Estudo compara disfunção de sexualidade em mulheres que foram ou não vítimas de violência sexual

Pesquisa com 610 mulheres com a disfunção atendidas no Ambulatório de Estudos da Sexualidade Humana do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto mostrou que 22% sofreram violência sexual na infância ou vida adulta

 Publicado: 25/11/2021  Atualizado: 29/11/2021 as 15:46
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Todos os abusadores do estudo eram homens e, a maioria, do círculo de convívio, como pai, tio, avô, padrasto, primo e vizinho. Muitas vezes, esse tipo de violência ocorre na infância, por isso, é importante que as mães fiquem atentas às mudanças de comportamentos das crianças, sejam do sexo feminino ou masculino. Violência contra mulheres – Foto: Governo da Bahia/Creative Commons

 

Pesquisa aponta que 22% de 610 mulheres atendidas no Ambulatório de Estudos da Sexualidade Humana do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP com disfunção de sexualidade relatam ter sofrido violência sexual na infância ou na idade adulta. Para o estudo, esse tipo de violência foi considerado como qualquer ato, tentativa ou comentário sexual indesejado ou estupro, independentemente do ambiente em que ocorreu. Quanto à disfunção, trata-se do comprometimento de alguma etapa da resposta sexual feminina durante o sexo.

“Normalmente, as vítimas começam a consulta com uma queixa que não tem diretamente a ver com a questão do abuso. Não tem uma característica clínica específica para suspeitar que aquela mulher sofreu violência sexual, é preciso abordar especificamente o tema para descartar ou confirmar”, conta a professora Ana Carolina Japur de Sá Rosa e Silva, coordenadora da pesquisa publicada em maio no Journal of Sex & Marital Therapy.

O estudo contou com levantamento de dados de prontuários médicos de 610 mulheres que passaram por consulta ginecológica entre 2004 e 2017 com disfunção sexual feminina. Elas foram divididas em grupo controle, com pacientes em que a disfunção era causada por outras condições clínicas, e um outro, formado pelas vítimas de violência sexual.

Apesar de as mulheres do grupo controle terem alguma condição clínica para a disfunção, as pesquisadoras não encontraram indícios específicos para a equipe médica suspeitar da violência sexual. Além disso, os dois grupos relataram ter menor desejo sexual, dificuldade para excitação e anorgasmia (dificuldade ou incapacidade de chegar ao orgasmo) como sintomas.

“A nossa intenção é que o ginecologista saiba identificar as vítimas e possa esclarecer dúvidas sobre questões físicas e quebrar mitos e tabus sobre o sexo. Já em casos em que o atendimento especializado é necessário, o médico pode fazer o encaminhamento”, explica Ana Carolina.

Entre os resultados do estudo está a maior probabilidade de depressão e ansiedade entre as vítimas de violência sexual, em relação ao grupo controle. “A depressão, assim como o uso de drogas antidepressivas, foi mais prevalente nas mulheres vitimadas. O resultado não é surpreendente se considerarmos os impactos negativos da violência sexual na vida de uma pessoa”, afirma a médica Lucia Alves da Silva Lara, uma das autoras do estudo e coordenadora do Serviço de Saúde Sexual do setor de Reprodução Humana do HCFMRP.

Violência contra mulheres – Foto: Pedro Guerreiro / Arquivo Ag. Pará / Sejudh

 

Outro resultado do estudo é que 19% das vítimas relataram que os parceiros sexuais tiveram um relacionamento extraconjugal. “As vítimas relataram que os parceiros eram mais agressivos e infiéis, sendo que as do grupo controle relataram que os parceiros eram mais afetuosos. Além disso, as mulheres vitimadas eram mais propensas a ter problemas de relacionamento”, conta a professora.

No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, as vítimas têm atendimento de uma equipe multidisciplinar formada por ginecologista, psiquiatra, psicóloga e fisioterapeuta. A abordagem inclui a obtenção de um histórico de forma empática, além de exame físico geral, ginecológico, teste de laboratório e avaliação por meio de uma entrevista semiestruturada feita de forma presencial.

“Todos os abusadores do estudo eram homens e a maioria do círculo de convívio, como pai, tio, avô, padrasto, primo e vizinho. Muitas vezes, o abuso ocorre na infância, por isso, é importante que as mães fiquem atentas às mudanças de comportamentos das crianças, sejam do sexo feminino ou masculino”, alerta a professora Ana Carolina.

Mais de 92% dos abusadores são conhecidos da vítima

Entre as participantes que relataram ter sofrido violência sexual, a faixa etária do abuso variou dos 3 aos 47 anos, sendo que 92,31% dos agressores eram próximos à vítima. “Todos os abusadores do estudo eram homens e a maioria do círculo de convívio, como pai, tio, avô, padrasto, primo e vizinho. Muitas vezes, o abuso ocorre na infância, por isso, é importante que as mães fiquem atentas às mudanças de comportamentos das crianças, sejam do sexo feminino ou masculino”, alerta a professora Ana Carolina.

Além das professoras Ana Carolina e Lucia, o estudo Comparison of Sexual Dysfunction in Women Who Were or Were Not Victims of Sexual Violence tem como primeira autora a médica Juliana Ribeiro Figueira e contou com a coautoria da pesquisadora Maíra Cristina Ribeiro Andrade, todas da FMRP.

Políticas públicas, formação médica e educação sexual

Como políticas públicas para o atendimento de mulheres vítimas de violência sexual, as professoras apontam a importância de formar ginecologistas que saibam fazer a abordagem adequada. “Há dez anos, graduandos na FMRP e residentes no HCFMRP aprendem como abordar a questão com a paciente e quando se deve encaminhar para o atendimento especializado”, conta Ana Carolina, professora da FMRP.

“É necessário ensinar sem cunho sexual para crianças entre 6 e 8 anos que o toque na genitália não pode ocorrer, porque ela não vai entender o que está acontecendo em um abuso, mas vai compreender que ninguém pode tocar naquela região do corpo”, finaliza Ana Carolina.

A médica Lucia Lara conta ainda que a formação envolve descartar condições físicas que podem ter levado à disfunção sexual e investigar sobre o histórico de violência da paciente. “Nós treinamos para fazer essa abordagem e mostrar que a paciente não tem culpa.”

Outro ponto listado como política pública é a educação sexual voltada para os professores e famílias, além das crianças. “Os estudos mostram que a educação na escola é o caminho, não é sobre ensinar a criança o que é fazer sexo, mas orientar professores e pais para identificar comportamentos e responder às dúvidas da criança de forma adequada para a idade e sem mentir”, conta Lucia. Além disso, explica que a mãe ou responsável deve ser a pessoa adequada para direcionar para a criança quem pode auxiliar na troca, no banheiro e tocar na genitália.

“É necessário ensinar sem cunho sexual para crianças entre 6 e 8 anos que o toque na genitália não pode ocorrer, porque ela não vai entender o que está acontecendo em um abuso, mas vai compreender que ninguém pode tocar naquela região do corpo”, finaliza Ana Carolina.

Mulheres e a culpa pelo abuso sexual infantil

Muitas vezes, a culpa de ter sofrido abuso sexual na infância impede a mulher de ter prazer na vida adulta. “A genitália tem terminações nervosas que dão prazer e a criança que sofre o abuso não tem condições de julgar que aquele toque não pode acontecer. Como normalmente o abusador é alguém próximo e que ela gosta, a interpretação é de que aquilo é um carinho”, afirma Lucia.

Abuso sexual – Foto: Pixabay

 

Ela diz ainda que a criança passa a entender que aquela ou aquelas situações não deveriam ter acontecido ao crescer e receber informações relacionadas ao comportamento sexual adulto. “As vítimas não têm condições de falar que o agressor adulto é o culpado, porque ela sente culpa, como se tivesse permitido. Não tem capacidade de fazer um julgamento adequado mesmo na fase adulta da situação e é preciso que nós, profissionais da saúde, expliquemos que ela foi vítima e que não tem culpa”, explica.

Como funciona a resposta sexual nas mulheres?

Já que a disfunção sexual feminina é caracterizada por um desvio no padrão normal ou esperado durante a relação, como funciona essa resposta nas mulheres? A professora Ana Carolina conta que tudo começa com o desejo que pode ser espontâneo ou desencadeado por estímulos, como: visual, auditivo, tato ou até olfativo através de música, perfume, aparência física do parceiro ou parceira e beijo.

A segunda etapa é quando a mulher engaja com a atividade sexual. “Essa é a fase de excitação em que ela vai aumentar o desejo e ter uma resposta orgânica com a lubrificação vaginal, se preparando para uma relação com penetração”, explica.

Depois, a mulher pode ou não atingir o orgasmo e iniciar a retomada do estado normal. “É importante ressaltar que o fato de não ter tido o orgasmo não significa que não foi satisfatório, porque para ela pode ser que o carinho e a troca de sensações sejam muito mais prazerosos”, aponta.

Neste sentido, a disfunção sexual feminina é quando há alguma dificuldade, mudança ou insatisfação em algumas destas etapas. Entre os exemplos estão: a anorgasmia; não ter a fase de excitação por sentir dor; e não ter desejo espontâneo ou com estímulo. “O nosso papel como ginecologista é identificar o porquê, qual fase da resposta sexual está comprometida e tentar abordar”, diz Ana Carolina.

A professora explica ainda que alguns casos são possíveis resolver na consulta com orientações e informação. Entretanto, mulheres que sofreram violência sexual e possuem disfunção nessa área precisam de um encaminhamento para uma equipe multidisciplinar formada por profissionais médicos, psicólogos, sexólogos e fisioterapeutas, por exemplo.

Violência sexual: como denunciar?

As denúncias de violência sexual podem ser feitas no Disque 100 ou no Ligue 180, que são serviços gratuitos para casos de violação de direitos humanos. O atendimento funciona 24 horas por dia, de domingo a domingo, e envolve o encaminhamento para os órgãos competentes. Mais informações neste link.


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