Professor e editor Jacó Guinsburg lança livro de poemas

Aos 97 anos, professor da USP e fundador da Editora Perspectiva publica seus próprios versos

Por - Editorias: Cultura
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O Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e fundador da Editora Perspectiva Jacó Guinsburg – Foto: Divulgação / ECA-USP via YouTube

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Quem pensaria
que você um dia
se atreveria a escrever
um livro de ninharia.
E diria,
que é poesia?
“Ninharia”

Nas Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke (1875-1926) transbordava em palavras a contradição entre eternidade e finitude, ser humano e natureza, alma e espírito. Em versos caudalosos, exorcizados da tribulação do mundo, o poeta reunia anjos e animais para determinar que o único caminho possível era cantar o efêmero. Fazia o elogio da metamorfose a partir daquilo que é mais passageiro: o próprio homem.

Diferentemente do poeta alemão, Jacó Guinsburg não escreve vindo de um castelo idílico às margens do mar Adriático. Aos 97 anos, o editor, crítico de teatro, ensaísta e Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP versifica a concretude do que viu e vê, contemporâneo como sempre. Nascido em 1921 na Bessarábia (hoje Moldávia) e aportado nos trópicos aos três anos de idade, soa hiperbolicamente brasileiro. Olhar inquieto, bem-humorado e incansável, saltando da cadeira de editor e da poltrona da plateia para jorrar a voz no livro Jogo de Palavras, coleção de poemas recém-lançada pela Ateliê Editorial.

Em linhas curtas e contadas, presente político, erudição, reflexões existenciais e humor se entrelaçam, revelando a faceta lírica do intelectual. É uma demonstração de vitalidade de Guinsburg, que escreve com um compromisso apenas próprio, uma liberdade que se arremessa da tradição ao contemporâneo, sem pudor ou receio.

Na restinga da Marambaia
não restou nem cupim
pra contar a maracutaia.
“Joaquim Barbosa”

Eu quis compor um poema
sem palavras nem imagens,
puro som de minha angústia
num tempo de espera
no espaço da vida.
“Tempo de espera”

São versos de quem não precisa provar nada a ninguém. Porque Guinsburg é o fundador e atual editor-presidente da Editora Perspectiva, monumento editorial nascido em 1965 e responsável por mais de mil títulos de produções ensaísticas em artes, literatura, filosofia, linguística e ciências humanas. Antonio Candido, Tzvetan Todorov, Anatol Rosenfeld, Umberto Eco, Tadeusz Kantor e Haroldo de Campos são apenas alguns dos nomes que brilham na constelação de seu catálogo, cujas coleções Debates e Estudos se tornaram, ao longo da segunda metade do século 20 e neste começo do 21, fundamentais nas estantes de estudantes e pesquisadores de todo o País.

Olhei para o alto
em busca de meu astro.
O anjo da guarda deu um salto
e abriu seu cadastro.
O registro estava escrito
na tinta azul do firmamento.
Ao ruflar das asas do julgamento
e com um sorriso maroto,
leu em bom som e alto:
– Ele é um poetastro!
“Justiça celeste”

É a liberdade de quem teve como orientador de doutorado Antonio Candido, fez cursos de Filosofia na Sorbonne e é considerado o maior especialista em teatro russo e iídiche do Brasil. De quem deu aulas na Escola de Arte Dramática (EAD) e depois no Departamento de Artes Cênicas da ECA, no qual se aposentou em 1991, recebendo o título de Professor Emérito em 2001. De quem orientou nomes do calibre de Antonio Araújo e Cibele Forjaz.

Vou-me embora pra Brasília,
lá sou amigo da lei,
terei o dinheiro que eu quero
no banco que escolherei:
Okei!
“Vou-me embora pra Brasília”

São versos de um compromisso próprio que ecoa o pioneirismo de Guinsburg na análise do teatro brasileiro a partir do palco. A inovação ao abandonar o textocentrismo e entender que a obra só se completa em cena, a partir da primeira fala do ator. Um compromisso que se materializou também na escrita de livros como Stanislávski e o Teatro de Arte de Moscou, Ensaios de Literatura e Teatro Iídiche e Teatro Brasileiro: Ideias de Uma História, para citar apenas algumas obras.

O livro de poemas do professor e editor Jacó Guinsburg – Foto: Divulgação / Editora Ateliê Editorial (Clique na imagem para ampliar)

Branco sobre branco:
Branco.
Preto sobre preto:
Preto.
Branco sobre preto:
Alvinegro.
Viva o Corinthians!
“A fiel da Balança”

São palavras, ainda, de quem sabe que viveu. Cuja trajetória ainda soma a produção sobre literatura brasileira e internacional em revistas e jornais, a colaboração em publicações da comunidade judaica e a participação no mitológico Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo.

O animal em mim
diz que chegou ao fim,
pois está escrito que é assim;
mas, neste ínterim
soa o toque de um tamborim:
é o bloco do Serafim
chamando a alma para o festim
da vida eterna do querubim.
“Fim”

Jogo de Palavras, de Jacó Guinsburg, Ateliê Editorial, 96 páginas, R$ 58,00.

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