Pró-reitor de Pesquisa quer maior aproximação entre Universidade e sociedade

Promover maior aproximação entre a Universidade e os setores representativos da sociedade, a fim de obter mais recursos para a investigação científica, é uma das prioridades do novo pró-reitor de Pesquisa da USP, professor José Eduardo Krieger.

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Promover maior aproximação entre a Universidade e os setores representativos da sociedade, a fim de obter mais recursos para a investigação científica, é uma das prioridades do novo pró-reitor de Pesquisa da USP, professor José Eduardo Krieger

O novo pró-reitor de Pesquisa, José Eduardo Krieger

A atividade de pesquisa, por possuir muitos mecanismos autorregulatórios, de certa forma funciona no “piloto automático”, e os desafios para a Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade são, em primeiro lugar, não atrapalhar quem está trabalhando na ponta e, em segundo, ver como mexer de forma criativa num time que está ganhando para que ele jogue melhor. Além de definir dessa forma o seu papel, o novo titular da área, José Eduardo Krieger, utiliza também uma metáfora emprestada da música: para o pró-reitor, a USP ainda não faz com que seus muitos virtuoses toquem como se estivessem numa só orquestra. “Se conseguirmos produzir algumas músicas, será um grande avanço”, diz.

A propósito, Krieger já vem trabalhando afinadamente nos últimos anos em parceria com o novo reitor, seu antecessor no cargo, por presidir desde 2013 a Comissão de Pesquisa da Faculdade de Medicina (FM) da USP, onde é docente do Departamento de Cardiopneumologia. Mas a relação entre ambos remonta à década de 1980, quando Marco Antonio Zago foi seu professor na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. Krieger fez doutorado em Wisconsin e pós-doutorados nas universidades de Harvard e Stanford, todas nos Estados Unidos.

A experiência norte-americana, semelhante à de outros países do Hemisfério Norte, certamente é fonte de novos modelos para financiamento que o professor deseja ver implantados na USP. “Há um incentivo muito grande para que o pesquisador seja competente em trazer recursos. Hospitais top de Harvard têm parte substancial de seu orçamento vinda não só de assistência, mas também das atividades de pesquisa”, diz. Ao mesmo tempo, o pesquisador também acaba “montando” um escritório, que se paga com recursos próprios, para fazer a gestão dos projetos.

“Já somos muito bons para atrair recursos de agências de fomento, mas frequentemente não exploramos todas as possibilidades e demandas do setor público, e na iniciativa privada temos um caminho totalmente aberto”, considera Krieger. Por essa razão, buscar maior aproximação dos setores representativos da sociedade, tanto públicos quanto privados, será uma prioridade do trabalho.

Modelos – Para o novo pró-reitor, é preciso diminuir a carga de tempo que o pesquisador dedica à gestão dos projetos. Fazer com que a instituição se ocupe mais desses aspectos é um dos caminhos, e intensificar o uso das ferramentas da tecnologia da informação é outro. Modelos e exemplos podem ser buscados nas universidades do exterior e adaptados para as condições da realidade brasileira, defende. Na gestão anterior, a Pró-Reitoria criou os Núcleos de Apoio à Pesquisa (NAPs) e começou a montar uma estrutura destinada a suprir demandas desse tipo. “Queremos expandir a semente preparada para os NAPs, num primeiro momento, para o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e para os recursos USP, e depois para recursos que venham das agências federais, da iniciativa privada etc.”, diz Krieger.

Discussões sobre as melhores formas de utilizar as verbas também estarão na pauta. Só de reserva técnica institucional da Fapesp, por exemplo, as unidades da USP recebem cerca de R$ 20 milhões anuais. “Será que vale a pena ter algumas diretrizes gerais que possam aumentar a eficiência da utilização desses recursos?”, pergunta o pró-reitor. “Sob a ótica da unidade eles são muito bem utilizados, mas, se pensarmos no todo da Universidade, será que não podemos aumentar a eficiência nessa utilização?”

Perguntas semelhantes sobre centralização, descentralização ou modelos mistos podem ser feitas quando se trata de outros investimentos. “Várias unidades diferentes estão tentando criar laboratórios de proteômica ou de sequenciamento. Mesmo que tenhamos vários campi, será que se a gente puder juntar esses recursos e a própria alocação de funcionários do Procontes (Programa de Concessão de Pessoal Técnico de Nível Superior) não faríamos isso de um jeito mais eficiente, em vez de cada unidade criar uma estrutura separadamente?”, exemplifica. Dentro dessa linha, a Pró-Reitoria também irá submeter iniciativas aos editais do Fundo de Infraestrutura da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – de forma sistêmica, e não pulverizada por unidades.

Ousadia – Para o professor, a gestão deve consolidar o trabalho dos NAPs, considerado muito importante por estimular a união de pesquisadores de áreas diversas em grupos multidisciplinares. O volume de investimento no programa não necessariamente seguirá no mesmo nível de seu lançamento – de um lado, porque as demandas iniciais da largada dos trabalhos já foram supridas, e de outro porque o programa ainda tem recursos disponíveis. “A beleza do sistema dos NAPs é que eles têm começo, meio e fim. O grupo é refém de seu sucesso: se não consegui-lo ao final de um determinado período, vai acabar, e se tiver muito sucesso provavelmente vai se reinventar e ter continuidade”, define Krieger.

Outra característica que os NAPs procuraram fomentar foi a ousadia. A USP já mostrou que tem capacidade de produzir números importantes – e o momento, diz o pró-reitor, ecoando vozes de outras lideranças da Universidade, é de ousar e dar um salto de qualidade na pesquisa e procurar soluções novas e de risco para problemas complexos e relevantes. A área do pré-sal, cita, é um exemplo de oportunidade de fazer trabalhos em grande escala não só em prospecção, mas em oceanografia e outros campos. Esse conjunto de medidas, considera o professor, tem que caminhar para se consolidar como “políticas de Estado, e não de governo” para a USP.

Krieger reconhece que a realidade orçamentária é um problema grave, mas que “não irá congelar a Universidade” – até porque, reitera, “não esgotamos nossa capacidade de atrair recursos”. Para o pró-reitor, a atual situação “vai inclusive fazer com que a USP melhore seus mecanismos de avaliação para tentar responder por que isso aconteceu e como evitar que se repita”.

Mais pós-doc e internacionalização – José Eduardo Krieger defende que a USP precisa aumentar seu número de projetos temáticos, pós-doc e de jovens pesquisadores financiados por meio de fomento da Fapesp. Em relação especificamente aos pós-doc, o pró-reitor considera que eles são de certa forma “os agentes mais produtivos dentro de um laboratório”.

“É evidente que não vamos abrir mão de continuar investindo em iniciação científica, mestrado e doutorado, até porque frequentemente temos alunos brilhantes nessas áreas, mas de maneira geral o mais produtivo é o pós-doc, e é dessa maneira que nossos competidores no exterior trabalham”, diz.

Foco na internacionalização, por sinal, é outra preocupação de Krieger. De acordo com o professor, dados mostram que trabalhos que incluem pesquisadores de vários países acabam tendo um maior número de citações e, mesmo que esse não seja o único indicador a ser levado em conta, acaba influindo também na qualidade do trabalho. As parcerias independem da mobilidade (ou seja, da presença dos pesquisadores estrangeiros aqui e vice-versa), mas podem se utilizar cada vez mais de mecanismos de financiamento compartilhado – no qual o mesmo projeto é submetido no Brasil e em outro país, e cada instituição financia proporcionalmente a parcela de trabalho realizada em seu território.

(Matéria publicada na edição nº 1.024 do Jornal da USP, de 10 a 16 de março de 2014 / Foto: Francisco Emolo)

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