Romance de ex-aluno da USP mistura nazismo e mensalão

Ubiratan Muarrek e o seu “Um Nazista em Copacabana” trazem diálogos complexos e personagens profundos ao leitor brasileiro

Por - Editorias: Cultura
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“Eu definiria o Um nazista como um romance que tenta explorar o que é estar vivo e atento no Brasil de hoje, com muito humor, com muita ironia. Porque em última análise é esse humor e essa ironia que vai nos salvar das atrocidades que são cinicamente cometidas no nosso nariz, todos os dias, por gente que acha que tem algum tipo de poder na face dessa terra”, resume Muarrek
Detalhe da capa do livro de Ubiratan Muarrek – Foto: Capa/Reprodução

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Eu definiria o Um Nazista em Copacabana como um romance que tenta explorar o que é estar vivo e atento no Brasil de hoje, com muito humor, com muita ironia. Porque em última análise é esse humor e essa ironia que vão nos salvar das atrocidades que são cinicamente cometidas no nosso nariz, todos os dias, por gente que acha que tem algum tipo de poder na face dessa terra.

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Formado na Faculdade de Direito (FD) da USP, Ubiratan Muarrek exerceu a profissão por pouquíssimo tempo. A linguagem jurídica, tradicionalmente pomposa e formal, o limitava; o tradicionalismo intrínseco à profissão era um elemento de contenção para o então jovem estudante.

Se a linguagem do direito é, para Muarrek, uma antítese da literária — ao menos na maior parte dos estilos , as Arcadas e o ambiente da quase bicentenária faculdade localizada no Largo São Francisco eram, por outro lado, fonte de inspiração. “Toda a minha formação como escritor, embora eu tenha demorado para publicar, foi formulada na São Francisco. Ela é um centro de liberdade do indivíduo, de liberdade de espírito. Literatura requer essa liberdade que as Arcadas promovem. A USP tem um papel muito grande nesse ideário do escritor, a USP em geral e a Faculdade de Direito em particular”, explica.

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Ubiratan Muarrek – Foto: Divulgação

Após o curto período no direito, Muarrek seguiu para a publicidade e depois para o jornalismo, até publicar, em 2007, A Corrida do Membro, seu romance de estreia. Após o primogênito, o paulista de Tupã passou seis longos anos escrevendo (e reescrevendo) a sua obra mais recente, Um Nazista em Copacabana, lançada pela Editora Rocco. “Foram seis anos de escrita contínua, dura, árdua, diária, dificílima, sofrida, mas ao mesmo tempo muito recompensadora. Um dos desafios de você trabalhar com personagens com histórias é que é mais difícil que ele pare em pé, em comparação com um livro baseado muito mais em fluxos de consciência ou autoficção”, aponta o escritor.

Em meio a seus personagens complexos e ao entrelaçamento de histórias diversas, Muarrek afirma incisivamente “deplorar a autoficção” e critica o “eu, eu, eu” que cerca a literatura contemporânea. Para ele, grandes personagens não precisam fazer grandes coisas, mas precisam ter “grande senso de humanidade”. Mais do que isso, requerem que o autor se reduza e seja capaz de “ouvi-los”, em vez de tentar falar por eles. “Um grande personagem não é ventríloco do escritor. O escritor tem que se aniquilar. O personagem não pode ser um mero condutor de ideias do autor, ele tem que ser um condutor de suas próprias ideias. E o desafio de você ouvir é o maior de todos se você quiser criar um livro com personagens relevantes de alguma maneira”, diz.

Brasil-Alemanha

Um Nazista em Copacabana, diferentemente do que o nome parece sugerir, não conta a história de um soldado hitlerista desbravando as praias cariocas. A segunda obra de Ubiratan Muarrek insere-se em um Brasil recente, do começo do século 21, e tem como principal protagonista Diana Verônica, filha do já falecido Otto Funk, o nazista do título. O livro transita entre as desventuras de Diana, que foge das confusões em que seu ex-companheiro se envolveu em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, ao mesmo tempo em que revisita a trajetória do alemão que fugiu para o Brasil décadas antes.
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Combatente alemão Otto Funk
O combatente alemão Otto Funk, em foto histórica – Foto: Wikipedia

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Misturando ironia e drama,
Um Nazista traz elementos da “vida real”, com homônimos famosos no centro da trama: Otto Funk era também o nome de um combatente da juventude hitlerista que tornou-se célebre por uma foto tirada durante uma operação na Normandia; Delúbio Moreira, ex-marido de Diana, é uma clara referência a Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, preso no escândalo do Mensalão.

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Delúbio Soares - Foto: Agência Brasil
Delúbio Soares – Foto: Agência Brasil

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Essa mescla de nazismo e mensalão e, em última instância, de países tão antitéticos como Brasil e Alemanha — presente no livro é fruto da percepção de Muarrek de que o Brasil precisa “se abrir para o mundo”. “Eu acho que o Brasil é um país muito insular. O português mais nos atrapalha do que nos ajuda, na prática ele nos isola de 90% do mundo. Isso faz com que seja muito fácil dominar, faz com que este país tenha donos, porque língua é poder. Eu me acho um cidadão do mundo e gostaria que o Brasil fosse muito mais integrado ao mundo do que ele é, no comércio, na cultura, na política, no turismo, em qualquer ramo da vida nacional. A insularidade nos faz mal, nos torna o pior inimigo de nós mesmos. E eu acho que isso também se reflete na literatura. Então eu busquei uma história que unisse a cultura de dois mundos, como uma forma de quebrar essa insularidade da cultura brasileira”, explica o autor.

O leitor

Em um livro com diálogos complexos e 350 páginas, Muarrek utiliza-se de recursos diversos para prender a atenção de seu leitor. Um deles — provavelmente o mais fácil de se notar — é a separação pouco usual entre capítulos: não há numeração e quase não se nota quebra da narrativa entre eles. Para o autor, num mundo em que se é “assaltado por outras formas de comunicação” e “ler um romance é o último item da lista de prioridades”, é preciso utilizar esse tipo de artifício literário, que sugere um fluxo maior da narrativa.

Sem receio de parecer — mas afirmando não ser — um “populista literário” ou demagogo, o escritor paulista afirma incisivo que faz “tudo que é possível” para engajar o seu leitor. “Eu escrevo para os meus leitores, eu amo o meu leitor de uma forma muito intensa. A minha relação com ele é só minha. Ninguém tem acesso e ninguém tem nada a ver com isso. Nem a crítica nem o meu editor nem ninguém. Eu coloco meu jogo literário na mesa com o meu leitor, e convido-o para percorrê-lo comigo. É isso que eu faço, é isso que me move”, ressalta.

Paixão pelas mulheres

Se a construção da literatura de Muarrek é uma parceria com o leitor, as mulheres de sua vida são as grandes homenageadas. “O livro é uma declaração de amor às mulheres. Não no sentido romântico, de desejo afetivo ou sexual. Eu tenho um amor incontido pelas mulheres. Jovens, maduras, velhas, eu acho que elas são a força do mundo. E a minha literatura busca muito isso porque eu cresci no meio de muitas mulheres maravilhosas e especiais. Um Nazista em Copacabana, apesar do título, é um livro essencialmente feminino, e é um livro em que eu procuro demonstrar todo o meu amor e agradecimento às mulheres que eu encontrei até hoje na minha vida”, conta.

Nova obra

Após passear pela manhã nazista, o autor foca agora sua atenção no Brasil e em seus contrastes. Em sua nova obra, que está em fase de formulação, Muarrek contará a história de duas irmãs gêmeas brancas e um casal de irmãos negros, que convivem na infância e na adolescência e depois de anos se reencontram em um contexto bem diferente. “Eu quero explorar o que é ser brasileiro, e as oportunidades que o País te dá ou te tira, esses contrastes. Escrever no Brasil é um desafio muito grande porque é quase uma impossibilidade, e eu quero explorar os limites da impossibilidade de você ser um escritor de romance nacional”, adianta.

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