Professores da USP analisam os 100 anos da Bauhaus

Criada em 1919 com um estilo arrojado, escola alemã lançou as bases da arquitetura contemporânea

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Escola de Arte Bauhaus, projetada pelo arquiteto Walter Gropius, em 1925, Dessau, Alemanha – Foto: Reprodução

Fundada pelo arquiteto alemão Walter Gropius em 25 de abril de 1919, a Staatliches-Bauhaus (Casa de Construção) foi uma escola de artes, design e arquitetura de vanguarda na Alemanha. Primeira escola de design do mundo, a Escola Bauhaus lançou as bases da nova arquitetura que marcaria o século 20 e que, ainda hoje, quando completa 100 anos, ecoa pelo mundo. “Diria que é uma referência primordial para entender a ruptura paradigmática do primeiro modernismo com relação ao ecletismo da tradição acadêmica neo-clássica, no final do século 19 e início do século 20”, afirma o professor Bruno Padovano, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Ele acrescenta que, passados 100 anos de sua criação, “a Bauhaus continua a ser objeto de estudos por historiadores interessados naquele período racionalista e funcionalista, hoje identificado como sendo da modernidade sólida”.

Um dos seus principais objetivos era unir engenheiros, arquitetos, pintores, artesãos, designers e artistas, além de produzir artesanato e tecnologia, valorizando a produção em escala industrial. Também procurou estabelecer planos para a construção de casas populares, e havia espaço ainda para publicações e exposições. Para Padovano, os objetivos iniciais da Bauhaus, segundo a conceituação de Gropius, eram de ordem metodológica. Gropius não pretendia criar um estilo moderno, em oposição ao eclético, que ainda dominava a época. “Ele buscava uma ‘atitude sem escrúpulos, original e elástica com relação aos problemas de nossa geração’. Toda a atenção era dada aos processos industriais e à solução dos problemas sociais oriundos da Revolução Industrial, valorizando a função sobre a forma, tópico central das escolas de belas-artes da época”, relata.

O prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, projeto de João Batista Vilanova Artigas, que expandiu os conceitos da Bauhaus, entendendo que a principal função de uma escola de Arquitetura e Urbanismo deveria ser social – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Com um ensino inovador, baseado na experimentação prática, só após três ou quatro anos os alunos tinham aulas de história, para não influenciar suas criações a partir de padrões herdados do passado. O Vorkurs – literalmente, “curso preparatório” – era um curso exigido a todos os alunos e ministrado nos moldes do atual curso de Desenho Básico, fundamental em escolas de arquitetura por todo o mundo. No semestre seguinte, o aprendiz seguia para uma oficina de sua escolha e os temas eram dos mais diversos, desde pintura, escultura, teatro, fotografia, cerâmica, impressão e tecelagem até arquitetura.

“Na sua concepção inicial, o curso inaugural buscava aproximar artistas e técnicos, incentivando a criatividade e a experimentação dos alunos”, conta Padovano. Segundo ele, isso ocorre ainda em muitas escolas, no exterior e no Brasil, como no curso básico de Arquitetura e Urbanismo da FAU, quando os alunos recebem informações variadas e desenvolvem exercícios básicos de projeto por professores dos cinco grupos de disciplinas do Departamento de Projeto: Desenho Industrial, Paisagem e Ambiente, Planejamento Urbano, Programação Visual e Projeto de Edificações. “O uso de maquetes nesses exercícios é próprio da herança da Bauhaus e sua inovadora metodologia de ensino”, completa.

A sala de Gropius, em Weimar, foi decorada com móveis criados na escola, como a cadeira F51, assinada por ele, e o tapete de Gertrud Arndt – Foto: Samuel Zuder / Thüringer Tourismus GmbH

O corpo docente da Bauhaus também causou grande impacto na arte do século 20. Ele era integrado por nomes como László Moholy-Nagy, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Josef Albers, Herbert Bayer, Marcel Breuer, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer e Gerhard Marks. “Influenciados pela euforia da emergente sociedade industrial, esses mestres seguiram a orientação de elaborar uma linguagem própria para a era da industrialização que se alastrava pela Europa e Estados Unidos, gerando movimentos de renovação no campo das artes e do design, além da arquitetura e urbanismo”, lembra Padovano. “Foi qualificada uma verdadeira fábrica de ideias, cuja repercussão sente-se até hoje”, completa.

A história da Bauhaus

Constituída pela fusão das Escolas de Artes e Ofício e Belas-Artes de Weimar, a Bauhaus teve apenas 14 anos de existência. Depois de seis anos em Weimar, muda-se, em 1925, para Dessau (sob a direção de Hannes Meyer), sendo instalada em um edifício projetado por Gropius, de arquitetura industrial moderna e arrojada – representando os ideais defendidos pela escola, como a estética ligada à funcionalidade e à economia de materiais. Em 1930, com o advento dos ideais nazistas, a Bauhaus – considerada uma frente comunista, especialmente porque muitos artistas russos trabalhavam ou estudavam ali –, foi encerrada e seus professores e alunos, perseguidos pelo Estado alemão. Como última tentativa de sobrevivência, a sede da escola ainda se mudou, em 1932, para Berlim (dirigida por Mies van der Rohe), mas em 1933 foi definitivamente fechada. Mesmo com o fim da experiência da Bauhaus alemã, seus ideais já estavam difundidos pelo mundo.

A cadeira Wassily, também conhecida como a cadeira Modelo B3, foi projetada por Marcel Breuer entre 1925 e 1926, enquanto ele era o chefe da oficina de fabricação de armários na Bauhaus, em Dessau, Alemanha – Foto: Wikipédia

Nas décadas seguintes, a Bauhaus teve impacto fundamental no desenvolvimento das artes e da arquitetura do Ocidente europeu e também dos Estados Unidos, Israel e Brasil, para onde se encaminharam muitos dos artistas exilados pelo regime nazista. Segundo Padovano, os professores que deixaram a Alemanha levaram adiante a adoção de um novo paradigma, em oposição ao do academicismo e do racionalismo-funcionalismo. “Em 1950, foi criada a escola de Design de Ulm, por Max Bill, seguindo a orientação da Bauhaus, que por sua vez, foi fechada em 1968”, acrescenta.

“De forma festiva, a escola promoveu uma verdadeira revolução no ensino das artes plásticas, desenho industrial e arquitetura, tornando-se uma referência para outras instituições de ensino”, diz Padovano. Ele conta que, na FAU, o célebre professor João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) – que projetou o edifício da escola e foi protagonista na sua orientação pedagógica – expandiu, na reestruturação curricular ocorrida em 1962, os conceitos da Bauhaus, entendendo que a principal função de uma escola de arquitetura e urbanismo deveria ser social.

Para Padovano, a importância dada por Artigas ao uso de técnicas construtivas próprias da era industrial, associadas a uma espacialidade generosa e uma orientação para a dimensão pública e associativa, além de sua ligação com Lásló Moholy-Nagy, um dos pioneiros da Bauhaus, “foram pontos de partida para a orientação pedagógica da escola, aberta para várias manifestações artísticas e de projeto, das artes plásticas à cenografia, do design de pequenos objetos às grandes escalas do urbanismo contemporâneo”.

A cadeira Wassily, de Marcel Breuer: Bauhaus estava aberta para várias manifestações artísticas e de projeto, das artes plásticas à cenografia, do design de pequenos objetos às grandes escalas do urbanismo contemporâneo – Foto: Wikipédia

Ecos contemporâneos

Segundo a professora da FAU Giselle Beiguelman – colunista da Rádio USP -, o legado que a Bauhaus deixou no campo das artes, especialmente nas artes mediadas pela tecnologia, foi de grande importância. “A Bauhaus foi crucial nesse processo porque foi uma escola que promoveu a ruptura de limites entre a arquitetura, as artes e o design. É central na produção e no currículo da escola como essas disciplinas operavam de forma integrada e transversal”, comenta. Um dos exemplos disso, ela cita, é o Ballet Triádico, de Oskar Schlemmer, obra que combina aspectos cenográficos e elementos coreográficos com um trabalho de iluminação. “Nesse balé experimental, fica clara a relação entre arte, design e arquitetura e, de alguma forma, cria matrizes que são patentes em todo o campo da história da arte e tecnologia contemporâneas”, explica.

Croquis de poltronas desenhadas pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas, em 1948, e poltronas em compensado recortado e couro, criada por Artigas (sem data), presentes no livro Móvel Moderno no Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos – Fotos: Reprodução

A professora dá outros exemplos da proximidade da Bauhaus com a arte. Um deles, “quase que recorrente e autoexplicativo”, é uma das cadeiras mais famosas da Bauhaus, a Wassily, de Marcel Breuer, que, segundo ela, tem esse nome em homenagem ao artista Wassily Kandinsky, mestre da Bauhaus e considerado um dos maiores artistas do século 20. “Pouco associada ao artista, um dos ícones da produção dessa escola não por acaso é uma homenagem a ele”, ressalta a professora. “Marcel Breuer fez parte da primeira geração formada na Bauhaus e depois se tornou professor da escola. A cadeira é uma referência a um dos professores”, informa. E continua: “Há quem diga que essa cadeira tenha sido feita para a sala de estar do próprio Kandinsky. É uma peça inovadora, com tubos de aço e desenho radical, e uma das peças mais conhecidas da escola”.

“A Bauhaus foi desde o princípio uma escola na qual o design não poderia ser pensado sem a referência da arte”, diz Giselle. A professora ainda lembra a exposição de Paul Klee, atualmente em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, também um dos grandes mestres da Bauhaus, e reitera a importância de outros nomes, ainda que pouco conhecidos do público, como Oskar Schlemmer, segundo ela uma referência incontestável dessa articulação entre arte, tecnologia e design, além da composição arquitetônica. “Nesse centenário, é importante destacar características que não são muito lembradas, como essa relação com a arte, mas que são de fundamental importância para se compreender o legado da Bauhaus.”

A professora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, também da FAU, lembra que a Bauhaus “teve uma segunda vida nos Estados Unidos, ainda em torno de Walter Gropius, durante sua estada em Harvard, e também em torno do Black Mountain College e das atividades de Richard Buckminster Fuller”. No Brasil, o que poucas pessoas sabem – diz a professora – é que o arquiteto João Batista Vilanova Artigas, que estava diretamente ligado aos conceitos da Bauhaus, também criava móveis. Maria Cecilia apresenta croquis e poltronas desenhadas por Artigas em seu livro Móvel Moderno no Brasil (Editora Olhares), que está em sua segunda edição e se tornou uma obra de referência para o estudo do design do mobiliário brasileiro.

Marta Erps-Breuer, ex-aluna da Bauhaus que trabalhou na USP e é tema de tese de doutorado em andamento na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP – Foto: Acervo do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP

Além disso, a Bauhaus está presente em pesquisas, como demonstra a tese de doutorado em andamento de Ana Julia Melo Almeida, Artefatos Têxteis: Mulheres e Design no Brasil, sob a orientação de Maria Cecilia. Com apoio da Fapesp, o trabalho investiga a participação das mulheres no design moderno brasileiro, entre elas Marta Erps-Breuer, designer alemã que foi aluna da oficina de tecelagem da Bauhaus entre os anos 1920 e 1924 e mulher de Marcel Breuer. Maria Cecilia comenta que, no final da década de 20, Marta decide se estabelecer no Brasil, sendo contratada em 1935 pela então recém-fundada Universidade de São Paulo. Como docente da USP, participou de pesquisas pioneiras no campo das ciências biológicas. Seu percurso ficou restrito ao Departamento de Genética, mas seu trabalho é de grande importância, dado o detalhamento dos estudos em formato de desenhos, esquemas, esculturas e fotografias. “O legado pedagógico da Bauhaus, a ênfase no ensino de projeto, a conexão com o trabalho manual e o sentido do fazer são temas extraordinariamente importantes para a formação dos designers e arquitetos dos dias de hoje”, afirma Maria Cecilia.

Também da FAU, a professora Ewely Branco Sandrin destaca a “inovadora metodologia de ensino da Bauhaus e suas derivações, baseadas na busca do desenvolvimento de uma percepção crítica do mundo”. Ela afirma que a transdisciplinaridade e os procedimentos na execução do projeto são questões fundamentais no processo de ensino-aprendizagem da forma. “Nas diferentes fases desse movimento cultural e artístico, podemos observar que, sob a filosofia do ‘aprender fazendo’ e sob as teorias da forma, estava sempre presente a interação entre artes, técnicas, materiais e processos de produção industrial”, acrescenta Ewely. “Apesar das divergências internas e da repressão e perseguição externas às suas ideias, o processo de trabalho híbrido, assim como o trânsito entre linguagens, aliado à ciência e à tecnologia para o alcance de soluções inovadoras do design contemporâneo, tem origem nos ensinamentos dessa fascinante escola, ainda hoje objeto de pesquisas acadêmicas. A forma venceu o autoritarismo.”

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