Resistência ao nazifascismo alemão é tema de seminário na USP

Nesta quinta-feira, dia 8, evento no Instituto de Estudos Avançados lembra os 80 anos da Noite dos Cristais

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A Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938, pogrom contra os judeus em que os nazistas os mataram e depredaram sinagogas, casas e lojas da comunidade judaica na Alemanha – Foto: Bundesarchiv/ CC-BY-SA 3.0

 

No dia 9 de novembro de 1938, forças paramilitares e civis alemãs empreenderam um pogrom (palavra de origem russa que significa devastação, destruição) contra os judeus. Os nazistas mataram dezenas de judeus e depredaram sinagogas, casas e lojas da comunidade judaica. A data ficou conhecida como Noite dos Cristais (Kristallnacht), em razão dos milhões de pedaços de vidro partidos que encheram as ruas depois do ato de violência. Para rememorar os 80 anos dessa noite, o Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e a Cátedra Martius de Estudos Alemães e Europeus realizam, nesta quinta-feira, dia 8, às 14h30, o seminário Memória, Democracia e Resistência: Reflexões sobre o Nazifascismo na Alemanha, que vai reunir pesquisadores de várias áreas de estudos alemães para tratar, a partir de diferentes perspectivas, das repercussões do regime nazista ontem e hoje.

Segundo Brigitte Weiffen, titular da Cátedra Martius de Estudos Alemães e Europeus e professora visitante da USP patrocinada pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), a ideia de organizar um evento para refletir sobre o passado nacional-socialista da Alemanha surgiu há alguns meses, quando visitou o Memorial do Holocausto em São Paulo. “Percebi que este ano seriam os 80 anos da Kristallnacht. Os pogroms da Noite dos Cristais marcaram a transição da discriminação contra os judeus na Alemanha nazista desde 1933 para uma política da perseguição sistemática, que depois culminou no Holocausto”, destaca.
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Sinagoga após ataque na Noite dos Cristais – Foto: Bundesarchiv/CC-BY-SA 3.0

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“Como representante do meu país, penso que é importante que os representantes políticos, diplomáticos e culturais da Alemanha no exterior não apenas retratem o país de uma forma positiva, mas sejam capazes de abordar e falar sobre os tempos sombrios do seu passado, e também (se for necessário) de contrapor informações falsas”, continua Brigitte. E acrescenta: “É por isso que penso que é importante levar reflexões sobre o nazifascismo na Alemanha às instituições de ensino superior e discuti-las com os alunos e o público”. A organizadora ainda afirma que é importante destacar que a experiência da ditadura e do nazifascismo na Alemanha é frequentemente usada como ponto de referência quando se discute a possibilidade de resistência sob regimes autoritários e totalitários e a importância da memória do mal para se criar uma cultura democrática. “Serve também como pano de fundo ao analisar a ascensão de novas forças nacionalistas, populistas e autoritárias na Europa e além”, diz.

O cientista político e professor da USP José Álvaro Moisés – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Para o cientista político e professor José Álvaro Moisés, coordenador do Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia do IEA, “o evento é muito importante, do ponto de vista da qualidade da democracia, para entender os processos democráticos e a continuidade da democracia ou, eventualmente, os problemas que as democracias enfrentam, a partir de um procedimento de ordem comparativa que leva em conta experiências históricas anteriores”. Isso permite, segundo o professor, “de alguma maneira entender as possibilidades que se colocam no presente nos regimes democráticos, que estão enfrentando uma série de dificuldades e crises, como é o caso do regime democrático brasileiro”. Ele ressalta que a relevância está em “comparar situações históricas, mesmo que seja em sociedades e momentos diferentes, mas que de alguma maneira oferecem uma perspectiva de comparação para um aprofundamento e maior conhecimento das crises das democracias”.

A programação

O destaque do evento é a vinda da pesquisadora Barbara Laubenthal, professora visitante do DAAD na Universidade de Texas, em Austin (Estados Unidos). Segundo Brigitte, Barbara é cientista política e pesquisou extensivamente a política de memória e a questão de como lidar com o passado, principalmente no contexto alemão, e, mais recentemente, sobre a “noção de história” dentro dos novos partidos populistas na Europa, muitos dos quais expressam visões nacionalistas. “Na Alemanha, surgiu a Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido que começou com a plataforma do euro-ceticismo, mas adotou cada vez mais visões nacionalistas e anti-imigrantes. Em junho deste ano, o chefe desse partido, Alexander Gauland, disse em uma reunião do partido que Hitler e o período do nacional-socialismo eram apenas ‘cocô de pássaro’ (ou seja, apenas um pequeno pedaço de sujeira) em uma história alemã geralmente gloriosa, um comentário que causou escândalo e indignação em grandes partes da sociedade alemã”, contextualiza Brigitte. A conferência da professora Barbara Laubenthal estudará a AfD e sua abordagem do passado nacional-socialista.

A programação traz outras duas palestras. Uma reflexão sobre a resistência pacífica durante o nacional-socialismo: o exemplo da Rosa Branca será proferida pela professora Juliana Pasquarelli Perez, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que falará sobre seu projeto de pesquisa acerca da Rosa Branca, um grupo de estudantes da Universidade de Munique que, por meio da redação e distribuição de panfletos, desafiou o regime nazista. E Memória do mal como cultura da resistência, com o professor Márcio Seligmann Silva, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro do Grupo de Pesquisa Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória. Segundo Brigitte, Seligmann Silva é especialista no tema da memória da violência das ditaduras na América Latina, e vai oferecer uma abordagem mais ampla e comparativa sobre o fascismo ontem e hoje e a importância da memória do mal (ditadura e nazifascismo) para se criar uma cultura democrática.

A professora visitante Brigitte Weiffen – Foto: Divulgação/FFLCH

“O evento histórico do pogrom de novembro de 1938 e a crescente discriminação e violência contra a população judaica na Alemanha nazista não serão analisados diretamente nas conferências”, informa Brigitte. No entanto, segundo ela, esses fatos históricos inspiram reflexões como as seguintes: como é discutido o passado nazista hoje?; numa sociedade como a Alemanha, onde durante décadas foi comum confrontar e memorizar os horrores do Holocausto para não repeti-los, o que significa se surge uma nova força política que relativiza as atrocidades do regime nazista?; de maneira mais geral, que lições podemos aprender com a experiência do nazifascismo na Alemanha?; como os países devem lidar com as atrocidades do passado para evitar que voltem a acontecer?; e o que pode ser feito contra o ódio e a discriminação contra grupos e minorias específicos?

“O que vemos no atual momento político na Alemanha e em outros países onde ideologias nacionalistas e populistas estão em ascensão, entre eles os Estados Unidos e o Brasil, é que as palavras importam. O discurso de ódio de líderes políticos contra certos grupos (como refugiados, negros, judeus, LGBT ou indígenas) pode fazer com que seus seguidores acreditem que é legítimo assediar e cometer violência contra esses grupos. Este é outro paralelo com o passado na Alemanha, onde, já antes mesmo de os nazistas chegarem ao poder e desenvolverem suas políticas estatais de perseguição, a retórica anti-semita de Hitler incentivou atos de violência contra judeus”, conclui.

O seminário Memória, Democracia e Resistência: Reflexões sobre o Nazifascismo na Alemanha será realizado nesta quinta-feira, dia 8 de novembro, às 14h30, na Sala Alfredo Bosi do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP (Rua da Praça do Relógio, 109, térreo, Cidade Universitária, em São Paulo), com transmissão ao vivo pela internet. Haverá tradução simultânea. O evento é gratuito e aberto a todos os interessados, mediante inscrição prévia. Mais informações pelo telefone (11) 3091-1686 e na página do evento.

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