Nova gaiola deixa roedores menos estressados e pesquisas mais fidedignas

Com os animais vivendo estimulados e em melhores condições, experimentos resultam em dados mais fidedignos

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Além de reduzir as complicações e o estresse dos animais durante a limpeza das gaiolas convencionais, novo equipamento também contempla o enriquecimento ambiental e o bem-estar dos animais – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Acaba de ser liberada a patente para uma nova gaiola modular, a ser utilizada em estudos com roedores. O equipamento, desenvolvido por pesquisadores na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, contém ambientes em andares interligados por passagens, rampas, tubulações intercomunicantes, além de abrigos e objetos, permitindo aos animais conviverem entre si, estimulados de uma maneira mais próxima ao que acontece na natureza. A invenção substitui as gaiolas convencionais de laboratórios de pesquisa e poderá ter utilidade também em lojas de pets e residências. A patente foi concedida pela Agência USP de Inovação (Auspin) na categoria Máquinas e Equipamentos.

Vista esquemática em planta mostrando o conteúdo de dois módulos interligados

Interferência nos resultados

A pesquisa científica feita em laboratório, seja para criação de novos medicamentos, seja para a produção de vacinas, de soros, cosméticos ou suplementos alimentares, necessita de roedores para a realização dos experimentos. Os ratos e os camundongos são os animais mais utilizados por terem similaridades com o organismo humano em termos fisiológicos e genéticos. Além de serem pequenos, são fáceis de manipular e se reproduzem e atingem a maturidade rapidamente. No entanto, “a forma como eles são mantidos em laboratórios, com pouco espaço de movimentação, pode interferir nas respostas e nos dados das pesquisas. O ideal seria que eles pudessem ser mantidos numa condição semelhante à que encontram na natureza, de forma que desenvolvessem naturalmente os comportamentos de sua espécie”. É sobre estas condições ambientais que a gaiola modular impacta, explica Carlos Portela, autor do invento. Além de reduzir as complicações e o estresse dos animais durante a limpeza das gaiolas convencionais, o novo equipamento também contempla o enriquecimento ambiental e o bem-estar dos animais.

Vista em perspectiva de dois módulos unidos

O equipamento é composto de módulos com diferentes ambientes e pavimentos, que permitem que os animais se desloquem e tenham mais interação entre eles. O ambiente mais ativo provoca individualmente estímulos nos roedores, que reagirão de acordo com sua própria genética, o que no final dará respostas diferentes aos resultados e aos efeitos dos fármacos testados neles, diz o pesquisador.

A gaiola modular foi criada para ser utilizada em laboratórios de pesquisas científicas, mas pode ser adaptada e instalada em residências para uso de animais domésticos, tais como gatos, chinchilas, etc. A gaiola promove maior atividade física nos animais, que são mais estimulados ambiental e sensorialmente. Isso impacta sua qualidade de vida, favorece a aprendizagem, a saúde e até a reprodução.

Biotério convencional

“A invenção substitui as gaiolas convencionais de laboratórios de pesquisa e poderá ter utilidade no setor comercial de pets”, relata Carlos Portela, autor da patente – Foto: Arquivo pessoal

Nos biotérios, onde são mantidos os animais dos experimentos científicos, cada gaiola tem o tamanho de cerca de duas caixas de sapato e abriga normalmente  cinco ratos. De acordo com Portela, neste espaço reduzido, eles não podem ficar de pé e mal se locomovem. “Seria como se cinco pessoas vivessem em um cômodo de 2 por 3 metros forrado de palha, onde ninguém pode se levantar e todos dormem, comem, bebem, defecam e urinam no mesmo lugar”, compara. Embora a caixa dos ratos seja limpa a cada dois ou três dias e fique sob temperatura, umidade e iluminação controladas, os roedores, que naturalmente são sociais, quase sempre passam a vida isolados, engordando e sem estimulação física e ambiental.

Carlos de Paula Portela é graduado em psicologia, fez mestrado no Instituto de Psicologia da USP, doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e pós-doutorado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP. O invento Disposição Modular Intercomunicante para Estudos foi desenvolvido durante o período de pós-doutorado em conjunto com José Bernardino Merusse.

Mais informações: e-mail: profdrcarlosportela@gmail.com, com Carlos Portela

 

 

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