A cena musical brasileira de 1968

Marcos Napolitano é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo

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Geraldo Vandré no III Festival Internacional da Canção, de 1968

Marcos Napolitano – Foto: Maria Leonor de Calasans/IEA-USP

 

A vida não se resume em festivais”, disse Geraldo Vandré no palco do Maracanãzinho, diante de 20 mil pessoas que vaiavam a decisão do júri. A multidão estava inconformada com a derrota de sua canção Caminhando (Para não dizer que não falei das flores) para a bela Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, interpretada por Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. Só Andança (Danilo Caymmi, Paulinho Tapajós, Edmundo Souto) experimentou algum consenso naquele polarizado III Festival Internacional da Canção, até então um festival anódino transmitido pela TV Globo, se comparado aos já memoráveis festivais de MPB da TV Record. Mas antes do embate épico entre Caminhando e Sabiá, ocorrido em outubro, muita coisa já tinha acontecido na cena musical brasileira de 1968.

O ano começou com uma bomba para os fãs da Jovem Guarda, que havia dois anos parecia ameaçar a MPB “séria” e engajada: em janeiro, foi ao ar o último programa dos reis do iê-iê-iê brasileiro. O mundo jovem de 1968 já não se contentava com os namoricos no portão de casa, carrões envenenados e brigas de bairro. A Jovem Guarda não resistiria à MPB e à radicalização da contracultura jovem. Mas Roberto Carlos, o Rei, seguiria firme e forte na sua carreira, envelhecendo com seu público.
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Cynara e Cybele interpretam a música Sabiá no III Festival Internacional da Canção – Foto: AE

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Em maio, enquanto Paris estava em chamas, o samba triunfara nos palcos da TV Record. Também espremido entre tanta sede de novidade e juventude, desde o surgimento da Bossa Nova em fins dos anos 1950, o velho samba renovava o seu repertório, com uma série de canções memoráveis justamente no ano em que Caetano dizia se recusar a “folclorizar seu subdesenvolvimento para compensar as desvantagens técnicas” do fazer artístico. O samba ganhou até um festival próprio, a Bienal do Samba, vencida por Elis Regina cantando Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha. E se a morte de Wilson Batista abalara o mundo do samba naquele mesmo ano, grandes carreiras nasciam para o público massivo, como Paulinho da Viola e Beth Carvalho. Naquele ano, foram gravadas Pressentimento (Elton Medeiros/Herminio Bello de Carvalho), Sei lá Mangueira (Paulinho da Viola) e Coisas do Mundo, minha nega (Paulinho da Viola). O mítico Cartola lançou três canções antológicas, Alvorada, Tempos Idos (Cartola/Carlos Cachaça) e Tive, sim. E a tradução da conjuntura brasileira ganhava um samba à altura do seu nonsense: O samba do crioulo doido, do grande cronista da tragicomédia involuntária brasileira, Sergio Porto, também falecido naquele ano.

Mas o ano de 1968 tinha urgências, inclusive urgências musicais. Tinha urgência da Revolução, urgência da liberdade, urgência da juventude, urgência de realidade e de ação. As canções daquele ano também tinham que ser urgentes, reclamava a jovem estudante Walnice Galvão nas páginas da revista Aparte, porta-voz da extrema esquerda estudantil uspiana. Não podiam ficar limitadas a cantar o futuro, cantar para esperar o futuro, cantar enquanto o futuro não chega. O “dia que virá”, figura poética de nove entre dez canções engajadas dos festivais, era quase uma impostura. A MPB precisava de uma Marselhesa, pedia Walnice. Precisava de uma canção urgente que anunciasse que “o dia de glória (revolucionária) chegou”. Não é improvável que Geraldo Vandré, atento à vida estudantil, tenha lido o artigo e disto tenha nascido sua Caminhando: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.  A turma da contracultura respondia com outras urgências: “é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte” (Divino e Maravilhoso, de Caetano/Gil).

Em maio, enquanto Paris estava em chamas, o samba triunfara nos palcos da TV Record.

Mas a urgência daquele tempo encontrava um contracanto melancólico, nem por isso menos crítico e reflexivo, de Chico Buarque de Holanda e Tom Jobim. Depois de cantar a “sabiá” de uma “palmeira que já não há” (e talvez nunca tenha havido de fato), a dupla compôs outro grande clássico da MPB que fala de um passado que não passa e atormenta: Retrato em branco e preto. Chico, cronista do Brasil que ansiava o futuro, mas estava saturado de passado, anunciava desde a Banda que a canção era efêmera, mera promessa de felicidade que durava pouco mais de três minutos. Mas isso não era pouco para um tempo no qual as canções pareciam materializar utopias e sedimentar comunidades políticas e culturais. Outro clássico de 1968, Viola Enluarada (Marcos Valle/Paulo Sergio Valle) advertia em uma suave toada: “a mão que toca um violão, se for preciso faz a guerra, mata o mundo, fere a terra”. Esta canção, que queria acordar os homens e adormecer as crianças, olhava o velho luar do sertão não como signo de placidez, mas de luta.
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Os Mutantes em apresentação no III Festival Internacional da Canção, em 1968 – Foto: Soares/Agência Pública do Estado de São Paulo

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Até as musas da canção 68 brasileira pareciam encarnar o choque arcaico-moderno, passado-futuro. Da faceirice modernizada de Sá Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), cantada por Wilson Simonal, ao lirismo soturno e contido de Memórias de Marta Saré (Edu Lobo), passando pelo bolero pop-cubista de Lindoneia (Caetano Veloso), as nossas musas foram tragadas pelo vórtice do tempo. Só Carolina não queria sair às ruas agitadas, onde o tempo da história acontecia, e preferia olhar, sem ver, a realidade da sua janela.

Efetivamente, o ano de 1968 esticou ao máximo o fio ilusório de continuidade histórica, numa tensão máxima entre sonhos utópicos e realidades massacrantes. Os tanques soviéticos de Praga, o eleitorado conservador francês, a fuzilaria da Praça Tlatelolco no México, o AI-5 no Brasil acabaram com a Primavera da Juventude e suas utopias revolucionárias no auge das mobilizações. Quando esse fio ilusório se rompeu, ficou a sensação de choque, de paralisia temporal, de sensação de um tempo inconcluso, um ano que não acabou. O velho mundo parecia alcançar os jovens camaradas que corriam para o futuro.
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Efetivamente, o ano de 1968 esticou ao máximo o fio ilusório de continuidade histórica, numa tensão máxima entre sonhos utópicos e realidades massacrantes.

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A vanguarda brasileira 68 por excelência, o Tropicalismo, intuiu os efeitos desta temporalidade paralisante. Se o choque arcaico-moderno cantado pelos tropicalistas carecia de síntese, dada nossa dialética rarefeita, sobrava justaposição alegórica. Desta intuição nasceram canções híbridas: cheias de vontade de futuro e modernidade, mas perpassadas por imagens poéticas e fragmentos musicais arcaicos. Falando de brasilidade, mas atravessadas por estrangeirismos. Críticas e atormentadas como as canções de protesto da esquerda, mas lenientes com a amenidade e a nostalgia da cultura brasileira senhorial, invenção da direita.

Em setembro, em uma das eliminatórias do mesmo III Festival Internacional da Canção, que consagraria Caminhando, Caetano Veloso protagonizara um dos maiores happenings musicais de todos os tempos, discutindo ao vivo com a plateia que vaiava a canção É Proibido Proibir no Tuca, em São Paulo. Enquanto os Mutantes tocavam de costas para a plateia e um hippie norte-americano fazia uma coreografia esquisitona, Caetano bradava: “Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”. A coisa quase chegou às vias de fato na saída do teatro. No mesmo festival, Gil “causou” com sua anárquica Questão de Ordem: “você vai, eu fico… você fica, eu vou… se eu ficar em casa / fico preparando / palavras de ordem / para os companheiros / que esperam nas ruas / pelo mundo inteiro / em nome do amor”…

 

 

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