Livros e leitura cênica lembram a Batalha da Maria Antonia

Atividades fazem parte do evento “Ecos de 1968 – 50 Anos Depois”, promovido pela USP

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Rojões e coquetéis molotov foram usados pelos estudantes durante o confronto – Foto: Iconographia

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Nesta quarta-feira, 3 de outubro, o Centro Universitário Maria Antonia (Ceuma) da USP dá continuidade à programação Ecos de 1968 – 50 Anos Depois. Exibição de filme, lançamento de livros, debates e leitura cênica vão relembrar o confronto conhecido como a Batalha da Maria Antonia, ocorrido em 2 de outubro.

Corria 1968. A longa noite que tomaria conta do Brasil ainda descia suas primeiras sombras, preparando-se para estourar a hora mais escura sobre o País. O presidente general Costa e Silva engravidava o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que seria parido em 13 de dezembro, um macabro e distorcido natal nos trópicos, presenteado com cassação de direitos políticos, censura, prisões, torturas e mortes. Nesse palco, trabalhadores, artistas e intelectuais se mobilizavam pela defesa das liberdades democráticas, às vésperas da mordaça que estrangularia até o cale-se.

A Universidade de São Paulo era diferente do que temos hoje. Fundada em 1934 agrupando instituições de ensino superior tradicionais como a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Direito, a USP de 1968 tinha como um de seus principais centros nervosos a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), cravada no centro da capital paulista, na Rua Maria Antonia, na Vila Buarque.

Reunindo uma miríade de cursos e fervendo cultura e política, a FFCL não passaria pelo ano que não terminou sem gravar sua estrela na constelação de eventos da ditadura militar. Em 2 de outubro, estudantes da instituição entraram em confronto com estudantes da Universidade Mackenzie (sediada do outro lado da Maria Antonia), o famigerado Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e a Polícia Militar. O resultado do conflito foi a invasão e depredação do prédio da FFCL, a morte do estudante secundarista José Carlos Guimarães, dezenas de feridos e um excelente pretexto para o AI-5.

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Concentração em frente a FFCL, na Rua Maria Antonia, durante confronto entre estudantes da USP e do Mackenzie - Foto: Hiroto Yoshioka
Fachada da FFCL destruída após confronto - Foto: Hiroto Yoshioka
Assembleia dos Estudantes da USP em 1968 - Foto: Iconographia
Fachada da FFCL destruída após confronto - Foto: Hiroto Yoshioka

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Palavras para relembrar

A programação do dia 3 começa às 16 horas, com a exibição do documentário A Batalha da Maria Antonia, de Renato Tapajós. Com depoimentos e imagens de arquivo, o filme reconstitui os acontecimentos e o clima político ao redor do conflito.

A partir das 19 horas, ocorre o lançamento das novas edições dos livros Os Acontecimentos da Rua Maria Antonia e Maria Antonia: Uma Rua na Contramão. As obras estão sendo reeditadas pela FFLCH. Organizado pela professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP Maria Cecília Loschiavo, Uma Rua na Contramão reúne depoimentos de 31 personalidades que passaram pela FFCL entre 1948 e 1968.

Para falar do livro estarão presentes os professores Adelia Bezerra de Menezes, Franklin Leopoldo e Silva, José Arthur Giannotti e Marilena Chauí. Maria Cecília atua como mediadora do debate.

Conhecido também como Livro Branco, Os Acontecimentos da Rua Maria Antonia se concentra na batalha que ganhou a rua e tomou o prédio da FFCL entre os dias 2 e 3 de outubro. A obra, na verdade, é o relatório feito por uma comissão formada pelos professores Antonio Candido, Carlos Alberto Barbosa Dantas, Carlos Benjamin de Lyra, Eunice Durham, Ruth Cardoso e Simão Mathias com o objetivo de apurar os fatos. A reedição surge ampliada, com organização de Abílio Tavares e  Irene Cardoso. Para falar sobre a obra, Barbosa Dantas se junta à professora Irene Cardoso. A mediação será do professor André Singer.

Teatro da USP

Encerrando a noite, a cantora Juçara Marçal e estudantes do curso de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP realizam a leitura cênica de Os Fuzis da Senhora Carrar, texto de Bertolt Brecht que versa sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). A produção é do Teatro da USP (Tusp), com direção da professora Maria Thais Lima Santos.

“A história do Tusp começa no início dos anos 1960 e Os Fuzis da Senhora Carrar é uma montagem emblemática dessa primeira década de existência do Teatro da Universidade de São Paulo”, comenta Maria Thais. “Um espetáculo realizado com jovens, com estudantes, que encontra uma encenação e uma escritura cênica em diálogo com todas as tensões políticas e comportamentais e se torna emblemática não só de uma maneira de atuar do Tusp, mas também daquele momento no Brasil, quando a crítica o coloca como um dos espetáculos mais relevantes.”

Segundo a diretora, a montagem é uma homenagem a Flávio Império, diretor artístico do Tusp de 1967 a 1969. Império foi responsável pela direção do texto de Brecht, que levou o Tusp a excursionar pelo Brasil e se apresentar no Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em 1969.

Em cena, no Tusp, Os Fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht – Foto: Victor Knoll / Acervo Sociedade Cultural Flávio Império

“É uma tentativa de revisitar a maneira como o Flávio Império abordou, as aberturas que ele fez no texto”, explica Maria Thais. “São muitos aspectos que o texto abriu como possibilidade, há 50 anos, e é a partir dessa pista que estamos preparando a leitura.”

A primeira fase do Tusp terminaria precocemente em 1969, com a decretação do AI-5 e o endurecimento do regime. O grupo só seria rearticulado em 1976, sob direção do professor Décio de Almeida Prado.

“O Flávio anuncia esse recrudescimento, inclusive dentro da sua encenação, dialogando com uma guerra que tinha um sentido bastante simbólico para o movimento de esquerda”, conta a diretora. “A Guerra Civil Espanhola foi uma esperança nos anos 1930 e foi destruída por uma conjunção de forças fascistas. É uma circunstância política extremamente complexa e talvez ainda diga um pouco de tudo que a gente vive hoje. Nós estamos vivendo, de novo, sob um regime de exceção.”

Ecos de 1968 – 50 Anos Depois é organizado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, em parceria com o Tusp, o Cinusp Paulo Emílio, o Coral da USP (Coralusp) e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A programação segue até o dia 5 de outubro e todas as atividades são gratuitas e abertas ao público. O Ceuma fica na Rua Maria Antonia 294, na Vila Buarque.

Mais informações podem ser obtidas em www.prceu.usp.br ou através do e-mail procin@usp.br.

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Batalha da Maria Antonia é tema de entrevista

Pró-reitora adjunta Margarida Maria Krohling Kunsch – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Ouça no link abaixo entrevista da professora Margarida Maria Krohling Kunsch, pró-reitora adjunta de Cultura e Extensão Universitária, e do jornalista Luiz Roberto Serrano, superintendente de Comunicação Social da USP, sobre o evento Ecos de 1968 – 50 Anos Depois, a ser realizado de 2 a 5 de outubro no Centro Universitário Maria Antonia (Ceuma) da USP. A entrevista foi concedida à radialista Roxane Ré no programa Jornal da USP no Ar, transmitido no dia 1º de outubro pela Rádio USP (93,7 MHz).

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Livro aborda violações na Universidade durante o regime militar

Leia a íntegra da apresentação do livro O Controle Ideológico na USP (1964-1978) – que trata das violações sofridas por professores da Universidade durante a ditadura militar -, escrita pelo reitor da USP, professor Vahan Agopyan.

 

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