Plataforma oferece informações variadas sobre as escolas públicas de São Paulo

Sistema de geolocalização permite obter grande número de dados sobre instituições de ensino da Região Metropolitana, de informações demográficas até indicadores de desempenho

Pelo sistema também é possível levantar características socioeconômicas da escola e seu entorno, como distribuição de renda da vizinhança onde ela fica – Imagem: Reprodução do site

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Um gigantesco banco de dados geolocalizado sobre quase 12 mil escolas públicas e particulares do ensino básico da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) está disponível para consulta on-line por meio de uma plataforma desenvolvida pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM-Cepid/Fapesp). A plataforma permite obter dados sobre o desempenho e as condições de operação das escolas, informações socioeconômicas, educacionais, e demográficas, bem como compará-los com escolas de sua vizinhança e com os indicadores da RMSP, do Estado de São Paulo e do Brasil. Também traz dados sobre a infraestrutura de cada unidade escolar e estatísticas educacionais referentes à administração da instituição.

A plataforma pode ser usada por qualquer pessoa que queira saber mais sobre educação, e não apenas o público acadêmico. Ela traz informações gerais das escolas públicas e particulares dos ensinos fundamental e médio sobre, por exemplo, estatísticas educacionais sobre a regularidade do corpo docente, indicador que mede a presença do mesmo docente na escola por anos consecutivos ou, ainda, os níveis de complexidade da gestão da escola, indicador que resume, em uma única medida, as informações sobre porte, turnos de funcionamento, nível de complexidade das etapas (infantil, anos iniciais, anos finais, médio, ensino de jovens e adultos – EJA) e quantidade de etapas ofertadas.

Pesquisador ressalta, porém, que não é válido, nem do ponto de vista metodológico nem social, comparar escolas de regiões com indicadores socioeconômicos muito diversos – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Número de funcionários, oferta de atendimento especializado, acessibilidade (banheiros e vias para deficientes), oferta de alimentação, rede de saneamento básico, equipamentos disponíveis (TV, DVD, computadores, se tem internet, se o acesso é por banda larga) são outros exemplos de dados disponíveis. A plataforma desenvolvida pelo CEM detalha também a infraestrutura da escola: se possui laboratório de informática, biblioteca, sanitário infantil, refeitório, quadras esportivas etc.

Pelo sistema é possível, ainda, levantar as características socioeconômicas da escola e seu entorno, como a distribuição de renda da vizinhança onde a escola está instalada. A plataforma mostra a taxa de pobreza, a renda domiciliar per capita e o Índice de Gini da área em que a escola está inserida. Também é possível fazer o mesmo em relação a características educacionais (alfabetização e perfil educacional), saber os índices de alfabetização, frequência e nível frequentado por faixas etárias e distribuição racial dos alunos. A plataforma traz os dados da escola selecionada, os de sua vizinhança, da RMSP, do Estado de São Paulo e do Brasil, permitindo realizar comparações.

Segundo Rogério Barbosa, pós-doutorando do CEM que coordenou o projeto de construção e desenvolvimento do sistema, as pesquisas em educação já mostraram que boa parte da performance dos alunos se relaciona a uma combinação entre as condições familiares e as da vizinhança. “Ao compararmos escolas de vizinhanças parecidas, conseguimos saber quais são as diferenças: se uma está recebendo mais ou menos recursos do que a outra, se tem professores melhor formados e assim por diante”, aponta. “Quando tomamos as características da escola, familiares e do contexto socioeconômico no qual o estudante está inserido, temos uma visão mais abrangente”, completa.

O desenvolvimento do conceito de vizinhança para além da ideia de proximidade física é uma das inovações aplicadas ao sistema. “Um exemplo é o indicador de composição ocupacional e educacional de cada região. Uma escola que está numa região em que parcela dos moradores tem ensino médio e/ou ensino superior tende a ser frequentada por crianças que são formadas por esses pais com maior escolaridade e elas vão melhor na escola”, conta.

“Vale ressaltar, no entanto, que não é válido, nem do ponto de vista metodológico e muito menos social, comparar escolas de regiões com indicadores socioeconômicos muito distintos”, explica. Os alunos que frequentam as escolas públicas localizadas em áreas com melhores indicadores socioeconômicos, provavelmente, são de classe média e trazem consigo uma bagagem cultural e educacional herdada da família, estão em região que provê acesso a mais bens culturais etc. “A ideia básica de comparar as escolas não pode resultar em algum tipo de ranqueamento das melhores e piores escolas nem serve para estimular competitividade, pelo contrário”, acrescenta.

 

Sistema desenvolvido para as escolas da Região Metropolitana de São Paulo é facilmente replicável para outras cidades ou regiões – Imagem: Reprodução do site

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Construção do sistema

Lançado em 2015, o Sistema Geolocalizado das Escolas da RMSP utiliza indicadores atualizados e integrados dos Censos Escolares feitos pelo Ministério da Educação (MEC) relacionados à educação básica e realizados entre 2005 e 2016, das avaliações especializadas (Saeb, Prova Brasil e Enem) e do Censo Demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com apoio de bolsistas, os geógrafos Daniel Waldvogel Thomé da Silva e José Donizete Cazzolato, integrantes da equipe de transferência do CEM, foram os pesquisadores responsáveis por fazer o trabalho de georreferenciamento das escolas.

Para essa etapa, foi utilizada a base cartográfica de ruas desenvolvida pelo próprio CEM, que engloba os 39 municípios da RMSP. “Boa parte dos endereços que constava no Censo Escolar não estava preciso. Ora escreveram de forma errada, ora o endereço era impreciso, ora a escola havia mudado de local. Foi um trabalho muito cuidadoso para poder gerar informações confiáveis sobre as escolas, o que incluiu buscas por sites das escolas, da Prefeitura, do governo estadual, e checagens no Open Street Maps, no Google Street Views etc”, conta Barbosa.

No Censo Escolar, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do MEC, e nas provas padronizadas, cada escola tem um código identificador único, o chamado ID, o que permitiu a importação das informações de várias bases de dados e a respectiva atribuição dos mesmos a cada escola.

Foi desenvolvida uma estratégia específica para integrar cada uma das escolas aos dados do Censo Demográfico. Elas aparecem em polígonos no mapa do sistema do CEM que definem as chamadas áreas de ponderação, um recorte espacial adotado pelo IBGE que delimita regiões de aproximadamente 10 mil a 15 mil pessoas. Essas áreas são formadas por conjuntos de setores censitários, que são o conjunto de domicílios (que varia, numericamente, entre 250 e 350) em que um único entrevistador consegue aplicar os questionários do Censo. “Cruzando a geolocalização da escola com os dados do Censo Demográfico referentes à área de ponderação onde ela está localizada, conseguimos levantar os dados socioeconômicos de vizinhança e atribuí-los à escola”, explica Rogério Barbosa.

O Sistema Geolocalizado das Escolas da RMSP representou para o CEM o primeiro aprendizado no uso de webmap. O conhecimento obtido pelos pesquisadores no desenvolvimento do ReSolution, plataforma que traz indicadores inéditos da região metropolitana, contribuiu para o avanço do sistema sobre as escolas. “Tivemos uma convergência entre o domínio que o CEM tinha em relação às bases de dados educacionais, nossa produção científica sobre desigualdade em educação, com o conhecimento de georreferenciamento que o CEM já tinha acumulado, com o georreferenciamento de diversos equipamentos e instituições da RMSP. O sistema geolocalizado para as escolas foi uma aplicação dessa capacidade que o CEM detém em um assunto específico.”

De acordo com o pesquisador, o sistema desenvolvido para as escolas da RMSP é facilmente replicável para outras cidades ou regiões. “Fizemos uma extensa documentação, usamos código aberto e está tudo disponível”, comenta. A região interessada precisará investir apenas na parte da geolocalização das escolas. “Como ocorreu com a RMSP, podemos ter mais informações incompletas dos endereços, o que requer uma checagem manual. Tendo os endereços das escolas, o resto é possível desenvolver a partir de bases públicas que já foram extensamente trabalhadas pelo CEM”, conclui.

Assessoria de Comunicação do CEM

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