“Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, ganha leitura dramática

Evento acontece neste sábado, dia 25, em São Paulo, e inclui debate com especialistas na obra do dramaturgo

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Cena da peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues – Foto: Divulgação

Em parceria com o Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom) da USP, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em São Paulo, recebe a leitura dramática da peça Vestido de Noiva, escrita por Nelson Rodrigues (1912-1980).  O evento, que inclui debate sobre a obra, ocorre neste sábado, dia 25 de agosto, às 14h30, e faz parte do projeto Liberdade em Cena, coordenado em conjunto pelas duas instituições, que busca apresentar textos de peças que marcaram o teatro brasileiro. A entrada é gratuita. O Obcom é ligado à Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

O debate, que ocorrerá depois da leitura, terá a participação do diretor Marco Antonio Braz, referência na encenação e no estudo de Nelson Rodrigues, e da professora Elizabeth Azevedo, do Departamento de Artes Cênicas (CAC) da ECA. “Normalmente levamos uma pessoa da academia e alguém de teatro. Assim, o público ouve e debate também as visões de um acadêmico e de um artista”, explica Roberto Ascar, coordenador do projeto e diretor de algumas apresentações.

A peça

Vestido de Noiva foi apresentada pela primeira vez em 1943 e tem como principal característica a divisão da dramaturgia em três planos de narrativa: realidade, alucinação e memória. No mundo real, Alaíde, uma moça da elite carioca, é atropelada e levada ao hospital entre a vida e a morte, ficando inconsciente. Nesse momento, surgem dois outros planos, revelando os delírios da protagonista enquanto está desacordada e os acontecimentos que antecederam o acidente.

A peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, foi apresentada pela primeira vez em 1943 – Foto: Divulgação

A história de Alaíde foi escolhida para ser encenada no projeto devido às grandes inovações que introduz no teatro, principalmente em termos de roteiro. “Vestido de Noiva é um marco. Muitos pesquisadores pontuam essa peça como o início do teatro moderno no Brasil”, conta Walter de Sousa, vice-coordenador geral do Obcom. A grande novidade está no modo como Nelson Rodrigues trabalhou os três planos narrativos. “As histórias vão se alternando, mas não são três atos. Elas se misturam”, complementa Ascar.

O projeto

O projeto Liberdade em Cena nasceu a partir do acervo Miroel Silveira, que pertence ao Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo e reúne uma série de documentos sobre a censura no teatro paulista entre os anos de 1926 a 1968. Com cerca de 6 mil textos censurados por completo ou cortados, ele só começou a ser devidamente estudado no começo do século 21, quando a professora da ECA Maria Cristina Castilho Costa – coordenadora geral do Obcom – ficou responsável por esses registros, iniciando uma pesquisa sobre eles.

Uma das conclusões tiradas a partir desse estudo é que, mesmo em períodos democráticos, como os anos do pós-guerra até 1964, a censura continuava existindo, mas com outras motivações. “Durante o regime de Getúlio Vargas e a ditadura militar (1964-1985), trata-se de questões políticas, religiosas e de desrespeito aos símbolos nacionais. Já no período de democracia, o que é mais visado são os costumes e a moral. Tanto que o termo mais censurado em todo o período que o arquivo atinge é ‘amante’, que não é de cunho político, e sim moral” explica Walter de Sousa.

Vestido de Noiva é vista como um dos marcos do teatro brasileiro moderno – Foto: Divulgação

Em 2016, surgiu a parceria com o Sesc através do projeto Censura em Cena. “Esse projeto visava à leitura interpretada de 12 textos proibidos pela censura, desde Getúlio Vargas até o final da ditadura militar”, conta Ascar. Na sequência, o Liberdade em Cena foi colocado em prática, destacando peças que, apesar de terem passado pelos censores, foram liberadas e posteriormente fizeram história nos teatros brasileiros. Só neste ano, Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, Morte e Vida Severina, baseado no poema de João Cabral de Melo Neto, e Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, já foram apresentadas.

A ideia é fazer a leitura dramática desses textos, ou seja, uma encenação com apoio cenográfico e de figurino, mas com o roteiro sendo lido pelos atores, em vez de decorados. Segundo Ascar, isso ocorre porque “o objetivo é mostrar os textos, que dificilmente são montados profissionalmente, dado a dificuldades como número de atores”.

De acordo com Walter de Sousa, um dos grandes desafios de Liberdade em Cena é explicar como os autores conseguiram passar seus textos pelos censores. “Precisamos nos ater tanto à lógica do censor quanto à do autor para entendermos de que forma isso foi feito”, relata ele. No caso específico de Vestido de Noiva, que abordava temas perseguidos, como a moral e a decadência da família, o roteiro foi uma das estratégias utilizadas por Nelson Rodrigues com essa finalidade. “Ele foi muito habilidoso como autor, porque criou uma complexidade dramática muito grande para tratar desses assuntos”, afirma o vice-coordenador.

A principal novidade introduzida por Vestido de Noiva está no modo como Nelson Rodrigues trabalhou os planos narrativos – Foto: Divulgação

A leitura dramática de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, ocorre neste sábado, dia 25 de agosto, às 14h30, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, na Bela Vista, em São Paulo). Após a leitura, haverá debate com o diretor Marco Antonio Braz e com a professora Elizabeth Azevedo, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A promoção é do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom) da ECA e do Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc. Entrada grátis. Inscrições devem ser feitas no site do Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc.  

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