Livro de entrevistas lembra os primeiros anos da USP

Obra traz depoimentos de Paul Bastide, Antonio Candido, Florestan Fernandes e Mário Schenberg, entre outros

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Rampas do prédio dos Departamentos de História e de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo – Foto: Marcos Santos
O livro da Editora da USP – Foto: Divulgação

Em 1934, foi criada pelo governo do Estado de São Paulo a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), que passaria a oferecer cursos superiores ligados às mais diferentes áreas, desde filosofia, sociologia e letras até biologia, física, química e matemática. Associada a outras instituições de ensino superior já existentes – como a Faculdade de Direito, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina -, ela formou a Universidade de São Paulo (USP). De acordo com o plano concebido pelos criadores da Universidade – entre eles o jornalista Júlio de Mesquita Filho, diretor do jornal O Estado de S. Paulo, e o educador Fernando de Azevedo -, os professores da nova instituição deveriam ser contratados na Europa. Por isso, o professor Teodoro Augusto Ramos (1895-1935), um matemático da Escola Politécnica, viajou para Roma, na Itália, a fim de contatar docentes que estivessem dispostos a lecionar no Brasil. Teve início então um movimento que, ao longo das primeiras décadas de existência da USP, trouxe para o País cerca de 100 professores da França, Itália e Alemanha – e em menor número de Portugal, Espanha e Inglaterra.

Essa história é contada em detalhes nas entrevistas publicadas no livro Sobre os Primórdios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, organizado por Walnice Nogueira Galvão, Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, nome que, com a reforma universitária de 1969, passou a designar a antiga FFCL. Lançado pela Editora da USP (Edusp), o livro traz depoimentos de oito pessoas que, como professores ou alunos, viveram os primeiros anos da FFCL – Paul Arbousse-Bastide, Mário Schenberg, Candido Silva Dias, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Ruy Coelho, Gilda de Mello e Souza e Fernando Henrique Cardoso -, além de uma conferência do escritor francês Michel Butor (1926-2016), proferida na USP em 1984, por ocasião das comemorações pelos 50 anos da Universidade. Originalmente, esses depoimentos foram publicados em 1984 na revista Língua e Literatura, da FFLCH. Mais de 35 anos depois, eles surgem reunidos pela primeira vez em livro.

O professor Teodoro Ramos – Foto: Wikimedia Commons

Entre as entrevistas publicadas no volume, o depoimento de Paul Arbousse-Bastide (1899-1985) é o que remonta às mais remotas origens da USP. Recém-formado pela Sorbonne, ele recebeu um telegrama do professor francês Georges Dumas – que havia sido contatado por Teodoro Ramos em Roma -, chamando-o para viajar ao Brasil dali a dois ou três meses. “Consultei minha senhora. Viajei. Assim que cheguei ao Brasil, perguntei: do que se trata? Trata-se de implantar uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Eu deveria ficar aqui por três anos.”

Bastide dá uma boa noção do tipo de instituição que se buscava: “A ideia era fazer uma universidade com grande intercâmbio interdisciplinar, com uma boa base filosófica, sem nenhum dogmatismo, deixando a possibilidade de cada professor expressar sua atitude pessoal, para exercer, praticar um espírito crítico esclarecido”.

Armando de Salles Oliveira – Foto: Reprodução

O professor comenta também a situação política que levou à fundação da faculdade. Pouco tempo antes, São Paulo havia sido derrotado pelas tropas federais na Revolução Constitucionalista de 1932, movimento militar de oposição ao governo do presidente Getúlio Vargas. Mas, após o conflito, o interventor de São Paulo (cargo similar ao de governador hoje), indicado por Vargas, foi Armando de Salles Oliveira (1887-1945), justamente um dos líderes do Partido Constitucionalista que havia promovido a revolução contra o governo federal. “Foi um gesto que denota a inteligência política de Getúlio Vargas”, elogia Bastide, atribuindo a decisão do presidente a uma manobra para evitar a retomada da luta pelos paulistas.

Salles Oliveira era obrigado a seguir as ordens do poder central, principalmente no que se referia ao orçamento do Estado, reconhece Bastide. Entretanto, na área da educação, ele podia executar projetos próprios. “Durante dois anos teve a liberdade de iniciar qualquer coisa do ponto de vista da educação: ‘Vamos aproveitar essa oportunidade para fazer uma universidade, vamos aproveitar essa margem pequenina. Aproveitar um momento único'”, relembrou. “Foi uma oportunidade fantástica.”

O professor Florestan Fernandes – Foto: Arquivo de família

Os critérios para a escolha dos primeiros professores da FFCL são destacados, no livro da Edusp, pelo matemático Candido Silva Dias (1913-1998), que ingressou no curso de Matemática daquela faculdade em 1934. Ele lembrou que, para as disciplinas da área de humanas, foram contratados basicamente docentes franceses, sob a orientação de George Dumas. Entre eles vieram para a USP então jovens professores que, mais tarde, se tornariam referências em suas especialidades, como o filósofo Jean Maugüé (1904-1990), o historiador Fernand Braudel (1902-1985) – um dos fundadores da École des Annales -, o geógrafo Pierre Monbeig (1908-1987) e o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009). “Então esse era o critério, quer dizer, era a penetração, a agudeza de antecipar pessoas que, na realidade, não tinham ainda um currículo efetivo, mas que eram promissoras. E promissoras na opinião de George Dumas, que por sinal era psicólogo, conhecido autor de um imenso tratado de psicologia”, explicou Candido Dias.

O professor Mário Schenberg – Foto: Wikimedia Commons

Já para os cursos da área de exatas, Teodoro Ramos recorreu a professores da Itália. “Tenho a impressão de que aí influíram as autoridades universitárias italianas, e a escolha foi igualmente notável”, afirmou Dias. Diferentemente do que ocorreu com os franceses, os italianos já eram nomes consagrados na ciência quando foram contratados pela USP, como o matemático Luigi Fantappiè (1901-1956) e o físico Gleb Wataghin (1899-1986). “Então o critério foi diferente e funcionou.”

Em química e biologia, o critério para a escolha dos docentes foi definido – ou imposto – pelas circunstâncias. Instituído na Alemanha em 1933, o regime nazista já começava a pressionar intelectuais judeus. Daquele país vieram para a FFCL os químicos Heinrich Rheinboldt (1891-1955) e Heinrich Hauptmann (1905-1960), o botânico Felix Rawitscher (1890-1957) e o fisiologista Ernst Marcus (1893-1968). “Todos homens notáveis”, surpreende-se Candido Dias. “Então, pode-se dizer a respeito de Teodoro Ramos: missão cumprida.”

Embora vindos do centro da cultura ocidental – a Europa -, os professores que formaram o primeiro corpo docente da FFCL não tinham uma atitude colonialista em relação a seus alunos. Isso é confirmado pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) na entrevista publicada no livro da Edusp. Aluno do curso de Ciências Sociais da FFCL entre 1941 e 1943, Florestan afirma que é errado entender aqueles docentes como agentes de uma colonização cultural. “Nunca encontrei, em nenhum deles, a concepção missionária do colonialista”, disse Florestan. “Eles não se viam assim.”

O físico Mário Schenberg (1914-1990) – que ingressou na FFCL no ano da sua fundação, 1934 – tem o mesmo parecer. “Eu não acho que tenha acontecido isso, não”, disse Schenberg, em entrevista também publicada no livro. “Não havia essa ideia de um colonialismo cultural.”

O casal Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido – Foto: Reprodução

Também rejeitando essa ideia, o crítico literário Antonio Candido (1918-2017) explica por que não houve “colonialismo cultural” nas origens da FFCL. “A presença dos mestres estrangeiros ocorreu num momento em que o Brasil já havia amadurecido a visão de si mesmo e criado um equipamento cultural que, embora modesto, era capaz de receber influências sem se desfigurar”, destacou Candido. “Ao contrário dos jesuítas no período colonial e diferente da Missão Artística Francesa no começo do século 19, os professores contratados pela Universidade de São Paulo não plantaram no deserto ou em terra quase inculta, mas se ajustaram a um meio capaz de absorver a sua contribuição com liberdade, e não sofrê-la como imposição. Tanto assim que houve uma ponderável contracorrente, com o Brasil influindo sobre o temário, a sensibilidade e a visão do mundo dos nossos mestres europeus.”

Para Candido, a presença estrangeira não foi alienante, mas “instauradora”, uma vez que induziu os jovens estudantes da FFCL a iniciativas inovadoras em vários campos do saber. “Não espanta que a nossa faculdade, na sua estrutura gloriosamente complexa dos anos que vão de 1934 a 1969, tenha sido ponto de referência tão importante para toda a universidade brasileira”, acrescentou. “Ela foi, sem dúvida, um acontecimento fundamental na história da cultura do País.”

Sobre os Primórdios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, de Walnice Nogueira Galvão (organizadora), Edusp, 160 páginas, R$ 38,00

 

 

 

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