Retrospectiva de Vasarely em Paris

Lisbeth Rebollo Gonçalves é professora titular da ECA-USP e presidente da Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica)

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=243308

Lisbeth Rebollo Gonçalves – Foto: Francisco Emolo/Arquivo Imagens USP

Uma exposição do artista Victor Vasarely (1906-1997), no Centro Pompidou, de Paris, oferece ao público uma rara oportunidade para rever a produção desse artista. É a primeira grande retrospectiva que se faz de sua produção plástica. Os curadores Michel Gauthier e Arnauld Pierre reuniram 300 obras, objetos e documentos, alguns pouco conhecidos ou não exibidos há mais de meio século.

Os trabalhos expostos procedem de acervos de diversos museus e coleções, constituindo um sólido conjunto para aproximar o visitante das preocupações estéticas que se revelam nas pinturas, esculturas, múltiplos, “integrações arquiteturais” e da sua produção para o campo da publicidade, em que atuou durante muitos anos.

Nesta retrospectiva de Vasarely, o percurso expositivo é, ao mesmo tempo, cronológico e temático. Destacam-se os principais momentos de sua obra, desde o período de formação com o professor Sándor Bortnyik, discípulo de Walter Gropius, até as últimas inovações da sua pesquisa artística. É possível acompanhar, na exposição, seu projeto de construção de uma linguagem visual universal e de uma arte que possa comunicar-se e ser usufruída no espaço da cidade.

Nascido em Pécs, na Hungria, Vasarely já era um exímio desenhista quando, em 1928, ingressa no ateliê Mühely, dirigido por Bortnyik, em Budapeste. Nesse ateliê, difundem-se os ensinamentos da Bauhaus, e foi, a partir desse ambiente, que ele se aproximou das tendências construtivistas, uma referência fundamental em seu projeto estético. O artista dedicou-se ao estudo das contribuições de Malevich, Kandinsky, Mondrian e Paul Klee, importantes mestres dessa corrente estética.

Em 1930, o jovem Vasarely se instala em Paris e, para ganhar a vida, trabalha no campo da publicidade e das artes gráficas. Dessa experiência nasceram suas primeiras pesquisas que exploram os efeitos visuais. Mas é em meados da década de 1940 que ele adere à abstração, tendência que marcará a nova geração de artistas modernos da qual faz parte.

No período de 1955 a 1965, desenvolve intensa pesquisa dos efeitos cinéticos na imagem plástica. Nesse momento, Vasarely define os fundamentos do que será, um decênio mais tarde, a op art – uma corrente fundamental na história da abstração. Vasarely utiliza um método científico no campo da percepção da cor e da forma. Resultam imagens instáveis, imagens que parecem se movimentar, em razão do impacto perceptivo. E, com esse procedimento, ele introduz no seu trabalho a dimensão do tempo, ao lado da questão do espaço.

A partir de 1952, o artista realiza a experiência dos Photographismes: amplia seus desenhos e gráficos lineares fotograficamente e utiliza a escala mural. Com a ampliação, as imagens assumem um forte efeito cinético. Ele faz também tiragens de fotos com intenso contraste, combinando-as para obter efeitos ótico-cinéticos. Consegue provocar a sensação de ondulação das linhas. Nesse momento, trabalha com o preto e o branco. Em 1955, expõe, junto com outros artistas, na Galeria Denise René, exibindo um conjunto de trabalhos resultantes dessa experiência. A exposição recebe o título de Le mouvement (“O movimento”). Um folheto é distribuído, à sua entrada, denominado Manifeste jaune (Manifesto amarelo). Nele os artistas expositores anunciam a nova linguagem.

Mais adiante, Vasarely inicia a pesquisa com quadrados, círculos e losangos. Nesse momento, lê intensivamente sobre a teoria da Gestalt. Seu trabalho envolve agora o uso de cartolinas coloridas, de diferentes tons em degradês. Desenha círculos (com compasso), elipses, losangos e quadrados sobre as cartolinas. Recorta-os e os sobrepõe: o círculo sobre o quadrado, o losango sobre o quadrado, etc. E explora, assim, na aproximação das formas coloridas, os efeitos do degradê, gerando resultados cinéticos. Com esse método de trabalho, cria, por exemplo, a sensação de que as esferas se dilatam ou se contraem. Os críticos que acompanham seu trabalho evocam pesquisas científicas sobre a matéria e energia, ressonâncias cósmicas ou o resgate de representações ancestrais do globo terrestre.

A ideia de Vasarely é ver essas formas e efeitos tomarem conta das fachadas no espaço da cidade. O artista quer que sua arte interfira na vida cotidiana. Com a arte, quer mudar a cidade, embelezá-la, torná-la mais humana.

Victor Vasarely realizou muitos trabalhos no espaço urbano, aos quais chamou de “integrações arquiteturais”: o terraço do Palácio do Congresso de Mônaco; a integração em alumínio laquê, no campus de Jussieu da Faculdade das Ciências de Paris; o afresco na Gare Montparnasse; o grande vitral cinético de Bonn – para citar alguns exemplos dessa sua produção, na França e na Alemanha.

Seu projeto Cité polychrome du bonheur toma como matrizes, para serem utilizadas na cidade, as suas colagens e pinturas criadas a partir de unidades plásticas (quadrado, círculo, losango, elipse). Considera-as como protótipos a serem utilizados na remodelação do espaço urbano. Daí utilizar “integração arquitetônica” como palavra-chave desse processo. As primeiras integrações aconteceram na Cidade Universitária de Caracas (1954), em Paris (1960), em Essen (1966), em Bonn (1967) e Grenoble (1968).

O ano de 1976 é um marco histórico desse projeto: inaugura um centro de arte, a Fundação Victor Vasarely, na cidade de Aix-en-Provence, no sul da França. A edificação, que é totalmente por ele financiada, situa-se nas colinas do Jas de Bouffan, um lugar marcante na história da pintura, por causa do trabalho de Cézanne. O projeto arquitetônico da fundação é composto de 16 grandes cubos justapostos, num total de 90 metros de cumprimento, 45 metros de largura e 12 de altura. A fachada de cada bloco é coberta com alumínio adonisado e ornada, alternadamente, ora com um círculo negro sobre fundo prateado, ora com um círculo prateado sobre fundo negro.

Seu centro de arte tem por objetivo principal “combater os ruídos visuais, embelezar o ambiente artificial, criar uma ‘cidade policrômica feliz’”. É um espaço que foi idealizado para acolher e desenvolver reflexões sobre a cidade do futuro, a cidade do amanhã. Uma forte utopia anima seu projeto.

Desde meados da década de 1950, Vasarely se torna mundialmente conhecido. Seu trabalho influencia, igualmente, o design, a moda, o cinema, a televisão, estabelecendo forte elo de comunicação com a sociedade de seu tempo. Como observam os curadores da exposição no Centro Pompidou, a obra de Vasarely se inscreve plenamente no contexto científico, econômico e social dos anos 1960 e 1970.

 

 

.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.