Empreendedorismo social pode crescer com ajuda da contabilidade

Pesquisador defende aproximação entre contadores e microempreendedores para promover o ramo dos negócios sociais

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O empreendedorismo social é um fenômeno recente no mundo, surgido em meados dos anos 2000, e que vem se multiplicando inclusive no Brasil. São empreendimentos que, como qualquer outro na lógica capitalista, visam ao lucro, mas têm um objetivo maior: o impacto social e o retorno que podem trazer à comunidade na qual estão inseridos ou, dependendo de sua dimensão, a toda a sociedade.


Esse tipo de iniciativa foi tema da pesquisa de mestrado do contador William Martins de Gouveia, que diz ter descoberto os negócios sociais graças a uma disciplina que cursou no Mestrado Profissional em Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.

“As pesquisas em contabilidade em geral contemplam os grandes negócios, a atuação dos contadores na manutenção e crescimento do lucro de grandes empresas, por exemplo. Eu acredito que devemos prestar mais atenção aos pequenos empreendimentos, que geram a maior parte dos empregos no País e são responsáveis por uma grande parcela do PIB, além de terem influência na comunidade em que atuam, por isso queria pesquisar esse tipo de negócio desde o início”, diz Gouveia.

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Devido à novidade de seu objeto de estudo, o pesquisador teve dificuldade para encontrar informações a respeito na literatura, o que o levou a fazer uma pesquisa de campo, entrevistando empreendedores da área e os contadores responsáveis por suas empresas para entender sua relação. Isso, porém, também trouxe dificuldades a Gouveia. “Entrei em contato, se não me engano, com 54 empresas, e só tive oito respostas, e só consegui falar com a contadora responsável por uma delas”.


Entre as empresas com as quais o pesquisador conseguiu contato estão uma organização paulista, fundada em 2015 com o objetivo de organizar eventos para arrecadação de doações a organizações não governamentais (ONGs), a mineira De-Lá Produtos do Campo, que desde 2009 faz a ligação entre consumidores e pequenos produtores rurais do interior de Minas Gerais, e a gaúcha Jogo de Damas, de 2012, que realiza workshops, palestras e cursos para mulheres empreendedoras com o objetivo de alavancar suas carreiras e proporcionar a elas independência financeira.

Segundo Gouveia, das microempresas com as quais conversou, nenhuma chegou ao patamar de gerar lucro e poucas têm estabilidade financeira, situação que ele acredita que poderia ser revertida. “A mais antiga das empresas que entrevistei é a De-Lá, de 2009. Ou seja, a maioria dessas empresas ainda não teve tempo suficiente para crescer. Mas, além disso, em geral os empreendedores desse ramo não têm formação em administração ou gestão de negócios, abrem a empresa por acreditar que pode gerar algo bom para a comunidade, sem saberem de fato como mantê-la em pé e fazê-la crescer, e os contadores poderiam auxiliá-los nisso.”

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O profissional da contabilidade, de acordo com o pesquisador, é como um médico para empresas, mas falta aproximação entre as partes. “A maioria das pessoas que entrevistei enxerga no contador apenas uma forma de pagar menos impostos; uma delas mal sabia quais serviços o contador contratado por ela prestava, o que dá noção do tamanho desse distanciamento. Além disso, entre os próprios profissionais da área hoje no mercado há ainda um pensamento predominante de que a função do contador é calcular, não aconselhar.”


Das empresas que responderam as perguntas de William Gouveia, apenas uma não contava com os serviços de um contador, e somente um dos contadores retornou o contato do pesquisador. “Foi justamente uma profissional que, para a minha surpresa, se mostrou diferente do perfil predominante no mercado. Ela era responsável pelas contas da Jogo de Damas e esteve envolvida desde o início com a empresa, ajudou a montar o plano de negócios, aconselhou sobre como arrecadar recursos, cuidar da receita e pagar tributos da melhor maneira. Fez muito mais do que normalmente se acredita ser a função de um contador.”

Gouveia vê na má relação entre microempreendedores e contadores uma via de mão dupla: o setor das microempresas é negligenciado academicamente e no mercado da contabilidade, e os microempresários têm uma visão limitada do papel de um contador. “Os profissionais da contabilidade têm que estar mais próximos de seus clientes microempreendedores, que podem se beneficiar muito não só no corte de custos e na economia de taxas, mas também com conselhos na tomada de decisões num empréstimo, por exemplo.”


O pesquisador afirma que o ramo dos negócios sociais é promissor, pois o consumidor cada vez mais se preocupa com a origem dos produtos que adquire e com questões como responsabilidade social e ambiental. “Minha intenção com a pesquisa foi fazer com que mais conheçam esse tipo de empreendimento, chamar a atenção para ele na área da contabilidade, e também mostrar que os empreendedores sociais devem contar com profissionais da contabilidade de diferentes maneiras para alavancar seus negócios.”

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