Livro com 1.800 páginas registra história de amor pela arte

Obra póstuma do professor Francisco Maciel da Silveira compila dez anos de reflexões sobre as artes visuais

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O professor Francisco Maciel da Silveira, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que morreu em 2019 – Foto: Editora Na Raiz

Livro com 1.800 páginas registra história de amor pela arte

Obra póstuma do professor Francisco Maciel da Silveira compila dez anos de reflexões sobre as artes visuais

06/08/2020
Por Luiz Prado

Uma epopeia de amor pela arte. É assim que chega ao leitor a obra Pinceladas sobre a Pintura Alheia, um e-book em três volumes e mais de 1.800 páginas escrito por Francisco Maciel da Silveira, professor de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, morto em 2019.

A edição reúne comentários sobre artes, sobretudo a pintura e seus autores, que Silveira registrou ao longo de dez anos em seu site pessoal. O lançamento presta homenagem ao premiado professor, crítico literário, ensaísta, poeta e ficcionista um ano após sua morte, ocorrida em 30 de junho de 2019.

“A obra retrata a visão iconoclasta de um professor de Literatura Portuguesa que aprecia a pintura, arte coirmã da literatura”, comenta a organizadora da publicação, Flávia Maria Ferraz Corradin, também professora de Literatura Portuguesa na FFLCH e viúva de Silveira.

“Sem deter conhecimento formal acerca de pintura”, escreve Flávia no prefácio do primeiro volume, “foi o gosto pela arte da cor, germinado desde sempre, mas efetiva e exaustivamente cultivado nas incansáveis visitas a museus ao redor do mundo, que o levaram a exercitar de modo assistemático e irreverente suas considerações em torno do que sua retina percebia.”

Ao deslizar pelas páginas virtuais, o que o leitor encontra é uma constelação de comentários personalíssimos, ora irreverentes, ora poéticos, ora as duas coisas juntas. Acompanhado de uma riqueza de imagens ilustrativas, Silveira fala de autores clássicos e contemporâneos, como Velázquez, Degas, Picasso, De Chirico, Frida Kahlo e Francis Bacon. Por vezes, organiza sua apreciação por temas, como autorretratos, pintura abstrata ou mesmo as touradas espanholas.

A professora Flavia Maria Ferraz Corradin – Foto: Reprodução / Currículo Lattes

É perceptível como o professor – cujos trabalhos acadêmicos incluem estudos da oratória sagrada dos padres Antônio Vieira e Manuel Bernardes e da comediografia de Antônio José da Silva, “o Judeu” – se apropria do despojamento que a internet oferece para falar com sinceridade daquilo que aprecia ou desgosta. E também se destaca sua postura humilde quando trata do próprio conhecimento.

“De pintura nada entendo. Só gosto, aprecio”, registra no prefácio da obra. “Vou a museus, exposições, leio livros e catálogos para (digo, brincando a sério) impregnar meus olhos de cromatismo, ângulos, visões. Um modo de ver, por outros olhos, a realidade, desvelando-a. Aqui entre nós, você que está folheando este belo volume que tem às mãos: minha ignorância pictórica pode ser, neste livro, um olhar cirúrgico: operação de catarata. Pinceladas sobre a Pintura Alheia é meu modo de enxergar, malgrado as lentes que me corrigem a miopia e o astigmatismo, a alma dos pintores.”

Do site ao livro

“Essa obra do professor Silveira pode ser caracterizada como uma enciclopédia de artes plásticas com notas sobre outras artes, sobretudo literatura, em especial brasileira e portuguesa”, afirma o editor da obra, Valdir Lamin-Guedes, doutor em Educação pela Faculdade de Educação (FE) da USP e editor-chefe da Editora Na Raiz. “Devido ao seu formato e conteúdo, ela acaba sendo uma ótima introdução ao estudo da história da pintura e de suas técnicas, com rica descrição dos contextos de produções das obras de arte.”

O editor Valdir Lamin-Guedes – Foto: Reprodução / Linkedin

Lamin-Guedes conta que passou a organizar o material disponível no site de Silveira após uma proposta de publicação feita por Flávia. Analisando os escritos, decidiu dividir a obra em oito grandes capítulos – batizados de Iluminuras – e buscou manter aspectos da plataforma original onde eles surgiram.

“Como a obra reúne memórias, relatos e comentários do autor, buscamos com a fonte usada (Lucida Calligraphy) dar a impressão de manuscrito, assim como detalhes da edição, pois queria manter algumas feições do site”, explica o editor. “Por exemplo, o professor Silveira inseria a imagem de um quadro no meio de uma frase, para indicar a que ele se referia. Havia uma “conversa” entre texto, quadros e as referências que o professor Silveira tecia entre estes. Assim, no livro, há frases cortadas pela inserção de uma imagem, assim como diferentes alinhamentos para demonstrar o diálogo entre textos e imagens.”

Segundo Flávia, as anotações mais antigas encontradas sobre o projeto datam de outubro de 2010, mas estas já faziam referências a informações reunidas por Silveira em outros momentos. A professora identifica dois períodos decisivos para o fôlego que resultaria no material reunido em Pinceladas. O primeiro foi logo após uma estadia em Portugal, entre 2011 e 2012, quando o casal viajava com frequência para centros culturais da Europa, como Madri, Paris e Londres.

“A produção das Pinceladas tornou-se mais organizada, ganhou certa periodicidade, mas ainda estava à margem do árduo trabalho como professor, pesquisador, crítico, ensaísta, ficcionista… que lhe tomava grande parte do tempo”, relata Flávia no prefácio. “Ele se dedicava a elas nos finais de tarde, durante sua happy hour.”

O segundo período é 2015, quando Silveira se viu às voltas com um câncer de pulmão que o obrigou a antecipar sua aposentadoria e fez dos textos sobre arte “sua tábua de salvação, remédio para enfrentar operação, quimioterapia, internações hospitalares”, como escreve a professora. Desse momento em diante, intercaladas aos exames de acompanhamento de Silveira, o casal empreenderia viagens frequentes a museus das Américas e da Europa, a base para seus escritos.

“Considero que a obra suscita interesse a todos aqueles que gostam de arte, que pensam diante do objeto artístico, seja ele qual for, livre de amarras conceituais”, comenta Flávia, que cogita a publicação da obra em uma pequena tiragem impressa. “Estas Pinceladas, em última instância, exercitam uma heterodoxia frente à arte, frente à vida.”

Pinceladas sobre a Pintura Alheia, de Francisco Maciel da Silveira, Editora Na Raiz, 1.804 páginas, disponível gratuitamente em editoranaraiz.wordpress.com/homenagem-ao-professor-francisco-m-silveira.

“Estas Pinceladas anárquicas obedecem a ordem nenhuma. Nem cronológica nem estilística. Vão ao sabor de minha revisão de livros, catálogos, museus, exposições: recreio de happy hour, regado a chope, uísque, caipirinha, enfim o que me cai às mãos, findas as oito horas cotidianas de minha (nossa?) escravidão burguesa”, escreve o professor Francisco Maciel da Silveira – Foto: Editora Na Raiz


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A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

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