Reginaldo Prandi recebe título de Professor Emérito

Cerimônia de entrega do título será em 5 de junho, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Por - Editorias: Cultura
Reginaldo Prandi é professor aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, especialista em sociologia das religiões – Foto: Luizjacomo via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

O professor aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) das USP Reginaldo Prandi receberá, no dia 5 de junho, terça-feira, o título de Professor Emérito da instituição. A cerimônia acontece às 14 horas no Salão Nobre do Prédio da Administração da FFLCH.

A homenagem é oferecida para docentes que se destacaram ao longo da carreira em atividades de ensino e pesquisa ou que tenham dado contribuições fundamentais para o desenvolvimento da Universidade. A distinção é concedida pela Congregação da FFLCH, que reúne professores, funcionários técnico-administrativos e estudantes.

Prandi é especialista em religiões, com destaque para estudos sobre candomblé, umbanda, catolicismo, espiritismo e neopentecostalismo. É autor de 37 livros, entre obras científicas, ficção policial e literatura infantojuvenil. Entre o grande público, trabalhos envolvendo religiões afro-brasileiras, como Mitologia dos Orixás (2002), são os que receberam maior destaque.

“As religiões afro-brasileiras sempre tiveram um lugar importante entre os temas de pesquisa do Departamento de Sociologia”, recorda Prandi. “A Sociologia na USP teve como um dos primeiros docentes Roger Bastide, que fazia parte da missão francesa e ajudou a instituir a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Ele foi o grande pioneiro no estudo científico do candomblé e da umbanda e seus livros As Religiões Africanas no Brasil e O Candomblé da Bahia até hoje são leituras obrigatórias sobre essas religiões.”

As primeiras pesquisas de Prandi na área datam dos anos 1970, época que apresentava cenário bem diverso do atual. “Quando comecei a estudar religião, o catolicismo reunia cerca de 90% da população brasileira, enquanto as religiões evangélicas somavam 3% e as afro-brasileiras, um número perto disso”, aponta. “Hoje, os católicos caíram para perto de 50% – e continuam caindo – e os evangélicos já somam um quarto da população. Os afro-brasileiros também mudaram muito: até os anos 1960, a religião afro-brasileira que mais se difundia era a umbanda, enquanto o candomblé se mantinha mais como religião étnica, de afrodescendentes. O candomblé, contudo, saiu dos redutos em que originariamente se constituiu e se espalhou por todo o País como religião para todos.”

Segundo o professor, não foi apenas a distribuição da população pelas religiões que passou por transformações. A relação entre elas também mudou, trazendo novos interesses para os especialistas.

“Com o grande crescimento das igrejas pentecostais nas últimas décadas, a competição entre as religiões ficou muito mais acirrada e as afro-brasileiras acabaram perdedoras”, analisa. “No Congresso Internacional Escravidão, que a FFLCH realizou em 1988, nenhum das dezenas de trabalhos apresentados sobre religiões afro-brasileiras falava em intolerância religiosa, conflito e perseguição no âmbito religioso. Transcorridos 30 anos, o que mais se estuda hoje sobre as religiões afro-brasileiras é a questão da intolerância e das agressões sofridas pelos terreiros de umbanda e candomblé por parte de certas igrejas evangélicas, sobretudo pentecostais.”

Na visão de Prandi, as mudanças no cenário e na pesquisa ao longo dos anos não abalaram o interesse acadêmico pelo candomblé, pela umbanda e por outras religiões de origem africana. “De certo modo, o tema hoje se liga a questões da democracia, da liberdade de culto e da construção da cidadania”, analisa.

Mitologia, África e Brasil

Natural de Potirendaba, interior de São Paulo, Prandi chegou à capital em 1964 para estudar Medicina Veterinária na USP. Trocou a graduação na área biológica pelo curso de Sociologia na Fundação Santo André. A escolha seria para a vida toda.

O mestrado foi defendido em 1974 e o doutorado, em 1977, ambos no Departamento de Sociologia da FFLCH, na qual ingressaria como professor em 1976 e se tornaria livre-docente em 1989. Aposentou-se em 2005, continuando no departamento como professor sênior, orientando trabalhos de pós-graduação.

Prandi atuou no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e participou da fundação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Foi também professor na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e um dos criadores do Datafolha, instituto de pesquisa ligado ao jornal Folha de S. Paulo.

Indicado quatro vezes ao Prêmio Jabuti, Prandi parte das pesquisas sociológicas, sobretudo as que envolvem as religiões de matriz africana, para desenvolver sua produção diversificada. Além de Mitologia dos Orixás, sua obra inclui títulos como Os Mortos e os Vivos: Uma Introdução ao Espiritismo (2012), a trilogia infantojuvenil Ifá, o Adivinho (2002), Xangô, o Trovão (2003) e Oxumarê, o Arco-Íris (2005) e o romance policial Morte nos Búzios (2006). Seu livro mais recente é uma ficção ganhadora do Prêmio Cátedra 10 da Unesco, Aimó (2017). Na obra, o espírito de uma jovem escrava parte em jornada de volta para casa, acompanhada por Ifá e por Exu.

Prandi já prepara dois novos volumes. Trabalha num livro batizado provisoriamente de Mitologia Brasileira, sobre mitos ainda vivos no País, originados de tradições europeias, indígenas e africanas. Simultaneamente e já em processo de edição, Ogum analisa as mudanças na representação mitológica do trabalho e do trabalhador, partindo dos caçadores-coletores, passando pelos artesãos e chegando aos operários. “Estuda como o mito antigo vai se transformando para se ajustar às condições de vida atuais, o que permite à mitologia tradicional continuar a servir de base para a prática de uma religião trazida da África no Brasil de hoje”, explica.

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