Livro mostra como navios e trens ajudam na circulação de ideias

Obra investiga relação entre ciência, literatura de viagem e ideias raciais na era das abolições

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=196653
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Para a autora, não foi por acaso que o surgimento dos vapores como meios de transporte de massa coincidiu com o aparecimento dos movimentos abolicionistas nas Américas – Foto: Detroit Publishing Company via Wikimedia Commons – Domínio Público

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Em Raça, Ciência e Viagem no Século XIX, a professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Maria Helena Machado realiza uma viagem polissêmica. A partir do surgimento e expansão dos meios de transporte de massa – a locomotiva e o navio a vapor -, a historiadora desenha o itinerário da circulação de novas ideias na era das abolições.

“Embora o interesse desta pesquisa seja pela história da construção de uma primeira infraestrutura de transportes de massa no Brasil, a ambição principal do trabalho reside na recuperação dos processos sociais que sustentaram a elaboração de novas formas de ver o mundo, que passava a deslocar-se na velocidade do vapor e que, em conexão com as possibilidades de deslocamento, enfrentava o desafio de repensar a própria distribuição geográfica, populacional e política das populações subalternas”, escreve Maria Helena na introdução à obra.

O livro é uma versão de sua tese de livre-docência, defendida no Departamento de História da FFLCH em 2005. Sua gestação, contudo, começou ainda nos anos 1990 e passou por diversos desdobramentos, conforme a própria autora indica. “Após vários anos derivando para temas aparentados, porém díspares, percebi que eu havia encontrado o elo que conectava a variedade de temas e abordagens em que eu vinha investindo minhas energias”, escreve. “E esta era, certamente, o da conexão transnacional entre os temas da raça e da ciência na era das abolições no mundo atlântico.”

Para a pesquisadora, o vapor aparece como metáfora dos diversos deslocamentos proporcionados pela era do movimento rápido surgida no século 19. “A imagem de um mundo movido por um trem de ideias conectadas, cujos tendões deslizam por sobre os oceanos e rios, viajando nos vapores, se fazendo transportar em locomotivas, inspira este trabalho.” Segundo Maria Helena, não foi por acaso que a inauguração dos trens e dos vapores como transportes de massa coincidiu com o surgimento dos movimentos abolicionistas nas Américas e com a emergência dos desafios de se pensar novos paradigmas para as relações sociais para o período pós-emancipação que surgia.

Foto: Divulgação / Editora Intermeios (Clique na imagem para ampliar)

Três pontos de partida guiam o volume. A primeira parte é dedicada à expedição Thayer, que percorreu o Brasil entre 1865 e 1866, liderada pelo cientista de origem suíça Louis Agassiz, nome de destaque na ciência naturalista estadunidense. Já a segunda seção destaca o pensamento e os projetos nacionais dos intelectuais e dos burocratas do segundo reinado, esticando as considerações para diários escritos por viajantes. As teorias sobre a origem do homem americano e a construção de uma identidade e uma história nacional no Brasil norteiam a terceira parte do livro.

De acordo com Maria Helena, a obra se filia a uma abordagem da história social e da cultura, comprometida com o estabelecimento da historicidade e a pluralidade dos eventos sociais. “Embora o trabalho se volte para a análise de sistemas de pensamento e ideias, ele se orienta para a busca dos significados sociais destes, não no mundo abstraído das análises formais, mas na multiplicidade, muitas vezes desorientadora, de suas mutáveis manifestações”, escreve a autora.

O livro é um lançamento da Editora Intermeios, parte da Coleção Entr(H)istória, parceria da editora com o Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHS) da FFLCH.

Raça, ciência e viagem no século XIX, de Maria Helena Machado, Editora Intermeios, 174 páginas, R$ 40,00.

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