Idosos fortalecem a memória e criam vínculos em oficina oferecida pela USP

Alunos e professores do curso de Fonoaudiologia da USP em Ribeirão Preto promovem oficinas de memória para pessoas da terceira idade

 30/11/2021 - Publicado há 2 meses
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Arte por Rebeca Alencar com imagens de Flaticon

 

Lembranças da infância ou se você trancou a porta de casa são tarefas ligadas à memória, que nada mais é do que a nossa capacidade de armazenar e recuperar informações quando precisamos recordar de algo, de alguém ou de um momento. Entretanto, com o avanço da idade e com a diminuição das atividades, podem aparecer falhas na memória.

Para estimular o funcionamento cerebral e a memória de idosos, alunos e professores do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP promovem oficinas para idosos cadastrados nas Unidades de Saúde da Família (USF) localizadas na zona oeste de Ribeirão Preto. Os encontros, que acontecem há 10 anos, são feitos de forma presencial com duração de 50 minutos semanais.

Tatiane Martins Jorge – Foto: Lidia Muradas

“Inicialmente, realizamos um relaxamento seguido de treinamento de memória de curto prazo. Durante as atividades, eles recebem estímulos auditivos, visuais e táteis e são levados a usar estratégias de memorização. Esses estímulos são aumentados em quantidade e complexidade, conta a professora Tatiane Martins Jorge, da FMRP, que é fonoaudióloga e supervisora da oficina.

Mas os benefícios vão além do exercício do cérebro, os participantes têm a oportunidade de se aproximar dos colegas e fortalecer vínculos, aumentando a rede de apoio. As trocas de experiências e reflexões são exploradas nas atividades durante as oficinas em ações temáticas que vão de dengue à reciclagem.

“Com essas atividades estamos estimulando a memória, que é fazer com que as conexões entre os neurônios ou células nervosas do cérebro sejam ativadas e fortalecidas. Sempre que eu aprendo algo novo ou experimento um desafio, permito que meu cérebro forme novas e mais fortes conexões”, explica Tatiane.

Entre os participantes estão as irmãs Terezinha de Jesus Dacanal, de 81 anos, e Aparecida Maria Dacanal Cossalter, de 78 anos. “Participar dos encontros ajuda a manter contato com outras pessoas, diferentes rotinas, o que nos mantêm ativas e saudáveis física e mentalmente. Além da manutenção da memória, agilidade mental, reflexo e concentração”, conta Terezinha.

Terezinha de Jesus Dacanal e Aparecida Dacanal Cossalter, participantes da oficina – Foto: Arquivo pessoal

 

Os encontros deixaram de ser presenciais por causa da pandemia, mas os idosos participantes recebem atividades individualmente por aplicativo de mensagens e vídeos com dicas para continuar treinando a memória. “Sentimos falta da oficina, mas os alunos e a professora Tatiane adaptaram atividades para realizarmos em casa. Dessa forma, pudemos ter contato com os alunos, aprender algo e podemos de certa forma diminuir a saudade de não estarmos todos juntos”, completa.

Envelhecimento e memória

De modo geral, a manutenção das atividades cerebrais exige uma boa saúde, com alimentação equilibrada, estabilidade emocional e organização da rotina para estar atento aos estímulos e, assim, conseguir registrar, armazenar e recuperar informações quando necessário.

Oficina de Memória – Foto: FMRP

Assim como o treino muscular é importante para o fortalecimento dos músculos, exercitar o cérebro frequentemente também auxilia as conexões entre os neurônios e, consequentemente, a memória. “Por isso, mesmo que os idosos estejam fora do ambiente de trabalho, precisam buscar oportunidades de novas experiências com jogos, trajetos ou receitas”, revela a professora.

Mas engana-se quem pensa que o envelhecimento é sinônimo de perda de memória, explica a fonoaudióloga. “Apesar da perda de neurônios e do processamento mais devagar das informações, manter-se ativo com ocupações de interação e aprendizagem contribui para a preservação da atenção e da memória.”

Entretanto, condições de saúde podem provocar esquecimentos ou dificuldade de aprendizagem, como a doença de Alzheimer. Por isso, é importante procurar uma avaliação médica ao ter sintomas de esquecimento em qualquer idade ou fase da vida.

Como treinar a memória no dia a dia

O estímulo da memória para aumentar e fortalecer as conexões cerebrais é algo que pode ser aplicado de forma constante na rotina. “Todo processo de aprendizagem exige memória, como aprender a usar aplicativos no celular, uma nova receita ou até um jogo. Além da abertura ao novo, é importante se desafiar com estratégias de memorização”, conta Tatiane.

Ela explica que estacionar o carro no shopping ou mercado pode ser uma boa oportunidade. Afinal, é necessário olhar com atenção para a vaga escolhida, perceber o espaço ao redor, estar atento às referências e imaginar qual trajeto será feito na volta ao automóvel.

Já na ida ao mercado, a dica é fazer uma lista de compras a partir dos itens faltantes ou insuficientes. “É preciso depositar atenção no processo. Por exemplo, abrir o armário do banheiro, verificar que está faltando desodorante, anotar em uma folha e partir para os próprios cômodos da casa”, revela a professora.

Ao finalizar a lista, o idoso pode seguir para uma estratégia de memorização que é o agrupamento de itens. Ou seja, separar a lista em categorias de produtos de higiene pessoal, frutas, legumes, entre outras. “Antes de ir ao mercado, recomenda-se ler em voz alta, colocar a lista no bolso e fazer as compras a partir da lembrança. No final, pode-se conferir se lembrou de tudo com a lista”, finaliza.

Da teoria para a comunidade

Além da oficina de memória com idosos, os alunos do curso de Fonoaudiologia da FMRP oferecem a oportunidade de desenvolver outras atividades com crianças, jovens, pais, professores e responsáveis em escolas de ensino infantil e fundamental. As ações fazem parte da disciplina Estágio em Atenção à Comunidade e é feita com graduandos do segundo e terceiro anos.

Patrícia Pupin Mandrá – Foto: Arquivo pessoal

“Para a população, o benefício das atividades é a promoção, prevenção e detecção das alterações na comunicação. Já para os alunos, é a possibilidade de se aproximar da comunidade, aprender a reconhecer necessidades e adquirir conhecimento com apoio dos docentes”, conta a professora Patrícia Pupin Mandrá, coordenadora da disciplina de Estágio em Atenção à Comunidade.

Já para o graduando Gilberto Leal, a experiência é positiva em diversos aspectos, como contato com equipe multidisciplinar da área da saúde e com a população. “É uma disciplina que é praticamente um divisor de águas, nos sentimos profissionais de saúde e entendemos a importância de um atendimento humanizado e empático”, completa.


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