O Olimpo passional de Maradona

A morte do craque argentino, visto como um deus por seus fanáticos admiradores, expõe a genialidade e a tragédia que o marcaram

 26/11/2020 - Publicado há 1 ano
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Maradona, de menino pobre a astro do futebol – Arte de Moisés Dorado/Jornal da USP sobre fotos de Domínio público/Wikimedia Commons

Ouça no link abaixo entrevista com o treinador e ex-jogador de futebol Murilo Fabri, mestrando da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP. A entrevista foi feita pela radialista Roxane Ré e pelo jornalista Luiz Roberto Serrano no programa Jornal da USP no Ar, da Rádio USP (93,7 MHz), transmitido nesta quinta-feira, dia 26.

Por mais argentino que fosse, Diego Armando Maradona queria que sua vida fosse uma eterna festa, uma espécie de samba carioca (do qual ele tanto gostava) dentro e fora do campo. Não foi possível. Até porque ninguém tem sangue portenho impunemente – e sua vida ganhou os contornos trágicos e rasgados de um tango. E, ao morrer de ataque cardíaco aos 60 anos no último dia 25, a turbulenta existência do craque já tinha ganho contornos de opereta. Os argentinos, sabemos bem, tendem a colocar seus ídolos em uma espécie de Olimpo passional, admirados com idolatria cega. Foi assim com Evita. Foi assim com Gardel. E foi assim com Diego Maradona em vida – e certamente será ainda mais agora que a “mão de Deus” foi se encontrar com seu Criador. Mais do que o melhor jogador argentino de todos os tempos – apesar de votos favoráveis a Lionel Messi e, ainda hoje, olhares saudosistas a Alfredo Di Stéfano -, Maradona passou pelos campos, pelas calles e pelas boates da vida como uma lenda viva. Uma lenda, como na música de Cazuza, exagerada: jogou muito, bebeu muito, se drogou muito. Foi muito além em todas as doses.

Jogo entre Argentina e Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986: os argentinos venceram os ingleses com dois gols de Maradona, um deles feito com a mão – Foto: Domínio público/ Wikimedia Commons

De tal forma, que nos últimos 20 anos sua morte foi esperada (e quase noticiada) inúmeras vezes. Mas Maradona conseguia, sabe-se lá como, se recuperar de todas as suas overdoses e bebedeiras (chegou a ser internado com uma, digamos, overdose de medialunas recheadas de creme e doce de leite. Comeu, de uma sentada, 36 delas). Até que sucumbiu ao golpe final, pouco depois de parecer recuperado de mais um problema de saúde, desta vez um edema detectado entre o cérebro e o crânio. Como bem escreveu o diário argentino Clarín ao noticiar a morte do “pibe de oro”: “E um dia aconteceu. Um dia o inevitável sucedeu. É uma pancada emocional e nacional. Um golpe que ressoa em todas as latitudes. Um impacto mundial. Uma notícia que marca uma guinada na história. A frase que várias vezes se escreveu, mas havia sido driblada pelo destino, agora é parte da triste realidade: morreu Diego Armando Maradona”. O luto oficial de três dias decretado pelo governo argentino e o velório na Casa Rosada, sede do poder, dão bem a dimensão de seu tamanho no imaginário e na história da Argentina.

Ascensão e queda de um craque

A trajetória lendária – e, com o correr dos anos, trágica – de Don Diego nos gramados começou aos 15 anos, quando estreou no time principal do Argentinos Juniors, uma equipe de segunda categoria argentina. Era pouco time para muito talento e Maradona logo chamou a atenção. Não o suficiente, contudo, para levá-lo à Copa do Mundo de 1978 – o técnico da seleção César Menotti preferiu deixá-lo de lado. Azar da Copa. Mas em 1981, aos 21 anos, as portas do Boca Juniors – o outro time mais importante da Argentina, ao lado do River Plate – foram abertas para o craque. E lá ele começou uma relação apaixonada que duraria sua vida inteira, por mais que tivesse jogado apenas um ano na equipe portenha. Em 1982 foi para o Barcelona, depois de uma Copa do Mundo na Espanha pífia. Na época, ele foi o jogador mais caro de todos os tempos: astronômicos US$ 8 milhões – Messi ganha, por mês, US$ 10 milhões. E sua fama só fazia crescer, para o bem e para o mal, dentro e fora de campo. Muitos cronistas garantem que foi na capital da Catalunha que Maradona começou a se envolver com drogas. Some-se a isso um relacionamento turbulento com seus companheiros de time e o resultado foi sua venda, na correria, para o periférico Napoli da Itália. E ali ele fez história.

Maradona no Boca Juniors: em apenas um ano de atuação no time argentino, craque começou relação apaixonada com a torcida – Foto: Domínio público/ Wikimedia Commons

Afinal, ao chegar à cidade costeira aos pés do Vesúvio ele encontrou um time fraquinho, que nunca havia vencido nada de relevante. Com Maradona, o Napoli foi bicampeão italiano e campeão da Copa da Uefa. Nunca mais a equipe napolitana repetiu o feito. Não é à toa que, por lá, Maradona é quase um deus – o prefeito da cidade já informou, no mesmo dia da morte do jogador, que o estádio onde o Napoli joga deixará de se chamar San Paolo e ganhará o nome do dez mais famoso que seu time já viu em campo. Mas até nessa vida napolitana há uma mácula: foi lá que o envolvimento com as drogas engolfou o craque de vez.

A carreira – sem trocadilho, por favor – de Maradona em campo foi coroada naquela Copa que muitos garantem que ele ganhou sozinho e que consolidou de vez a sua fama: a do México, em 1986. E graças, principalmente, a um jogo, aquele contra a Inglaterra. Nessa partida, Maradona fez dois gols antológicos: o primeiro, ao desviar sutilmente com a mão um cruzamento na área e vencer, com seu 1,65 m, o goleiro inglês Peter Shilton, de 1,83 m. “Foi a mão de Deus”, garantiu ele depois, com a ironia que viraria a marca registrada daquele tento. O outro, talvez o mais lindo de todas as Copas, ao driblar meio time inglês e só não entrar com bola e tudo porque teve humildade em gol. Os gols tiveram ainda uma importância, digamos, geopolítica: era uma espécie de vingança contra a derrota, quase quatro anos antes, para a Inglaterra na disputa pelas Malvinas/Falklands.

Maradona em jogo do Napoli contra o Roma, na temporada de 1984-1985 do campeonato italiano: com o argentino, equipe napolitana foi bicampeã da Itália e campeã da Copa da Uefa – Foto: Domínio público/ Wikimedia Commons

A Copa mexicana foi o ápice maradoniano. Na seguinte, na Itália, a Argentina perdeu a final para a Alemanha – e Maradona chorou, depois de ter convencido os italianos a torcerem por ele. Um deus napolitano, lembram-se? E na Copa dos Estados Unidos, em 1994, o ocaso: pego no exame antidoping por uso de efedrina, a carreira de Maradona foi ribanceira abaixo. Uma queda que já havia se mostrado com todas as cores de tragédia em 1991, quando foi pego pela primeira vez em um exame antidoping por uso de cocaína. Ficou 15 meses suspenso e, quando voltou, não era mais o mesmo jogador que havia encantado o mundo.  

Quando abandonou de vez a bola, em 1997 – depois de um resto de carreira errático -, Maradona tentou, mas não conseguiu se reinventar. Em seu discurso de fim de carreira na Bombonera, o estádio do Boca, ele fez um mea culpa sincero: “Eu errei e paguei por isso. Mas a bola é sempre limpa”. O problema é que, longe da limpeza da bola, sua “amiga”, ele se perdeu.

“El Diez”, o “Barba” e o “Rei”

As peripécias de Maradona fora do campo dão bem a dimensão de como, longe das quatro linhas, ele se desencontrou. Houve uma tentativa, é verdade, de ser treinador, mas foi um fiasco, mesmo tendo dirigido a Argentina na Copa da África do Sul, em 2010. Chegou a ter um relativo sucesso inicial em um programa de TV, o talk show La Noche del Diez, mas não foi muito longe. Seu grande momento foi no programa de estreia, quando entrevistou o Rei, o maior de todos – menos para os argentinos, claro: Pelé. Trocaram bola em cabeçadas bem orquestradas, se abraçaram, se beijaram – e ficou por isso mesmo. Maradona, que havia sido um fã ardoroso do Atleta do Século, passou a alfinetá-lo. sempre que podia. O que não impediu Pelé de chamá-lo de “amigo”, ao se referir à sua morte. Rei é rei.

Maradona e Pelé: duas lendas do futebol – Foto: Domínio público/ Wikimedia Commons

Mesmo com a vida virada de cabeça para baixo e tendo adquirido a circunferência de um barril – chegou a pesar 120 quilos, que foram reduzidos depois de uma operação bariátrica e recuperados com juros mais tarde -, Maradona não perdeu os adoradores que angariou ao longo dos anos. Pelo contrário: eles pareciam só aumentar, o que aumentava também sua aura de lenda. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, genial, apaixonado por futebol e dado a algumas hipérboles, chegou a sacramentar certa vez: “Maradona é o mais humano dos deuses”. Em determinado momento, o craque refutou qualquer comparação divina: “Deus é Deus. Eu sou apenas um jogador de futebol”, disse ele em 1991. Mas com os anos ele foi mudando de opinião, ao mesmo tempo em que passava a se tratar na terceira pessoa. “É evidente que Maradona tem uma linha direta com o Barba”, garantiu ele em uma entrevista. E, sim, Don Diego se dava ao direito a certas intimidades. O “Barba”, no caso, era Deus.

Talvez o ponto máximo dessa “divinização” de Diego Maradona tenha sido – primeiro a título de brincadeira, depois levada bem a sério – a criação da “Igreja Maradoniana”, onde o craque é devidamente tratado como um ser sobrenatural. A tal igreja tem seu natal próprio – 30 de outubro, nascimento de Diego -, cânticos incensando sua mãe, Tota, e até um rito de batismo bem próprio: o iniciado, para receber a unção maradoniana, deve pular diante de uma figura em tamanho natural de papelão de Peter Shilton – o goleiro inglês daquele famoso jogo -, dar um salto e reproduzir o lance da “mão de Deus”. Pronto: está batizado.

Videla, Menem e Maduro

Diante da comoção com a morte de Maradona, é claro que o que vai ficar são suas peripécias dentro de campo, o que ele fazia com a bola com aquela perna esquerda que parecia mágica. As imagens estão aí mesmo para garantir a posteridade de todos os seus lances – afinal, Maradona foi o primeiro gênio midiático da bola, aquele que ganhou imagem em televisões de todo o mundo. Mas não dá para esquecer de tudo o que Maradona – humano, demasiado humano – fez fora de campo e que ajudou a confundir sua imagem. As opiniões confusas sobre temas os mais diversos, os tiros de espingarda de ar comprimido que deu em jornalistas, as ameaças a seus desafetos, as vias de fato com ex-companheiras.

Isso, sem se falar de sua confusa, por assim dizer, visão política. Talvez seja importante relativizar, de certa forma, a questão que dá conta de Maradona como uma pessoa engajada na luta pela justiça social. Muitos estudiosos e críticos – como o sociólogo argentino Juan José Sebreli – nunca acreditaram nisso. “Não é um esquerdista nem rebelde social ou transgressor. É um oportunista”, escreveu Sebreli, talvez carregando nas tintas. Mas não longe de uma compreensão maior do homem atrás do mito e da lenda.

Afinal, Maradona, ao longo de sua vida pública, passeou por praticamente todos os espectros ideológicos: apoiou o governo de extrema direita de Jorge Videla, foi partidário do ultraliberal Carlos Menem, se aliou com o peronismo de Eduardo Duhalde e dos Kirchner e, finalmente, consagrou Fidel Castro – que morreu no mesmo dia que ele, quatro anos atrás – como “um segundo pai”. Isso, sem se falar nas aparições públicas em Caracas ao lado de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

Mas certamente isso tudo não tem a menor importância para o argentino comum, aquele que reconhece em Maradona um dos seus. Não é o que afirma o título de sua autobiografia, Eu Sou o Diego do Povo? Pois é. Aquela multidão que lotou a Plaza de Mayo e várias avenidas portenhas chorando a morte de seu ídolo não queria saber de ideologias. Só queria prantear sua perda e extravasar a dor que tango nenhum vai emular. Diego vai muito além de rótulos, no final das contas. Como explicou certa vez um argentino, torcedor do River Plate, ao ser questionado sobre a razão de ter a imagem do ídolo boquense Diego Maradona tatuado em um braço: “Diego é de todos os argentinos”. E ponto final.

Foto: Reprodução/Youtube


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