A arquitetura, a técnica e a arte de Ruy Ohtake estão pela cidade  

O ideal de uma São Paulo contemporânea continua entre os futuros arquitetos. Na FAU-USP, as lições do ex-aluno, que morreu no ultimo dia 27, aos 83 anos, agitam as salas de aula

 03/12/2021 - Publicado há 1 ano  Atualizado: 10/12/2021 as 23:12
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Arquiteto Ruy Ohtake - Foto: Paulo Pampolin/Hype

Diagramação por Lívia Magalhães/Jornal da USP

A arte no ensino da arquitetura da FAU-USP tem a referência de um ex-aluno: Ruy Ohtake. O estudante paulistano que, desde o antigo ginásio, gostava de caminhar, observar os espaços, quis ser arquiteto sonhando com uma cidade diferente. Com novas formas. Novas cores…

“A arquitetura é arte. E das mais difíceis porque está presente no espaço urbano, envolvendo atividades humanas”, disse Ohtake em entrevista ao Jornal da USP em julho de 2016. O estudante foi travando o desafio de mudar a paisagem. “A FAU me ensinou a pensar a cidade. As articulações e as pontuações, a evolução da praça e os diversos espaços urbanos”, contou. “Quando estava no primeiro ano, houve o concurso para o Plano Piloto de Brasília. Inflamadas discussões no saguão, no bar, nas salas. Quase unanimidade: Lúcio Costa.”

Ohtake lembrou o clima efervescente da época. “Nascia a dramaturgia brasileira com o Teatro de Arena e o Oficina. Cresciam a bossa-nova e o cinema novo. João Gilberto e Nelson Pereira dos Santos. Tom Jobim e Glauber Rocha… Época efervescente. Estava já no quinto ano, quando Brasília estava sendo inaugurada. E a arquitetura brasileira começou a ter um novo rumo com Oscar Niemeyer.”

Hoje, a voz de Ruy Ohtake, sempre alegre, reflexiva e no ritmo de quem está no caminhar da cidade, ecoa. O arquiteto, aos 83 anos, faleceu no último dia 27 de novembro, vítima de um câncer raro na medula, mielodisplasia. Mas no cotidiano do Expresso Tiradentes, no desenho arrojado do Hotel Unique, nas linhas curvas do Instituto Tomie Ohtake, na paisagem do Parque Ecológico Tietê ou nos prédios conhecidos como “redondinhos” que idealizou para a comunidade Heliópolis, ou ainda atravessando o oceano para projetar a Embaixada do Brasil em Tóquio, o mestre continua ensinando a arquitetura por uma cidade mais humana.

“Ele inventou a técnica, a tecnologia para expressar a poética das curvas. Conseguiu conciliar arte e arquitetura.”

Nas disciplinas Linguagem Visual Ambiental e Projeto Visual Ambiental, na FAU-USP, o professor Takashi Fukushima destaca que arquitetura e arte se completam. E o exemplo é Ruy Ohtake. “Ele inventou a técnica, a tecnologia para expressar a poética das curvas. Conseguiu conciliar arte e arquitetura.”

Edifício Maison de Mouette, em São Paulo, exibe as características curvas de Ruy Ohtake - Foto: Reprodução

O arquiteto é filho de Tomie Ohtake. E o professor, também artista, é filho do pintor Tikashi Fukushima. Ambos cresceram em um ambiente habitado por desenhos, tintas, telas, cores. Tomie e Tikashi, representantes do abstracionismo brasileiro, cultivavam uma boa amizade. E, entre as conversas, desenharam e deixaram entre os filhos nuances de tinta que acabaram colorindo o seu futuro. “Talvez o ambiente familiar com discussões sobre artes tenha me despertado para a arquitetura”, admitiu Ruy (em uma das conversas que fez questão de publicar no livro Ruy Ohtake, da Portifólio Brasil). E Takashi concorda e lamenta não ter compartilhado a infância com o amigo. “Ele já estava adolescendo e eu aprendendo a falar. Depois, entrei na FAU e ele tinha saído dez anos antes. Mas nos víamos em exposições. E tenho certeza que tanto Tomie como o meu pai disseminaram o vírus da arte/arquitetura. Ou  arquitetura/arte.”

Prédios em Heliópolis projetados por Ruy Ohtake - Foto: Gilberto Marques

Takashi acompanhou os projetos de Ruy com o olhar de artista. E Ruy observava gravuras e telas de Takashi, Tikashi e da mãe. “Porém, com o olhar tridimensional da arquitetura”, assinala o professor. “Graças a ele, as obras de Tomie ganharam uma nova dinâmica no espaço público. É incrível a poética das curvas de Tomie serem ressaltadas na escultura de frente para o mar, em Santos. É um monumento em homenagem aos 100 anos da Imigração Japonesa.”

“Sua arquitetura expressiva, imaginativa e formalmente livre, dentro das limitações do campo da construção no Brasil, deixou um legado importante.”

“Ruy Ohtake foi, sem sombra de dúvidas, um dos máximos expoentes da arquitetura contemporânea no Brasil e, além de tudo, um amigo querido e próximo aos seus colegas de profissão”, relata Bruno Padovano, professor da FAU-USP. “Sua arquitetura expressiva, imaginativa e formalmente livre, dentro das limitações do campo da construção no Brasil, deixou um legado importante para profissionais que atuam nesta área no País, contando ainda com uma importante obra no exterior, o edifício da Embaixada Brasileira, em Tóquio, que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente.”

O professor lembra da trajetória “brilhante” do arquiteto. “Ohtake teve uma forte ligação com a Escola Paulista, da qual foi se desligando e seguindo uma linguagem própria. Ele buscou imprimir aos seus projetos arquitetônicos e urbanísticos uma identidade própria, autoral, como em seu surpreendente Hotel Unique e no próprio Instituto Tomie Ohtake, ambos considerados ícones arquitetônicos em São Paulo. Com o passar dos anos, ele foi se aproximando à arquitetura do gesto generoso e livre de Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos da modernidade.”

Padovano destaca duas obras que considera relevantes em São Paulo. “Seu projeto para o Parque Ecológico do Tietê, afastando as marginais do curso do rio para respeitar sua várzea, e seu impactante sistema de BRT, o Expresso Tiradentes, são obras únicas, sem concorrentes na região metropolitana de São Paulo. Sentiremos sua falta, Mestre Ruy Ohtake.”

“A distinção feita pelo arquiteto resume, de forma simples e direta, toda a complexidade da atividade projetual: como combiná-las, como dispô-las, como medi-las?”

“Se Oscar Niemeyer é o mais ilustre arquiteto brasileiro desta tradição do desenho, Ruy Ohtake ocupa posição destacada com sua grafia persistentemente manufaturada em tempos de desenhos digitais, para manter acesa a busca pela surpresa e pela liberdade expressiva que caracterizam uma distintiva vertente da arquitetura brasileira”, analisa Luis Antonio Jorge, professor da FAU-USP. “A concisão do seu desenho estava sintonizada com um sentido de brasilidade da nossa arquitetura moderna, mas também com o Zeitgeist da cultura brasileira em geral na segunda metade da década de 1950, período em que ele estudou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, curso concluído em 1960.”

O professor lembra a conversa com o arquiteto Ruy Ohtake. “Ao exaltar a liberdade criativa na fatura do projeto, distinguiu o papel da linha curva do da linha reta, sublinhando a necessidade e a presença de ambas na arquitetura brasileira. A primeira oferece a fantasia, enquanto a segunda, a racionalidade. A distinção feita pelo arquiteto resume, de forma simples e direta, toda a complexidade da atividade projetual: como combiná-las, como dispô-las, como medi-las? Nada melhor, portanto, do que o desenho, construção feita por linhas, para fixar o diálogo imaginado entre a fantasia e a razão.”

“E, enquanto vontade artística, ele vivia em um ambiente marcado pela presença de Tomie Ohtake, sua mãe. Na cultura japonesa, isso quer dizer muito…”

“Admirada ou criticada, a arquitetura de Ruy Ohtake incomoda. Incomoda porque ele, como alguns arquitetos de sua geração e até anteriores – brasileiros ou não –, se indispuseram com o amaneiramento da arquitetura, na acepção mais básica de insistir em fórmulas ou receitas que se reproduzem pela vida afora”, comenta o professor Hugo Segawa, da FAU-USP.

Expresso Tiradentes - Foto: Divulgação

O professor relata que, logo no início da carreira, Ohtake foi enquadrado como um bom representante de uma linha paulista de arquitetura. “Ele se posicionava como discípulo de Vilanova Artigas e Oscar Niemeyer. Embora seu discurso alardeasse o tributo a esses paradigmas, sua retórica arquitetônica afastou-se da emulação dos mestres, em busca de um risco próprio. Esse distanciamento coincide com o levante pós-moderno nos anos 1980. Não em mimetizar historicismos, mas ao desconfiar de ‘verdades’, de não se satisfazer com o que fazia. E, enquanto vontade artística, ele vivia em um ambiente marcado pela presença de Tomie Ohtake, sua mãe. Na cultura japonesa, isso quer dizer muito.”

Segawa afirma que “maneirismos não são intrinsecamente ruins”. Justifica: “É viável fazer excelente arquitetura havendo domínio e sensibilidade no manejo de códigos estéticos e funcionais consagrados que caracterizam arquiteturas bem qualificadas. A diferenciação, ou o esforço de superar maneirismos, não conduz, automaticamente, ao melhor dos mundos. As realizações de Ruy Ohtake do limiar do século 21 para cá conviveram entre esses extremos. O julgamento crítico entre seus pares decorre da ousadia dele em romper o ‘certo’, na opinião de correntes, pelo ‘incerto’, na segurança de um arquiteto em plena maturidade profissional. Daí a transversalidade, em muitos sentidos, de suas realizações: um hotel como o Royal Tulip Alvorada de Brasília, um grande edifício vermelho de simetria pós-moderna, intrometido entre o  Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada, dois emblemas da modernidade de Niemeyer, para hospedar presidentes norte-americanos, contrasta com os chamados “redondinhos”, blocos de habitação de interesse social em Heliópolis, São Paulo, onde o populismo é um vetor de legitimação da polêmica solução.”

Segawa conclui: “Ruy Ohtake circulou entre esses polos como uma prestigiosa e prestigiada assinatura. Não é à toa que foi um homem que sempre emanou bom humor e felicidade. Esse era o seu carismático lado humano”.


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