Woodstock: o maior encontro de uma geração revoltada e festiva

Henrique Carneiro é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo

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Cerimônia de abertura do festival de Woodstock – Foto: Mark Goff/Domínio Público via Wikimedia Commons

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Henrique Soares Carneiro, professor da FFLCH/USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

O festival de Woodstock, ocorrido no verão de 1969, ao longo de três dias intensos, entre 15 e 18 de agosto, numa fazenda no estado de Nova York, foi uma culminação das expressões de massa dos movimentos político-culturais dos anos de 1960, conhecidos generalizadamente pelo conceito de “contracultura”.

Após anos de protestos e de um clima de revolução cultural, o ano de 1969 começou com a posse do presidente republicano Richard Nixon, que frustrava as demandas de fim da guerra, o que tornava esse encontro de jovens mais do que um simples festival de música.

O encontro festivo e rebelde de quase meio milhão de jovens num clima de exaltação das liberdades, recusa da guerra, uso de drogas psicodélicas, nudez e sexualidade desafiadoras foi um evento artístico, político e existencial marcante.

O debate histórico e sociológico sobre esse período e esse termo é enorme, havendo os que identificam uma perspectiva contracultural contínua na história, como um conflito intrínseco a toda e qualquer cultura constituída que possuiria sempre os seus contestadores. Cristãos gnósticos, correntes heréticas, sufistas islâmicos e românticos europeus seriam, assim, manifestações contraculturais em tempos e lugares diversos. Para outros, no entanto, apenas a eclosão do movimento político-cultural ocidental dos anos do segundo pós-guerra, especialmente com raízes estadunidenses, poderia ser chamado de “a contracultura”.

Muitos elementos coincidiram nessa década que viveu uma efervescência inédita de questionamentos dos costumes, da política, da arte e da religião estabelecidas: a fase de crescimento econômico do segundo pós-guerra, o boom de natalidade havido nessa geração, o advento dos contraceptivos em pílulas, a escalada militar da guerra do Vietnã, a influência de religiões orientais como o budismo e o hinduísmo no Ocidente, o uso de drogas psicodélicas, especialmente do LSD, a eclosão do movimento negro, feminista e homossexual, a militância estudantil universitária, as manifestações multitudinárias. A contracultura foi uma espécie de atitude desafiadora, de mentalidade revolucionária, de desejo de realizações imediatas, que perpassou essa geração identificada emblematicamente com a revolta.

Hippies em manifestação contra a guerra do Vietnã, em agosto de 1968 – Foto: Domínio Público/Library of Congress

Em 20 de setembro passado, Júlio Delmanto defendeu um doutorado em História Social na USP, sob minha orientação, intitulado História Social do LSD no Brasil: os primeiros usos medicinais e o começo da repressão, em que enfoca um dos aspectos marcantes da contracultura, o psicodelismo que, como aponta a tese, chegou tardiamente ao Brasil, sufocado na época pela ditadura militar em seu período mais duro.

O encontro festivo e rebelde de quase meio milhão de jovens num clima de exaltação das liberdades, recusa da guerra, uso de drogas psicodélicas, nudez e sexualidade desafiadoras foi um evento artístico, político e existencial marcante

O festival de Woodstock foi também, não apenas a maior concentração de pessoas dessa época, de forma improvisada e solidária, como se constituiu talvez no maior número de pessoas em uma “viagem de ácido” coletiva e simultânea.

O que fora a tradição dos protestos não violentos sentados na rua, chamados de sit-ins, evoluíram para o que se chamou de be-ins, ou seja, estar juntos como um ato de festa, de revolta, de transe, de congregação, de empatia.

A música e a dança se expressaram efusivamente como um meio coletivo de vivência iniciática e com um conteúdo idílico e pacifista que impediu que houvesse praticamente qualquer incidente ou conflito.

A afirmação hedonista, de uma sexualidade esfuziante, de uma alegria militante, de um uso psiconáutico de drogas expansivas sensoriais, de acordes rítmicos e vertiginosos, se inscreveu numa ética e numa estética hippie de recusa ao projeto industrial-militar que já demonstrava não só seus efeitos genocidas nos bombardeios na Indochina, como sua destrutividade socioambiental. Em oposição ao cenário de terror vivido pela ameaça de destruição nuclear da guerra fria, anunciava-se a busca de um “paraíso agora”.

A contracultura, entretanto, se viu incapaz de formar um polo orgânico de oposição política alternativa nos Estados Unidos. Buscou um nicho institucional na esquerda do Partido Democrata, em cuja Convenção de Chicago, em 1968, tentou influir na escolha de um candidato mais à esquerda, mas fracassou. Os assassinatos, nesse mesmo ano de 1968, de Martin Luther King e de Bob Kennedy, assim como o fuzilamento de estudantes universitários que protestavam contra a guerra, já haviam deixado claro que o chamado establishment não seria abalado facilmente.

Foto: David Wilson/Wikimedia Commons

A eleição do candidato republicano Richard Nixon levou ao aumento da guerra e dos bombardeios, mas também resultou depois na campanha pelo seu impeachment, ocorrido em 1974, que foi uma espécie de revanche da geração de Woodstock, derrotada nas eleições, mas vitoriosa em boa medida, no âmbito dos direitos civis, que tanto em relação às mulheres e aos negros na exigência de direitos iguais, como em relação aos homossexuais, na conquista de seu direito de existência.

Os direitos civis, desde então, se consolidaram no mundo ocidental e até mesmo o proibicionismo das drogas se viu abalado pelas sucessivas legalizações da maconha em muitos estados norte-americanos e, desde 18 de outubro de 2018, em todo o Canadá.

Essas mudanças são um legado das efervescências dos anos sessenta e mantêm um fio de continuidade entre as contraculturas na história ocidental, renovando um romantismo revolucionário que de tempos em tempos volta a reacender paixões coletivas em ciclos de rebelião cultural.

 

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