Drama dos refugiados não ecoa nos países desenvolvidos

Os países em desenvolvimento são os que verdadeiramente arcam com o custo social advindo dos refugiados

Por - Editorias: Atualidades, Rádio USP
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O drama dos refugiados conhece um novo capítulo a cada dia. A Organização Internacional para as Migrações, um órgão da ONU, denuncia que africanos que tentam chegar à Europa são vendidos como escravos na Líbia. Em fevereiro, o Unicef divulgou um relatório no qual documenta em detalhes histórias de escravidão, violência e abuso sexual ocorridas com muitas crianças que viajaram da Líbia para a Itália. De acordo com o documento, aproximadamente 26 mil crianças – a maioria delas desacompanhadas –  cruzaram o mar Mediterrâneo em 2016 e muitas sofreram abusos nas mãos de traficantes.

A professora Deisy Ventura, do Instituto de Relações Internacionais da USP, admite que o problema é grave. Grande parte desses migrantes – oriundos de Gana, Zâmbia e Níger – é sequestrada e, para que seja libertada, seus familiares são despojados de tudo o que possuem. E não se pense que tais pessoas não tenham bens ou que sejam desprovidas de recursos, pois teriam meios de migrar e recomeçar suas vidas em outro lugar.

Há um mercado de escravatura em expansão na Líbia, diz relatório da OIM – Foto: Getty Images via BBC

A professora Deisy aponta dados alarmantes: 65,3 milhões de pessoas são forçadas a se deslocar devido sobretudo aos conflitos armados, mas também em razão de crises sanitárias, fome e catástrofes naturais. Somália, Afeganistão e, liderando, Síria são os grandes “exportadores” de refugiados. Pela primeira vez, o número de pessoas obrigadas a deixar seus países de origem ultrapassa o de deslocamentos forçados registrados durante a Segunda Guerra Mundial. Um outro dado é o de que, do total de deslocamentos forçados, 21,3 milhões correspondem efetivamente ao número de refugiados, o restante refere-se ao de deslocados internos (indivíduos que abandonam seu domicílio, mas ainda permanecem no Estado em que residiam).

Deisy Ventura revela que há uma falsa crença, segundo a qual a maioria dos refugiados tenta ir para a Europa ou para os EUA. A verdade é que 86% deles estão no mundo em desenvolvimento, enquanto apenas 6% dirigem-se para os países desenvolvidos. Ainda segundo ela, os países que mais recebem refugiados são Turquia, Paquistão, Líbano, Irã, Etiópia e Jordânia. Disso resulta que o peso desses deslocamentos forçados recai sobre os países contíguos àqueles que enfrentam conflitos armados em seus territórios. “Esses países podem falar em crise de refugiados, o que não é o caso dos países europeus. É inaceitável que os ricos digam que receber 6% desses refugiados seja uma crise.”

Por outro lado, os países em desenvolvimento enfrentam uma enorme dificuldade para abrigá-los: um em cada três  encontra-se em campo de refugiados, onde as condições de vida nem sempre são dignas. Às milhões de pessoas abandonadas nesses campos, acresce-se o cemitério em que se transformou o Mediterrâneo –  milhares de pessoas morrem a cada ano buscando a travessia que lhes garantiria a sobrevivência.

A professora Deisy afirma ser preciso mudar radicalmente a perspectiva da questão migratória, assim como é necessário levantar algumas questões acerca das condições que geram os deslocamentos forçados: de onde vêm as armas, quem financia a compra de armamentos, quem ganha dinheiro com os conflitos armados, quais são os interesses em jogo ? Antes de tudo, existe uma crise de ordem internacional. É vital tentar compreender a raiz desse problema e verificar até que ponto os países desenvolvidos estão comprometidos ou são responsáveis pela atual situação.

O que não se pode, segundo ela, é fechar as portas para as pessoas que hoje estão desamparadas e sem ter para onde ir, além de – entregues à própria sorte – encontrarem-se à mercê de todo o tipo de abuso, o que configura uma situação de catástrofe humanitária como poucas vezes vista na história da humanidade.

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