Infraestrutura verde pode reduzir enchentes em bacias que passam por urbanização acelerada

Proposta de pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos e do Instituto de Arquitetura e Urbanismo é usar um conjunto de soluções que visa a integrar as cidades com a natureza a fim de reduzir os impactos ambientais

 16/08/2022 - Publicado há 1 mês  Atualizado: 17/08/2022 as 18:15
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Enchente no município de São Carlos, interior de São Paulo – Foto: Secretaria de Desenvolvimento Econômico de SP via Twitter

 

Pesquisadores da USP desenvolveram um estudo teórico a partir da microbacia do Córrego do Mineirinho, no município de São Carlos, interior de São Paulo, para analisar vários cenários possíveis de intervenção e averiguar quais seriam as melhores alternativas para o enfrentamento de enchentes em bacias hidrográficas que passam por um processo de urbanização. Segundo o levantamento, uma das alternativas seria a adoção de infraestrutura verde, um conjunto de soluções que visa a integrar as cidades com a natureza a fim de reduzir os impactos ambientais.

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O objetivo do trabalho foi reunir pesquisas e outros referenciais teóricos já existentes sobre a microbacia e analisar cenários para averiguar quais seriam as melhores alternativas de intervenções. Considerando os fatores ambientais, sociais e econômicos da região, as medidas passíveis de serem implementadas envolvem a priorização de serviços hidrológicos fornecidos por infraestruturas verdes, como a construção de biovaletas (depressões lineares formadas por vegetação) para aumentar a infiltração de água no solo e evitar o escoamento superficial, renaturalizando o ciclo da água e amenizando os impactos dos processos de urbanização acelerada. Outras intervenções apontadas pelo estudo são:

  • Reflorestamento, descompactação dos solos e armazenamento de vazão;
  • Adequações de áreas de estacionamento;
  • Instalações de telhados verdes e alternativas similares;
  • Ações de arborização;
  • Construções de corredores verdes, praças com cobertura vegetal e valas de infiltração;

 

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O artigo que descreve o estudo foi publicado em abril na Revista Brasileira de Geografia Física. Produzido por estudantes de pós-graduação da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, o trabalho teve colaboração do professor Marcel Fantin, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, em São Carlos (IAU), e contou com recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

De acordo com o levantamento, a região da bacia do Mineirinho passa por um processo de urbanização acelerada na fronteira urbano-rural, uma situação comum em centros urbanos em desenvolvimento do interior do Estado de São Paulo. Em 1985, a área urbanizada representava pouco mais de um quilômetro quadrado (km²); em 2020, passou a 4 km². As consequências disso são as perdas de atributos naturais, a impermeabilização do solo, a remoção de vegetação, o adensamento populacional, o aumento da vazão superficial em eventos chuvosos e o consequente aumento da chance de ocorrência de inundações nos vales urbanos.

Área da microbacia do Córrego do Mineirinho, no município de São Carlos (SP), propícia para intervenções baseadas na infraestrutura verde – Foto: Cedida pelos pesquisadores
Edimilson Rodrigues – Foto: Arquivo pessoal

 

Para contornar a situação, os pesquisadores propõem a revitalização dessas áreas através de estratégias pensadas dentro do campo da engenharia ambiental. Edimilson Rodrigues, mestrando do Programa de Ciências da Engenharia Ambiental da EESC e um dos autores do trabalho, define a infraestrutura verde como “uma alternativa tecnológica de intervenção no espaço que privilegia o oferecimento de serviços ecossistêmicos e a revitalização desses espaços construídos”. Esses serviços podem ser de diversos tipos, como de provisão (fornecimento de alimento e água), cultural (lazer e recreação) ou regulação, sendo este último o foco do trabalho.

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Rhennan Mecca, doutorando do Programa de Ciências da Engenharia Ambiental da EESC e também autor do artigo, afirma que a escolha da bacia do Mineirinho foi feita justamente pela grande representação em relação à realidade de outras bacias hidrográficas semelhantes no Brasil. “É uma região com uma área rural grande que está sendo ocupada por condomínios horizontais e possui uma área periférica do município que apresenta condições urbanas mais precárias em relação ao resto da cidade”, afirma o pesquisador ao Jornal da USP.

Rhennan Mecca – Foto: Arquivo Pessoal

 

O estudo combinou um modelo hidrológico da bacia com dados quantitativos baseados em trabalhos já publicados sobre o tema, com uma adaptação de uma revisão bibliográfica sistemática, “para resgatar tudo aquilo que é reconhecido como um problema ambiental ou urbano da bacia”, conta Edimilson. Além disso, houve também uma adaptação da fenomenologia da paisagem, em que os pesquisadores foram a campo para observar os problemas presentes na região.

Mais informações: e-mail edimilson.rodrigues.santos@usp.br, com Edimilson Rodrigues, e e-mail rhennan.bontempi@usp.br, com Rhennan Mecca

 


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