Por que Angra dos Reis não deve se transformar em uma Cancún

Rita de Cássia Ariza da Cruz é professora do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=250965
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Rita de Cassia Ariza da Cruz – Foto: Arquivo pessoal

Cancún, cidade localizada no estado de Quintana Roo, foi planejada pelo Estado mexicano, no final da década de 1960, para ser um balneário internacional, objetivo que, como todos sabem, foi alcançado. O que, todavia, muita gente desconhece, incluindo aqueles que fazem apologia ao “modelo Cancún”, é que, por trás de um destino turístico de sucesso, escondem-se profundas contradições sociais, econômicas e ambientais, sobre as quais trataremos, brevemente, a seguir.

Podemos começar falando da forma autoritária como projetos urbano-turísticos foram impostos ao povo mexicano ao longo do século 20, mediante políticas verticalmente desenhadas por sucessivos governos e com resultados sociais e ambientais absolutamente questionáveis.

De acordo com o renomado geógrafo mexicano Daniel Hiernaux-Nicolas, professor da Universidade de Querétaro, o projeto governamental de desenvolvimento do turismo no seu país baseou-se, historicamente, desde meados do século 20, em um modelo fordista, voltado, basicamente, ao turismo de massa, do que resultou a grande projeção internacional de localidades como Acapulco, Vera Cruz e a própria capital, Cidade do México. Entretanto, como afirma o autor, apesar do crescimento constante do número de visitantes para o México após a implementação de resorts litorâneos como Cancún, nem sempre a balança de pagamentos do turismo mexicana foi positiva, considerando o fato, por exemplo, de muitos gastos efetuados por turistas ocorrerem em seus países de origem, como no caso do transporte aéreo, dos serviços oferecidos por operadoras e dos pacotes turísticos do tipo all inclusive. O momento atual, de forte oligopolização no setor de turismo, dominado por pequenos grupos de grandes corporações, tanto no que se refere à produção de viagens como à hotelaria, o que se soma ao fator cambial e a outros fatores macroeconômicos, permite compreender por que, por exemplo, no caso brasileiro, assim como no mexicano, a “conta turismo” nem sempre é positiva.
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Cancún – Foto: Dronepicr via Wikimedia Commons / CC BY 3.0

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Por outro lado, o desenvolvimento planejado de Cancún comportou, tal como ocorrido no caso de Brasília, uma ocupação contraditoriamente não planejada, derivada de um crescimento explosivo, decorrente da migração de milhares de trabalhadores em busca de uma oportunidade de trabalho, como apontado por Ordóñez e Fuentes (2003). Entre os resultados espaciais desse processo encontram-se, conforme os autores, “bolsões de marginalização” onde o déficit de serviços básicos, produção elevada de dejetos contaminantes e consequente depredação de ecossistemas locais escancaram a vulnerabilidade social e ambiental promovida pelo “modelo Cancún”.

Segundo Calderón-Maya e Orosco-Hernández (2014, p. 172), o modelo de urbanização urbana de Cancún “se expressa pela obsolescência e deficiência dos serviços públicos, no envelhecimento da infraestrutura e do equipamento turístico, escassa renovação urbana, opções recreativas limitadas, especulação imobiliária em áreas de reserva, mas sobretudo pelo impacto irreversível sobre os ecossistemas naturais”.

Ao analisarem as conseqüências do desenvolvimento turístico de Cancún sobre a cobertura vegetal, Villegas e Carrascal (1999, p. 161) afirmam, por sua vez, que “a dinâmica de apropriação do solo pela atividade turística incidiu, de modo notável, sobre a superfície ocupada por diferentes comunidades vegetais”, de modo que, nos anos 1990, cerca de 19% da cobertura vegetal original da região já havia sido subtraída por obras diversas, como aeroporto, estradas de acesso ao balneário e implementação de hotéis.
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Angra dos Reis – Foto: Dj. Wilson Alexandre via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

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Aos autores citados, somam-se diversos outros cujas pesquisas afirmam, por um lado, a fragilidade ambiental dos ecossistemas de Cancún, que abarcam dunas, restingas e manguezais, e, por outro, a falibilidade de seu modelo de desenvolvimento turístico, tanto do ponto de vista ambiental quanto social, razão por que deveríamos, isto sim, olhar com maior responsabilidade e cuidado para nossa própria realidade.

Além de tudo, qualquer tentativa de replicar o sucesso de Cancún no que tange aos milhões de turistas atraídos para a região onde a cidade se localiza deve levar em conta a questão elementar de que o México é vizinho de um dos maiores emissores de turistas do planeta, os Estados Unidos. Não queremos com isso dizer que a localização geográfica é determinante dos fluxos turísticos recebidos por uma cidade ou região, seja ela qual for, mas sim que as geografias produzidas pelo turismo mundial explicitam ser o desenvolvimento da atividade resultante de uma convergência de fatores entre os quais a localização joga, sem dúvida, papel importante.

Por fim, considerando nossos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e as inquestionáveis potencialidades paisagísticas, ambientais e socioculturais do Brasil, é lastimável que se cogite replicar aqui um modelo de urbanização para o turismo assentado na flexibilização de legislação ambiental e na urbanização maciça, que beneficia, prioritariamente, especuladores imobiliários e grandes corporações atuantes no setor de turismo, incluindo os cruzeiros marítimos.

Um outro caminho, social e ambientalmente mais democrático, seria a construção de uma política nacional para o turismo que pense o território brasileiro na sua integralidade e diversidade, no lugar de mimetizar aqui um modelo cujas contradições estão mais que evidenciadas.

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