Sergio Antonio Vanin (1948-2020): o compartilhamento de um maravilhoso legado

Por Antonio C. Marques, professor titular do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da USP

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Antonio Carlos Marques – Foto: Auspin
O professor Sergio Antonio Vanin teve sua história acadêmica integralmente devotada à Universidade de São Paulo, especialmente ao Instituto de Biociências (IB) e seu Departamento de Zoologia, e ao Museu de Zoologia (MZ). Ingressou no IB em 1968, onde se formou biólogo (licenciatura e bacharelado, 1971). Posteriormente fez seu mestrado (1974) e doutorado em Zoologia (1979) também no IB, com orientadores que eram pesquisadores do MZ. Foi contratado como auxiliar de ensino junto ao Departamento de Zoologia em 1975, passando a assistente (1976), assistente doutor (1979), obtendo o título de livre-docente (1997) e finalmente alcançando o cargo de professor titular (2000). Foram 52 anos de USP, 41 desses como docente do quadro ativo.

A visão academial de produzir pesquisa, ensino e extensão de maneira integrada sempre foi a tônica da carreira do professor Vanin, generosamente compartilhada com aqueles que o cercavam. Lecionou diversas disciplinas na graduação, viz. Princípios de Sistemática e Biogeografia, Zoologia de Invertebrados II, Ecologia Animal, Fauna, Flora e Ambiente e Entomologia Básica. Muitos alunos tiveram o privilégio de ir ao campo e comungar da alegria de aprender sobre a natureza com o professor Vanin, especialmente nas viagens didáticas à Estação Biológica de Boraceia, pertencente ao MZ, em que ele se revelava o excepcional naturalista que era, ilustrando sobre rochas, plantas, animais, sempre com sua modéstia marcante.

De fato, sua atuação caracterizou-se pela extrema dedicação aos alunos, cativando jovens biólogos para a área ambiental. Praticamente todos os dias recebia, em sua sala, jovens alunos e colegas para discutir sobre seus desassossegos, problemas e sonhos – ele parava tudo o que estava fazendo e, com carinho e humildade especiais, ajudava despretensiosamente. Nunca se negou a ministrar, altruisticamente, aquelas disciplinas que estavam momentaneamente descobertas na grade do departamento/unidade. Não à toa, foi diversas vezes homenageado pelas turmas que se formaram no IB, inclusive como paraninfo e patrono.

Sua contribuição no ensino foi decisiva, sobretudo, na integração de uma visão evolutiva e filogenética no estudo da biodiversidade. Isso ocorreu inicialmente por meio de aulas esparsas em Zoologia de Invertebrados II e, posteriormente, com a criação da disciplina interdepartamental Princípios de Sistemática e Biogeografia, em 1995, idealizada por ele. Essa visão de compreender a evolução como essencial e subjacente ao ensino de Biologia foi um modelo posteriormente adotado e consagrado em inúmeros currículos de Ciências Biológicas em todo o Brasil.

Igualmente, na pós-graduação, o professor Vanin seguiu a mesma tônica de estruturar a visão evolutiva no estudo da biodiversidade. Fez isso formalmente por meio da disciplina Princípios de Zoologia Sistemática, a qual ministrou desde 1986, e pela formação de 11 mestres e 11 doutores em taxonomia e ecologia, tendo diversos grupos zoológicos como modelos de estudo (Coleoptera, Hemiptera, Lepidoptera, Odonata, Araneae e Opiliones). Informalmente, entretanto, teve influência decisiva em gerações de mestres e doutores formados em virtualmente todas as áreas do estudo da biodiversidade, sempre atuando como mentor e conselheiro desses alunos.

Professor Sergio Antonio Vanin (1948-2020) – Foto: Arquivo pessoal

Sua pesquisa resultou em cerca de 100 trabalhos de alta qualidade publicados desde 1973, majoritariamente com insetos e taxonomia, porém com produção associada também à anatomia, ecologia, bioquímica e história natural. A forma de aferir ciência no contexto histórico em que viveu não se dava por fatores de impacto e citações, mas sempre foi evidente a grande aceitação e a influência de seus trabalhos na comunidade zoológica e entomológica. No total, descreveu mais de 100 espécies e dezenas de táxons supraespecíficos, e redescreveu mais de uma centena de indivíduos adultos de espécies que já eram conhecidas, e larvas de mais de duas centenas de espécies de coleópteros, um marco na história da entomologia.

No contexto do desenvolvimento da pesquisa em Zoologia, porém, destacou-se por ser um dos pioneiros na publicação de trabalhos taxonômicos baseados em análises filogenéticas estritas [Vanin, 1986, Systematics, cladistic analysis, and geographical distribution of the tribe Erodiscini (Coleoptera, Curculionidae, Otidocephalinae)] e, por consequência, na disseminação da visão henniguiana da Sistemática Filogenética. Outro mérito científico do professor Vanin e colaboradores foram os diversos estudos com os complexos ciclos de vidas de coleópteros, cujo exemplo magistral é o livro Larvas de Coleoptera do Brasil (Costa, Vanin e Casari, 1988).

Sua atividade em extensão também derivou de suas pesquisas em entomologia e evolução, posteriormente desdobrando-se na disseminação da visão evolutiva relacionada à biodiversidade em geral. Nesses aspectos, publicou artigos de divulgação, promoveu e ministrou conferências e foi um profícuo prestador de serviços à comunidade – foram centenas de identificações de insetos para crianças, leigos, alunos e especialistas, em que inclusive sentava à lupa junto com a pessoa e ensinava enquanto os identificava. Teve também papel decisivo na curadoria e execução de exposições da diversidade animal promovidas no DZ e no Museu de Zoologia (MZ). Da mesma forma, trabalhou incansavelmente na promoção da entomologia brasileira, participando da diretoria da Sociedade Brasileira de Entomologia (1972-2000), inclusive exercendo o cargo de presidente por cinco gestões (1986-1996).

Como seria esperado de seu caráter profissional exemplar, institucionalmente caracterizou-se por seu engajamento e compromisso irretocáveis com os projetos de interesse coletivo, sempre colocando a instituição acima de seus interesses individuais. Foi chefe do Departamento de Zoologia (1999-2003) e presidente da Comissão de Pesquisa do IB-USP, além de diretor do Museu de Zoologia da USP (2005-2009), onde, vale lembrar, colaborou como curador associado por décadas, e ao qual sempre dedicou enorme carinho e atenção. Esteve em inúmeros colegiados, inclusive como membro do Conselho Universitário, e em todos qualificava as discussões com suas opiniões serenas, ponderadas e embasadas. O reconhecimento por sua retidão de caráter resultou em sua eleição como membro da Comissão de Ética da USP (2010-2013). Sempre, como dirigente ou conselheiro, o professor Vanin destacou-se por ser uma reserva moral e uma referência de comportamento acadêmico que era naturalmente reconhecido pelos seus pares, e que serviu de exemplo para tantos de nós.

Até mesmo uma boa parte da vida não acadêmica do professor Vanin esteve relacionada à USP, desde suas raízes. Dois de seus irmãos estão ligados à história da Universidade, os professores José Atílio Vanin (1944-2001) e Vito Roberto Vanin, dos Institutos de Química e Física, respectivamente. Sua esposa, a professora Ana Maria Setúbal Pires Vanin, desenvolveu sua carreira no Instituto Oceanográfico. Com ela, o professor Vanin saía em expedições para coletar animais marinhos, especialmente moluscos, mais uma de suas paixões. Nessas oportunidades ele se dizia “estagiário”, se divertia como o mais ávido dos alunos de graduação, e dizia estar aprendendo muito, enquanto era óbvio que o que ele fazia mesmo era ensinar a todos.

A atuação do professor Vanin foi excepcional e decisiva na construção da qualidade e equilíbrio atuais do IB, e seu legado o qualificou ao título de Professor Emérito do Instituto de Biociências, outorgado pela Egrégia Congregação da unidade em 2018. Na oportunidade, o Anfiteatro Geral da Zoologia, onde ele assistiu a inúmeras aulas e palestras e onde depois, como professor, formou milhares de estudantes, ganhou o nome de “Anfiteatro Geral Sergio Antonio Vanin”.

O professor Vanin faleceu na madrugada do dia 21/10, pouco antes de completar 72 anos. O querido Sergio Vanin viverá na história e amor de sua família, na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com ele, e no legado maravilhoso que, sempre magnânimo, deixou a todos nós.

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