Cães de centros urbanos também estão suscetíveis à leptospirose

Alguns cães infectados estavam com uma leptospira detectada, até então, apenas em animais de criação ou silvestres

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Pesquisador encontrou cães infectados com a bactéria leptospira em três populações de animais: errantes, de um canil e de dois abrigos de São Paulo e de Mogi das Cruzes, na região metropolitana da capital – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

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Pesquisa da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP sugere que cães podem estar participando da cadeia de transmissão da leptospirose em grandes centros urbanos. O estudo foi realizado pelo médico veterinário Bruno Alonso Miotto e teve o objetivo de avaliar a presença de cães infectados com leptospiras (bactéria causadora da doença) em três populações de animais (errantes, de um canil e de dois abrigos) nos municípios de São Paulo e Mogi das Cruzes.

A bactéria, transmitida através da urina de mamíferos infectados, foi encontrada pelo veterinário nas três populações avaliadas. Um dos achados inéditos é que, pela primeira vez, os pesquisadores detectaram cães infectados com a Leptospira santarosai, espécie somente encontrada, até então, em animais silvestres ou de criação, como búfalos, ovelhas e vacas.

Um dos achados inéditos é que, pela primeira vez, os pesquisadores detectaram cães infectados com a Leptospira santarosai, espécie somente encontrada, até então, em animais silvestres ou de criação, como búfalos, ovelhas e vacas. Foto: Marcos Santos / USP Imagens

De acordo com Miotto, existem mais de 260 tipos de leptospiras que infectam mamíferos e cada um costuma se adaptar aos seus respectivos hospedeiros. A transmissão ocorre via contato direto com a urina ou água contaminada, como as de enchentes. A bactéria penetra através de mucosas (ao coçar os olhos, por exemplo), de ferimentos ou quando a pele está fragilizada devido ao contato excessivo com a umidade e a água. A leptospirose se apresenta nas formas sintomática ou assintomática mas, nos dois casos, pode haver transmissão. Os sintomas, que se confundem com outras doenças, vão desde dor de cabeça, dor muscular e febre, até hemorragia pulmonar, falência geral de órgãos e, nos casos mais graves, pode provocar a morte. “Os cães portadores não apresentam nenhum sintoma ou alteração laboratorial, mas ainda assim podem eliminar a bactéria pela urina por longos períodos de tempo, configurando o cão como importante fonte de infecção”, destaca o pesquisador. O tratamento é feito com antibióticos.

Em um dos abrigos, dos 92 animais testados, pelo menos 10 eram portadores assintomáticos. No canil de Mogi das Cruzes, dos 24 cães analisados, foi encontrado apenas um nestas condições. Da população errante avaliada, foram diagnosticados dois animais com leptospiras. “Identificamos a L. santarosai em três cães, um em cada população. Mas percebemos que as bactérias que encontramos eram muito semelhantes entre si, ao mesmo tempo que eram diferentes das L. santarosai já identificadas em outros mamíferos. Possivelmente, isso indica que esta bactéria pode estar se adaptando ao infectar cães de forma assintomática”, sugere o veterinário.

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O pesquisador conta que, desde 2008, uma lei do Estado de São Paulo proíbe a eutanásia de cães em abrigos coletivos. Para Miotto, trata-se de uma boa medida, do ponto de vista do bem-estar animal. Porém, ao mesmo tempo, é bastante difícil sustentar uma infraestrutura adequada diante de tantos animais, visto que a maioria dos abrigos públicos e das Organizações Não Governamentais (ONGs) dedicadas à causa animal atuam quase sempre em suas capacidades máximas de alojamento.

“O aumento da concentração de cães nesses locais eleva as chances de transmissão da leptospirose”, adverte Miotto. Com a superpopulação, as condições desses abrigos costumam ser de pouca higiene, favorecendo a disseminação de doenças e bactérias, incluindo as leptospiras. Por isso é importante garantir que esses locais tenham condições higiênicas apropriadas para evitar a transmissão. Como a castração e, principalmente, a adoção de animais permanece como a única estratégia de controle populacional de cães errantes, a pesquisa também se debruçou sobre a possibilidade de adoção de animais aparentemente saudáveis, mas que podem eliminar a bactéria de forma insidiosa.

Diagnóstico complexo

O diagnóstico da leptospirose é complexo. Primeiro envolve uma parte clínica, de avaliação dos sintomas, juntamente com dados obtidos a partir de um inquérito epidemiológico. Depois, são necessários exames laboratoriais de rotina, como hemograma e avaliação da função renal e hepática, além de testes sorológicos e moleculares para identificação da bactéria. O tratamento é, em geral, realizado com administração de antibióticos por 14 dias.

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O problema, segundo o veterinário, é que, quando um animal é colocado para a adoção, não existe nenhum exame específico, rápido e prático que identifique se existe a bactéria em amostras de urina de animais aparentemente saudáveis. “Eu dispus de condições de fazer essa avaliação porque tive acesso a um laboratório com reagentes caros que foram financiados por meio de uma bolsa de estudos. Mas, em termos práticos, essa técnica não é aplicável no cotidiano de um canil”, lamenta.

Para o pesquisador, é preciso desenvolver novos protocolos de tratamento que sejam seguros, práticos e que não promovam o desenvolvimento de resistência bacteriana, mas que, ainda assim, possam prevenir a adoção de cães portadores da bactéria leptospira, já que o diagnóstico de animais nestas condições depende de técnicas pouco disponíveis e caras.

O trabalho de Miotto foi realizado de 2012 a 2016. No início, tratava-se de uma dissertação de mestrado, mas com o desenrolar do projeto o pesquisador foi convidado a fazer o chamado doutorado direto, o que lhe garantiu mais dois anos de estudo.

A pesquisa está disponível na Biblioteca de Teses e Dissertações da USP e rendeu também um artigo publicado na revista Plos One.

Mais informações: e-mail brunomiotto@hotmail.com, com Bruno Miotto

Com informações de Mariangela Castro

Atualizado em 05/02/2019, às 13h35

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