Angústias, insegurança e resistência nas salas de aula da USP

Professores lembram suas atividades e o clima tenso na Universidade em 1968

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A Cidade Universitária, em São Paulo, em 1968 – Foto: Agência Estado

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Muitas das questões acadêmicas que eram debatidas pelas universidades Brasil afora – como a reforma universitária – ganharam um importante eco na USP. Mas não só isso. A Universidade sofreu com lutas internas. Alas ideológicas distintas entraram em um embate que acabou por levar muitos docentes das mais variadas áreas do conhecimento à indigna aposentadoria compulsória, devido ao AI-5, e a buscar espaço acadêmico fora do Brasil. Mesmo aqueles que não foram afastados passaram a viver em constante estado de alerta e de insegurança.

Abaixo, seis professores que estavam na Universidade de São Paulo em 1968 relembram o clima, as angústias e os atos de resistência naquele período. Os depoimentos foram dados ao repórter Vinícius Crevilari.

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Foto: Leo Ramos Chaves

João Antônio Zuffo,  professor titular da Escola Politécnica.
Fazia doutorado em Engenharia Elétrica e era professor instrutor da Poli em 1968

Eu acho que foi o AI-5 que apertou muito a situação política na USP. Antes, a Universidade já tinha um clima politicamente agitado, mas não tinha uma oposição tão forte como ficou depois do AI-5. A oposição se organizou melhor. Não havia um clima de medo, mas o clima era de “tomar cuidado”. Nessa época, aqui no Departamento de Sistemas Eletrônicos, apareceram os, digamos, “ditadores de quintal”, um pessoal muito prepotente. Mas no departamento não houve delações. Como o diretor segurava muito a intervenção aqui na Escola Politécnica e tinha um convênio com a Marinha, a Poli não sofreu muita intervenção.

Havia, ainda, as discussões curriculares. A discussão era se queríamos formar engenheiros para o mercado ou engenheiros para o futuro. E muitos eram da linha de formar engenheiros para o futuro. Porque a universidade pública não tinha a função de formar engenheiros para o mercado. Nossa função era formar engenheiros que modificassem o País para o futuro. E tinha uma certa disputa. Tinha gente que queria mudar o currículo para atender ao mercado. Não acho que seja essa a função da universidade pública. A universidade deve, sim, olhar para o futuro do País e ver as possibilidades para um desenvolvimento futuro.

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Foto: Francisco Emolo/USP Imagens

Isaías  Raw, médico e ex-diretor do Instituto Butantan.
Era catedrático de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina em 1968

Em 1968, fiz o concurso para professor catedrático e não apareceu ninguém à altura para competir comigo. Então eu fiz o concurso sozinho, ganhei a cátedra. O problema é que eu era um sujeito inconveniente porque nunca aceitei o status quo de nada. Então chegou-se à conclusão de que a única forma de resolver isso era me aposentando. Fui aposentado em 1969 e aí saí do País, porque eu estava proibido de fazer qualquer coisa no Brasil que envolvesse dinheiro público. Fui para Israel a convite da Unesco. Passei um ano lá e depois fui para os Estados Unidos realizar pesquisas em universidades.

Obviamente, a questão de aposentar os professores era um problema da ditadura, mas os militares foram usados para que a Universidade pudesse perseguir e se livrar daqueles que ela considerava inconvenientes.

Na Faculdade de Medicina, por exemplo, havia, além de mim, os professores Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Luiz Rey. Havia uma lista de gente que eles não aceitavam. Então, esse processo não era de perseguição a comunistas. Não era um processo político, era uma ação de grupos da própria Universidade de São Paulo. Creio que a Universidade teve uma grande culpa no cartório nesse processo.

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Foto: Cecilia Bastos/USP Imagens

José Arthur Giannotti, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).
Era livre-docente e professor da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) em 1968

Quando veio o AI-5, em dezembro de 1968, comentávamos que era inevitável nossa cassação. Porque muitos de nós éramos considerados figuras de esquerda. Em segundo lugar, nós sabíamos que a Universidade de São Paulo não foi apenas violada pela ditadura. Ela colaborou intensamente com o regime.

Nós sabíamos que havia na Universidade uma comissão para fazer a lista dos professores que seriam cassados. E essa lista foi feita por orientação do professor Theodureto Souto, da Escola Politécnica. Houve muita denúncia entre os professores. Era uma briga interna na Universidade.

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Francisco Weffort, Professor Emérito da FFLCH.
Era professor de História das Ideias Políticas na antiga FFCL em 1968

O clima de insegurança nessa época foi crescendo enormemente. Dar aula era uma atividade heroica. Não havia mais condições para aula – 1968 foi um ano de extrema insegurança. Eu dava aula de Teoria Política, mais precisamente de História das Ideias Políticas. Era para o curso de graduação em Ciências Sociais.

Na verdade, muitos professores participaram da resistência à ditadura. A situação era muito complicada, muito confusa e só dar aula já era um ato de resistência.  Mas havia situações constrangedoras, como ser observado por alguém de fora durante as aulas. As portas das salas de aula tinham uma janelinha, que era para o diretor ou o aluno verificar quem era o professor que estava ministrando a aula. Era uma coisa de uso escolar. Pois bem, você via uma cara olhando pela janelinha que não era nem de aluno nem de professor.

Em outubro de 1968 eu já estava na Inglaterra.

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Foto: Francisco Emolo/USP Imagens

Silvio Roberto de Azevedo Salinas, professor titular aposentado do Instituto de Física.
Era professor contratado da cadeira de Física da Escola Politécnica em 1968

Esse foi um período muito ativo politicamente. Aqui na Universidade era período da tentativa de reforma universitária e havia as comissões paritárias. Vamos lá, era um “sonho de uma noite de verão”, mas era muito ativo.

Nós éramos contra a cátedra. Os militares vieram, acabaram com a cátedra rapidamente, mas por interesses distintos daqueles dos estudantes e das próprias comissões paritárias. Quem acabou com a cátedra no Brasil, por incrível que pareça, foram os militares.

Eu atuei politicamente como sempre atuei, tínhamos um grupo político de movimentação. Mas com muito cuidado. Essa era uma época em que você tinha que tomar um cuidado extraordinário.

E escapei da cassação por várias razões: primeiro, porque eu tinha acabado de ser contratado na Escola Politécnica. E eu era um auxiliar de ensino, que dava um certo prestígio na carreira. Aí se esqueceram de mim.

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Foto: Bel Pedrosa

Walnice Nogueira Galvão, Professora Emérita da FFLCH.
Era professora de Teoria Literária na antiga FFCL em 1968

Participei de tudo naquela época. Participei das assembleias, das passeatas, dos atos públicos. Participei de tudo!

Nosso tema principal era a discussão da reforma universitária. A gente tinha reuniões nas quais eram tiradas resoluções e se discutiam os assuntos da comissão paritária que foi eleita. Comissão paritária que tinha o mesmo número de professores, alunos e funcionários. Era uma concepção muito igualitária e democrática do que deveria ser a Universidade de São Paulo, e a reforma foi pensada nesse sentido. Mas a reforma como desejávamos acabou indo para o brejo, não é?

Nós trabalhamos durante anos para fazer uma reforma universitária democrática, que melhorasse a Universidade, e ela não foi aplicada. A ditadura acabou outorgando uma outra reforma para nós em 1969, mas que não era a nossa. Era uma reforma que vinha de cima para baixo, nada democrática.

Além do mais, havia espiões dentro das salas de aula, como houve durante toda a ditadura. Agentes do Dops e do Exército eram infiltrados nas salas de aula, para controlar o que se dizia e o que se discutia. Eu, por exemplo, tinha um capitão do Exército na sala de aula.

E ainda tivemos o AI-5 e o afastamento de muitos professores. Aquilo foi péssimo, porque gente muito boa foi eliminada da Universidade. E esses professores eram muito importantes para manter o nível acadêmico. Sem a menor dúvida foi um golpe terrível para a Universidade. Foi um golpe científico, uma perda científica muito grande.

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