Vida e obra de Egon Schaden são lembradas na USP

Nesta sexta-feira, dia 13, às 15 horas, evento na USP reúne pesquisadores para discutir o legado do antropólogo

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Egon Schaden e sua cidade natal, São Bonifácio (SC), ao fundo – Foto: Reprodução DVD Egon Schaden – uma trajetória antropológica

Ao longo de sua trajetória acadêmica, os pesquisadores obtêm vários títulos – como mestre, doutor e pós-doutor. Nessa carreira, eles podem deixar de dar a devida importância e valor ao ser professor, título que o catarinense Egon Schaden (1913-1991), um dos mais importantes antropólogos do Brasil e docente da USP, tinha imenso orgulho de possuir. Em homenagem ao professor Schaden, ocorre nesta terça-feira, dia 13, às 15 horas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o evento Egon Schaden na Antropologia do Brasil e Alemanha. Famoso por seus estudos sobre indígenas, Schaden, que tinha ascendência alemã, também deu aulas na Alemanha, influenciando diversos pesquisadores da área a virem para o Brasil.

O objetivo do encontro é discutir sobre a vida e a obra do antropólogo, mostrando como ele fortaleceu as relações com a Alemanha nessa área de estudo, segundo Tânia Welter, secretária do Instituto Egon Schaden (IES) – entidade responsável pelo acervo e memória do antropólogo, instalada em São Bonifácio (SC), cidade natal de Schaden. “Ele, de certa forma, levou a antropologia brasileira para a Alemanha e trouxe a antropologia alemã para cá, promovendo essa rede de cooperação”, acrescenta Tânia, que será uma das debatedoras do evento.

 

Egon Schaden (à direita) ao lado de Claude Lévi-Strauss (no centro) e a professora da USP Eunice Durham (à esquerda) – Fonte: Acervo Família Schaden

 

Uma demonstração dessa cooperação científica está em uma das convidadas do evento, a alemã Birgit Suhrbier, curadora do Weltkulturen Museum, de Frankfurt, na Alemanha. Birgit conheceu Schaden através de seu professor, Mark Münzel, que teve aulas com o brasileiro na Alemanha, e que chegou inclusive a vir ao Brasil fazer pesquisas e publicar trabalhos. Assim como ele, Birgit aprendeu português e também conheceu Schaden e seu país.

A mesa do evento contará ainda com a presença de colegas e ex-alunos de Schaden, como o Professor Emérito da FFLCH João Baptista Borges Pereira e a professora do Departamento de Antropologia da FFLCH Renate Brigitte Viertler. “Será um feliz encontro entre várias gerações de pesquisadores em antropologia que se interessam por essa trajetória do professor Egon Schaden”, relata Tânia.

No evento, será feito o lançamento do DVD Egon Schaden – Uma Trajetória Antropológica, publicado pelas Edições Instituto Egon Schaden. Organizado por Tânia Welter e Pedro Martins, o DVD contém um filme de 22 minutos, produzido em 2013 para celebrar o centenário de Egon Schaden, depoimentos de pessoas ligadas ao professor, uma entrevista concedida por Schaden em 1984 e ainda uma mensagem do crítico e professor da USP Antonio Candido (1918-2017) sobre o antropólogo, gravada em 2013.

O DVD Egon Schaden – Uma Trajetória Antropológica – Foto: Divulgação

Vida e obra

Em meados do século 20, a antropologia brasileira dava prioridade para o estudo sobre os indígenas. Schaden seguia essa linha de pesquisa, podendo ser definido como um etnólogo, ou seja, um estudioso de povos e etnias. Seu trabalho tinha um forte enfoque na população guarani e trouxe uma nova perspectiva para a área. “Ele se alinhou à aculturação, teoria sistematizada por professores dos Estados Unidos que estuda o encontro entre culturas diferentes. Schaden adotou essa teoria nos estudos que fez aqui no Brasil”, conta o professor João Baptista Borges Pereira.

Para a professora Renate Viertler, que se define como uma “cria” de Schaden, o grande legado do professor foi a diversidade de temas e pesquisas que abordou. “Ele instituiu os vários temas com que estamos trabalhando hoje: a etnologia em relação à população indígena, população de camponeses, antropologia física e a história da antropologia, por exemplo.”

A relação de Schaden com a cultura indígena veio muito antes de suas grandes obras, como A Mitologia Heroica de Tribos Indígenas do Brasil: Ensaio Etno-Sociológico (1959). Neto de alemães, ele nasceu e cresceu em São Bonifácio vendo seu pai intermediar conflitos entre nativos e bugreiros, que são profissionais contratados por fazendeiros para exterminar os indígenas. De acordo com Tânia, “ele teve a oportunidade de, ainda menino, conhecer aldeias onde os índios tinham sido dizimados. De certa forma, foi estimulado para pesquisar e defender as populações indígenas já na sua infância.”

Egon Schaden em 1990 – Fonte: Acervo família Schaden

Em sua infância, Schaden recebeu instrução em diferentes áreas do conhecimento, como música e línguas estrangeiras. Foi a influência de seu pai que o levou para as ciências humanas. Com cerca de 15 anos, ele ganhou uma bolsa para fazer o ensino secundário em Florianópolis, e depois de cinco anos foi para São Paulo. Em 1935, matriculou-se no curso de Filosofia da então chamada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, que tinha sido fundada no ano anterior, bacharelando-se em 1937.

“Egon Schaden é um dos poucos antropólogos de destaque que têm sua origem eminentemente rural e pobre”, ressalva Tânia. Na USP, ele foi fundamental para o desenvolvimento dos estudos antropológicos. A cadeira de Antropologia na Universidade, criada pelo alemão Emilio Willems em 1936, só foi estruturada quando Schaden a assumiu, com o apoio da professora Gioconda Mussolini. “Ele conseguiu que a diretoria se interessasse pela cadeira, conseguiu realmente a verba necessária. Hoje é um departamento muito forte, com muitas frentes teóricas e temáticas para discutir”, conta Borges Pereira. Na USP, Schaden chegou também a ser professor de Antropologia da Comunicação na hoje chamada Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Egon Schaden em dezembro de 1932 – Fonte: Arquivo do Colégio Catarinense

Orgulhoso do título de professor, Schaden lecionou no ensino secundário, no superior e na pós-graduação. “Dentro da academia há ênfase no status do pesquisador. Já Egon Schaden enfatizava a importância de ser professor”, conta Tânia. De acordo com Renate, as aulas de Schaden valiam a fama. “Ele dava aulas superinteressantes, fascinava todo mundo pelo jeito de dar aula, a ponto de eu me interessar pela antropologia por causa dele e da professora Gioconda Mussolini”, destaca a professora, referindo-se a outra grande antropóloga da USP.

Se como professor era fascinante, como pessoa era dono de uma personalidade discreta, segundo Borges Pereira. “Era uma pessoa tímida, mas que ao mesmo tempo gostava muito de uma conversa agradável, informal.” Segundo Renate, “ele era uma pessoa muito afável, muito generosa, muito cuidadosa”.

A capa do DVD a ser lançado no evento – Foto: Reprodução

Participar de um evento em sua homenagem é especialmente importante para os dois, que foram mais íntimos de Schaden. “Eu me sinto bastante emocionado, porque, além de ter sido meu professor desde o início, era uma pessoa muito próxima de mim. Fomos inclusive à Alemanha juntos”, relata Borges Pereira. “Mestres como ele não se fizeram mais. Ele é da dimensão de Antonio Candido e Florestan Fernandes”, relata Renate.

O evento Egon Schaden na Antropologia do Brasil e Alemanha acontece nesta sexta-feira, dia 13 de julho, às 15 horas, na sala 8 da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas no site do evento.

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