Pandemia e ensino: as aulas não presenciais podem substituir as presenciais?

Artigo discute a situação dos alunos diante das dificuldades de acompanhar aulas a distância durante a pandemia

 15/12/2020 - Publicado há 12 meses  Atualizado: 16/12/2020 as 19:45

O ensino a distância requer ferramentas e instrumentos, como aquisição de smartphones, tablets, microcomputadores que, geralmente, não estão disponíveis para a maioria de alunos do ensino público, pois são produtos caros – Foto: SEEDF – Flickr
O ano de 2020 foi marcado pela pandemia do novo coronavírus e as polêmicas escolhas que precisaram ser feitas: priorizar a saúde, o isolamento ou garantir a economia? Espera-se que tudo passe logo, mas quanto tempo ainda será preciso esperar? Liberam-se serviços, a contaminação volta; vem o lockdown, tudo paralisa. É um abre e fecha constante no mundo todo. Nas pessoas, as consequências são o medo, a depressão, a ansiedade. E a educação, questão já tão complexa no Brasil de hoje, como fica?

Em artigo publicado na revista Cadernos CERU, a pesquisadora Norinês Bahia, gestora de uma escola pública da rede de ensino do Estado de São Paulo, discute a situação dos alunos diante das dificuldades de acompanhar aulas a distância, pois isso requer ferramentas e instrumentos, como aquisição de smartphones, tablets, microcomputadores que, geralmente, não estão disponíveis para a maioria de alunos do ensino público, pois são produtos caros.

E os professores, por sua vez, não foram preparados para lidar com essa situação e as demandas governamentais exigidas pelo ensino a distância. “Estas e tantas outras questões merecem um olhar mais aproximado do ‘cotidiano escolar a distância’”, afirma a autora.

Surge, para essas questões, a proposta oficial de aulas não presenciais, formuladas pela Seduc – Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, com a transmissão dessas aulas via TV Educação (em parceria com a TV Cultura), e a plataforma do CMSP – Centro de Mídias da Educação do Estado de São Paulo. Essas iniciativas se concretizaram no início do mês de abril.

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Logo que se confirmou a pandemia, as escolas funcionavam com horários reduzidos, com recomendações de cuidados de saúde para alunos, professores e funcionários. Naquele momento optou-se pela antecipação das férias, ao mesmo tempo em que os professores foram convocados para cursos de formação e replanejamento, disponibilizados pelo aplicativo do Centro de Mídias da Educação de São Paulo – CMSP.

O objetivo desse intento foi o de iniciarem-se as aulas não presenciais, visando aos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, disponibilizando também o canal TV Educação, em parceria com a TV Cultura, para a transmissão das aulas do CMSP.

Depois, a TV Cultura Educação se juntou ao aplicativo Centro de Mídias, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, com aulas ao vivo, chat disponível para sanar dúvidas em grupos de alunos e acesso gratuito por celular.

Segundo a autora, essas iniciativas são fatos inéditos na rede pública, mas, por outro lado, ela salienta a dificuldade dos alunos ao acesso desse conteúdo importante para dar seguimento aos estudos, pois há estimativas que apontam que “de 3,7 milhões de alunos, somente 1,5 milhão consegue acessar as aulas”.

Grande parte dos alunos não consegue participar desse “novo cenário e/ou contexto, de um cotidiano escolar a distância”, gerando uma situação de desigualdade “para quem já é desigual socialmente, ainda mais em meio a uma pandemia”.

O excesso de trabalho, aliado às preocupações de saúde, gera estresse nos professores. Quanto aos alunos, não são poucos os que se frustram por não terem acesso aos instrumentos de aprendizagem, além da solidão e a tristeza causadas pelo isolamento social e até familiar.

Por sua vez, os professores enfrentam as contradições das orientações oficiais da Secretaria, com o acúmulo de “demandas burocráticas” sobre questões relacionadas à gestão escolar. Apesar da gravidade da crise, os alunos, nas palavras da autora, “terão garantido um período de recuperação de estudos”.

Na escola a distância os desafios são muitos, mas os professores estão se empenhando para ”promover um processo de ensino-aprendizagem que, de alguma forma, minimize algumas perdas”, mas cientes que não só os alunos, mas muitos professores consideram que as aulas não presenciais não substituem as presenciais. Considera-se, no momento, a implantação de um possível ensino híbrido nas escolas públicas estaduais, tendo em vista a instituição do Programa do Centro de Mídias da Educação de SP, que será posto em prática dependendo de como se apresentarão os resultados e as consequências, futuramente, do atual modelo de ensino não presencial.

Artigo

BAHIA, N. P. Pandemia!!! E agora? Reflexões sobre o cotidiano escolar a distância. Cadernos CERU, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 116-125, 2020. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/174489. Acesso em: 13 out. 2020.

Contato
Norinês P. Bahia – Especialista em Educação na área de Formação de Professores na antiga Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas – CENP e na Fundação para o Desenvolvimento da Educação – FDE, também é professora e coordenadora de cursos de Pedagogia e professora pesquisadora de um programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Metodista.

Por Margareth Arthur/Portal de Revistas USP


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