Os 70 anos do Grupo Teatral Politécnico: uma história de resistência artística e política

O GTP, como é conhecido, foi homenageado em reportagem publicada pelos alunos de Jornalismo da ECA-USP na revista eletrônica “Babel”

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Espetáculo Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare, que lotou a sala do GTP – Foto: Acervo Allan Almeida

Por surpreendente que possa parecer, o Grupo Teatral Politécnico – o GTP – formado por alunos da Escola Politécnica da USP completa 70 anos neste 2020. À primeira vista, em um ambiente acadêmico onde predominam disciplinas e pesquisas de base matemática, técnica e científica não haveria espaço para o culto de uma arte milenar de natureza teatral. Ledo engano. Ao longo de suas sete décadas de existência, o GTP sempre foi e é um espaço de formação cultural, artística e, até mesmo, política para alunos da escola. Para uns, tem sido fonte de aprimoramento intelectual; para outros, até de redefinição profissional.

Tudo começou por volta de 1950, como relata artigo publicado na revista Babel, editada por alunos do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA). A criação do teatro foi uma ação para angariar fundos para a “Cadopô”, Casa do Politécnico, residência estudantil que o Grêmio Politécnico planejava construir, e construiu, ao lado da antiga sede da escola na Praça Coronel Fernando Prestes, no velho centro de São Paulo. “Quem teve a ideia foi Coelho Neto, engenheiro que tinha acabado de se formar e era apaixonado por teatro”, relata Pedro Vittorio, estudante de Jornalismo na ECA, integrante do GTP.

Coelho Neto liderou o grupo nos primeiros anos, até 1954. Ele dirigia peças, atuava e ajudava na organização de basicamente tudo. Nessa fase, o GTP ganhou prêmios em alguns festivais. Ao sair, Coelho Neto tentou criar outro grupo de teatro, mas não teve êxito. Por uma dessas ironias da história, ele acabou se tornando censor durante a ditadura militar. “Dizem que nunca censurou nada. As pessoas do meio artístico o procuravam para ter certeza de que suas obras seriam aprovadas tranquilamente”, conta Vittorio.

Cena da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, de Caio Fernando Abreu, apresentada em 2013 – Foto: Acervo Sebastian Kapelius

Após a saída de seu fundador, a atuação do grupo teve a primeira descontinuidade na série de idas e vindas que marcam sua trajetória. “O grupo reaparece no 2º Festival Nacional de Teatro de Estudantes, de 1959”, conta Vittorio. No início dos anos 1960, o GTP conta com a presença do atual senador José Serra, que também viria a ser presidente da União Nacional dos Estudantes e se exilaria depois do golpe militar. “Em 1962 ele não só foi diretor do grupo como também fez o papel principal na peça Vento forte para um papagaio subir, que eles apresentaram na quarta edição daquele mesmo festival.” O conhecido ator Carlos Zara também foi do GTP, tendo se formado em Engenharia Civil.

Nessa época o GTP era bastante ativo e reconhecido no meio universitário, mas com o golpe civil-militar de 1964 os horizontes se estreitaram. O Grêmio Politécnico oscilava entre gestões mais conservadoras e gestões que apoiavam o teatro e outras atividades dos alunos. “Em 1967, pela primeira vez o grupo recebe ajuda financeira do grêmio, o que renova o fôlego que perderam depois do golpe”, diz Vittorio. O grupo volta aos palcos com a peça autoral João a três por quatro.

Luiz Roberto Serrano, atual superintendente de Comunicação Social da USP, participou do GTP entre 1968 e 1970, chegando a diretor do grupo em 1969. Uma atividade costumeira era o bishow, parte da recepção aos calouros todos os anos. Em 1968, depois da invasão e quebra-quebra da peça Roda viva pelo Comando de Caça aos Comunistas, no Teatro Ruth Escobar, os integrantes do GTP foram ajudar na segurança do espetáculo. Ainda em 1968, foi escrita coletivamente a peça A caça, apresentada uma única vez no teatro João Caetano e censurada em seguida.

Os membros do grupo nessa época participaram ativamente da chapa GAL 70 que ganhou a eleição do Grêmio Politécnico em 1969. “Era uma chapa de renovação, de esquerda, com discurso de dinamização das atividades do grêmio”, lembra Serrano, que trocou a Poli pela ECA, onde se formou em Jornalismo. O grupo ganhou as sete eleições seguintes no grêmio.

Em 1974, na encenação de Galileu Galilei, a criatividade do GTP foi bastante aplaudida no meio do teatro universitário. Assim o grupo seguiu até 1975, época de muita tensão política no País, e houve divergências internas. “Tinha uma galera que queria fazer teatro do absurdo, que não é tão politizado, e outro grupo que queria fazer um teatro mais engajado mesmo”, conta Caio Mattos, outro autor do artigo.

De acordo com ele, depois dessa cisão, e em um período confuso, um momento importante foi a chegada do dramaturgo peruano Lino Rojas. “Ele se torna diretor remunerado do GTP. A remuneração ajuda a entender as fases do grupo, pois quando há um diretor pago eles acabam sendo mais ativos”, diz Mattos. O GTP volta a se apresentar em 1977, com O rei da vela, numa temporada que durou até 1978. “Depois disso, muitos integrantes se formaram e o grupo deu uma sumida de novo.”

Os anos 1980 foram de pausa no GTP – mas isso muda em 1989 com a primeira Semana de Arte da Poli, criada por José Alberto Orsi. Nesse evento o grupo encena a peça Eclipse, mas o retorno também é muito breve. Outras tentativas de reavivar o teatro acontecem em 1993, 1996 e 1997, mas não dão certo. A primeira peça a ser apresentada com um GTP já mais consolidado é O fiscal, em 1999. “E o grupo entra nos anos 2000 sendo bem produtivo, mas cai de novo em 2002”, conta Mattos.

Bia Szvat pintando a sala do GTP em 2005 – Foto: Acervo Rodrigo Braga

“Depois de outro recesso, há a volta em 2003, tendo como diretora Bia Szvat, que exerce a função nos oito anos seguintes”, relata Vittorio. Foi um longo período em que o GTP se manteve estável, produzindo bastante. “A Bia criou diferentes núcleos no teatro, que organizavam os atores mais novos e os mais antigos. É também nessa época que o grupo ganha sua própria sala no prédio do Biênio da Poli, onde ensaiam e se apresentam.

Um dos marcos da passagem de Bia foi a viagem de alguns integrantes para a República Tcheca. Foram selecionados para o Festival Apostrof de 2009, realizado em Praga, que reuniu grupos de teatro do mundo inteiro. “Foi algo que marcou muito o pessoal que fez essa viagem. Só que lá eles brigaram feio com a diretora e isso desestruturou todo o grupo”, conta Vittorio. A relação de Bia com os integrantes do GTP foi ficando cada vez mais tensa até que ela saiu no início de 2011.

“Em seguida vem a fase da Neia, que comanda o GTP até hoje”, diz o estudante. Neia Barbosa já havia sido convidada a ajudar em algumas peças, e como diretora oficial levou o teatro para um de seus melhores momentos nesses 70 anos. Alguns espetáculos importantes feitos sob sua direção foram Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, em que os estudantes viajaram para se apresentar na Paraíba, e Sonho de uma noite de verão, em que a sala de apresentações ficou tão cheia que o espaço do palco também diminuiu. “Eles tiveram que adaptar a peça para se apresentar no pequeno quadrado que sobrou.”

O relato completo de Pedro Vittorio, Caio Mattos e Bruno Menezes pode ser acessado aqui. Os três autores já prometem uma segunda edição do texto, com novas entrevistas e informações – fato que alegra quem participou de parte dessa história. “Afinal, um grupo de teatro atuar por 70 anos, com uma interrupção ou outra, dentro de uma escola rigorosa e exigente como a Politécnica da USP é um feito e tanto, que merece ser muito bem contado”, celebra Luiz Roberto Serrano.

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