”
A participação dos espanhóis na Pauliceia de profundas transformações também foi abordada pela especialista e também a sua presença na cidade portuária de Santos, que passa a registrar um crescimento econômico expressivo decorrente do aumento na exportação do café. Marília lembrou que o Brasil não era o destino favorito do imigrante espanhol, que, por facilidades de idioma, preferia a Argentina ou o Uruguai, que, na época, também tentavam atrair mão de obra europeia. “O Brasil, no entanto, oferecia uma vantagem que era o subsídio.” A expectativa da especialista com a realização do seminário é “atribuir uma fisionomia a esse importante contingente emigratório que, com sonhos e sementes, veio fertilizar o nosso solo, mas que, curiosamente, há até bem pouco tempo atrás, era reconhecidamente protagonista de uma história de reticências”.

Ramón Villares Paz, professor de História Contemporânea da Universidade de Santiago de Compostela e presidente do Conselho da Cultura Galega, foi outro palestrante no seminário. Paz observou que os espanhóis compõem a formação da identidade do Brasil contemporâneo. “Eles continuaram vindo para este país até os anos 1960. Queria destacar também a importância da escritora Nélida Piñon, que escreveu uma obra épica galega, A República dos Sonhos, divulgando a importância da imigração da Galiza no Brasil.”

Hoje, dez milhões de brasileiros são descendentes de espanhóis. Cerca de 80% deste total reside em São Paulo e o restante, no Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul. Para David Antonio Diaz Almazán, presidente da Arteris S.A. e mestre em Administração de Empresas pela Universidad Politécnica de Cataluña – que participou de uma mesa-redonda no seminário -, o Brasil e a Espanha estão integrados no desenvolvimento econômico. “A Espanha é hoje o terceiro maior investidor no Brasil, depois da Holanda e dos Estados Unidos”, ressaltou. “Representa cerca de 10% a 12% do total do investimento estrangeiro no Brasil, resultando em uma balança comercial de três a quatro bilhões de USD anuais de exportações e importações.”
Almazán fez questão de salientar que as empresas espanholas criaram mais de 200 mil empregos no Brasil. Além da Arteris, citou a participação tanto das pequenas como das grandes empresas, como Santander, Ferrovial, Mapfre, Prosegur, entre outras. “O mercado brasileiro é complexo e fechado, em que os relacionamentos são importantes”, analisou. “E a cultura espanhola é muito próxima à brasileira.” O administrador traçou vários aspectos positivos que levam a Espanha a investir no Brasil. “O brasileiro evita o conflito, procura a harmonia e tem muita criatividade. Sabe lidar com a incerteza, improvisa mais. Tem flexibilidade e empreendedorismo.”

LEILA KIYOMURA E DIEGO C. SMIRNE

 

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