Ator e personagem se confundem em peça sobre Leonilson

“Ser José Leonilson”, de Laerte Késsimos, está em cartaz até 15 de dezembro no Teatro da USP (Tusp)

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O ator Laerte Késsimos na peça Ser José Leonilson – Foto: Leekyung Kim

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Ultrapassando os limites entre ficção e realidade, ator e personagem, o ator Laerte Késsimos dá vida ao artista plástico cearense José Leonilson (1957-1993) com a peça Ser José Leonilson. Em cartaz desde 14 de novembro, o espetáculo fica até 15 de dezembro no Teatro da USP (Tusp), podendo ser visto de quinta-feira a domingo.

No palco, o monólogo se desenrola envolvendo artes visuais, narração de histórias e documentário. As biografias dos artistas se encontram e Laerte se mistura a Leonilson em diferentes pontos. “É um diálogo direto com a plateia. Então, de certa forma, o público é o interlocutor da peça. Por isso a gente teve que fazer um trabalho muito intenso com o ator para relaxá-lo em cena”, diz Aura Cunha, diretora do espetáculo.

Esta é a primeira peça de Aura como diretora profissional. Ela conta que, embora estivesse um pouco receosa, foi convencida a dirigir o trabalho pelo ator, que já havia trabalhado com ela em outros momentos. “É muito bonito quando você encontra um artista apaixonado pelo que faz, um amor e uma entrega que Laerte e Leonilson parecem ter em comum.”

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Uma produção audiovisual é projetada durante o monólogo – Foto: Leekyung Kim

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Exposição Como se Desenha um Coração? , de Laerte Késsimos, pode ser vista no Centro Universitário Maria Antonia antes e depois da peça Ser José Leonilson

Aura informa que o pano de fundo dramatúrgico da peça são os áudios do próprio Késsimos, durante seu processo de criação, como os de Leonilson, no início dos anos 1990, além de um extenso material audiovisual que é projetado enquanto o monólogo se desenrola.

Késsimos diz ter se colocado muito pessoalmente nesse projeto. “Eu vou refletindo sobre a obra e vida dele, mas também sobre minha vida e meu trabalho. E a peça vai se fazendo a partir daí e da interação com o público”, diz.

Segundo Késsimos, tudo começou três anos atrás, quando decidiu reproduzir algumas das pinturas e outros trabalhos de Leonilson, tamanha era a admiração que sentia pelo artista. A partir daí o ator foi inovando, embora tenha mantido a mesma linguagem visual das obras, e acabou utilizando essa vivência para fazer uma performance, O Porto. A proposta era abrir o lugar onde ele produzia as peças para visitantes e conversar com as pessoas sobre sua vida, seu trabalho, mas, especialmente, sobre Leonilson. 

“A terceira parte de todo esse processo foi mostrar essas composições na exposição Como se Desenha um Coração?”, diz o ator. A mostra também se encontra no Tusp e pode ser visitada antes ou depois do espetáculo, que vem completar essa série de trabalhos sobre o artista plástico que foi Leonilson e o legado que ele deixou.

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Leonilson e Késsimos: personagens que se confundem – Foto: Leekyung Kim

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Eu tento pegar tudo isso que foi José Leonilson, com essa voz política, e trazer para mim”

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A fragilidade da vida

O título da peça se refere ao fato de Késsimos, nos últimos anos, ter efetivamente vivido como José Leonilson, colocando-se em seu lugar das mais diferentes formas possíveis. Segundo o ator, a importância do artista não está apenas no que ele significou para as artes plásticas, mas também no debate que ele levantou sobre viver como soropositivo, fato que repercutiu de forma dominante em sua obra a partir de 1991. Seu último trabalho foi feito para a Capela do Morumbi, em São Paulo, em 1993, e tem um caráter espiritual sobre a fragilidade da vida. 

Para Késsimos, a obra de Leonilson também é bastante atual e tem um forte caráter político. “Pego algumas falas dele para compor a peça e elas ainda servem perfeitamente nos dias de hoje. E, considerando o momento que estamos vivendo, é muito importante retomar esse diálogo.” De acordo com ele, apesar de o Brasil ter evoluído muito, tanto no tratamento quanto no debate sobre a Aids e o HIV, as pessoas que possuem a doença ainda são muito estigmatizadas. “Eu tento pegar tudo isso que foi José Leonilson, com essa voz política, e trazer para mim”, afirma Késsimos, que diz não só interpretar um personagem, mas aprender com ele. “Nessa conversa, o trabalho se mostra ao mesmo tempo poético e pessoal, mas também politicamente ativo”, conclui o ator.

A peça Ser José Leonilson, de Laerte Késsimos, está em cartaz até 15 de dezembro, de quinta-feira a sábado, às 20 horas, e domingo, às 18 horas, no Teatro da USP (Tusp), localizado no Centro Universitário Maria Antonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo). Ingresso: R$ 20,00. Mais informações pelo telefone (11) 3123-5233.

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