Livro indicado pela Fuvest, “Claro Enigma” dialoga com Dante e Camões

Para Viviana Bosi, obra é “possivelmente o mais importante livro de poesia da língua portuguesa do século 20”

Por - Editorias: Cultura
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Drummond, em Claro Enigma, se torna mais introspectivo, melancólico e filosófico, naquele momento de crise política e existencial após a Segunda Guerra Mundial e sob o impacto da Guerra Fria e a ameaça da bomba atômica – Foto: Reprodução/Youtube

Em 1951, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publica Claro Enigma. Em seu sétimo livro de poesia, apresenta 41 poemas escritos entre o final dos anos 40 e o início dos 50. Sob o impacto da Guerra Fria e a ameaça da bomba atômica, o poeta engajado de Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945) abre espaço para um Drummond mais introspectivo, melancólico e filosófico. A esperança na união dos homens dá lugar ao desencanto e, em vez de propor transformações, o poeta elabora perguntas a partir do absurdo do mundo e do vazio da vida.

Viviana Bosi – Foto: Arquivo pessoal

“Os temas que ele aborda nesse livro são muito variados”, comenta a professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Viviana Bosi. “Percebe-se um fôlego para assuntos amplos”, continua, “como a pergunta pelo sentido da existência, o amor no tempo de madureza, a passagem do tempo conjugada à dissolução da vida, o enfrentamento da dor de viver, a rememoração dos mortos da família junto às lembranças do passado, o convívio aprofundado com sua própria região, Minas Gerais. É como se estivesse entranhado nele, cada vez mais, um tempo maior, que o poeta perscruta, tenta desvendar.”

De acordo com Viviana, esse mergulho em si mesmo já é anunciado por Drummond desde a abertura de Claro Enigma. “Quando o poeta diz, na epígrafe retirada ao francês Paul Valéry”, explica a professora, “que os acontecimentos o entediam, ou aborrecem, naquele momento de crise política e existencial após a Segunda Guerra Mundial, é como se ele estivesse se afastando da superfície factual da história para adentrar em camadas mais profundas, que também são (ainda mais) históricas, mas de longa duração, tanto do ponto de vista da construção formal quanto temática.”

Esse mergulho em si mesmo já é anunciado “na epígrafe ao francês Paul Valéry” – Foto: Reprodução / Claro Enigma

É essa noção ampliada da história que leva o poeta até Dante Alighieri (1265-1321), Luís de Camões (1524-1580) e ao poema clássico. Em Claro Enigma, vemos Drummond resgatar o verso rimado e as formas fixas, como o soneto. Contudo, para Viviana, isso não significa um retrocesso em relação ao Modernismo. “Não se pode afirmar que o poeta tenha se tornado menos moderno, reclassicizado apenas, como disseram alguns críticos.”

Para desmentir esse tipo de veredito, a professora cita Tarde de Maio, que continua a “botar prosa” no poema, ao mesmo tempo em que traz vocabulário e assunto de seriedade intensa. “As referências mitológicas, como em Oficina Irritada e Rapto”, prossegue na explicação, na verdade têm relação com um ‘sentimento de mundo’ bastante contemporâneo.”

“As referências mitológicas, como em Oficina Irritada e Rapto têm relação com um ‘sentimento de mundo’ bastante contemporâneo” – Foto: Reprodução / Claro Enigma

Segundo Viviana, o vestibulando pode observar o trabalho cuidadoso com a linguagem de Claro Enigma em relação a dois outros autores exigidos pela Fuvest: Guimarães Rosa (Sagarana) e Graciliano Ramos (Vidas Secas). “Ainda que cada um deles seja tão diferente entre si”, explica, “existe uma preocupação diferente dos modernistas em todos eles, tanto em relação à recuperação das tradições da língua quanto em relação a um aprofundamento dos temas.” Já a ironia que Drummond imprime em alguns poemas, destaca, pode ser um tanto machadiana (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Versões de capas de Claro Enigma: “Este é possivelmente o mais importante livro de poesia da língua portuguesa do século 20” – Foto: Divulgação

Outra sugestão da professora é ler mais de uma vez os poemas do livro, buscando a reflexão sobre seus possíveis sentidos e a apropriação de suas imagens, ritmos e sonoridades. “O vestibulando pode começar por notar que o livro é dividido em seis sessões e tentar auscultar o sentido dessa divisão: haveria certa repartição quanto a temas para cada uma dessas sessões?”

Drummond de Andrade – Foto: Reprodução/ASHBF

Viviana também indica ir além de Claro Enigma e conhecer de maneira mais abrangente a trajetória do poeta. “Para que ele perceba a peculiaridade deste livro, que não é isolado em relação ao que veio antes nem ao que veio depois, o vestibulando precisaria ter alguma intimidade com a obra de Drummond como um todo.” Ela também não descarta a busca por estudos críticos da obra, para auxiliar sua compreensão.

Claro Enigma é um livro especialmente complexo e ambicioso”, sintetiza Viviana. “Nele, Drummond renova formas poéticas de longa tradição, dialogando com grandes líricos, como Dante Alighieri e Camões, experimentando de modo maduro e pessoal as chamadas formas fixas.” E finaliza: “Esse é possivelmente o mais importante livro de poesia da língua portuguesa do século 20.”

Conheça as outras obras exigidas na Fuvest 2018

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